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Neide Arauijo Castilho Teno
Dourados / MS

Desce da janela, afinal, é carnaval



Da janela eu observava tudo e sonhava. Era época de carnaval, tempo em que me faz transportar para a época da infância e juventude, para as quartas-feiras de cinzas nas ruas desertas, onde só se via os redemoinhos levantarem para o ar os despojos de serpentinas e confetes.

Gente simples com um véu escuro cobrindo a cabeça caminhavam em direção à igreja tagarelando baixinho e desfiando o rosário, como que se regenerassem dos dias de pecado cometido, não por elas, mas pelos outros. Ao meio dos destroços carnavalescos, via-se os caminhões recolhendo os trabalhadores, que muito cedo tinham que estar na luta da construção da barragem Urubupungá. Assim era o cenário naquela cidade do interior de São Paulo, como se as ruas e praças de Andradina se explicassem para que tinham sido construídas. E os dias de carnaval se iam...

Período de muita alegria, muitas pessoas pelas ruas. Algumas fantasiadas, outras sem, ou em busca de qualquer uma. Caminhavam e dançavam pelas ruas. Uns sentados nos bancos, outros nas calçadas.

Uma bailarina sem sapatilhas, dando ares de fim de festa saltitava pelas ruas contribuindo para a alegria da época .Distribuia sorrisos, jogava confetes e serpentinas, cantava, desmedidamente as valsinhas de carnaval! E no cansaço repousava largada , na esquina de uma rua.

Aproxima-se dela um desconhecido também fantasiado e divertido. Estende sua mão em direção à bailarina. Ela olha desconsolada para os seus pés, para as suas roupas amassadas. O pirata sem pensar graceja:

-Doce criatura, é carnaval, porém não é verdade que tu és bailarina! Transforme essas vestes de seda numa capa de rainha! Agarre-se aqui e se sustenta nos meus ombros! Posso ser teu trono!

Momentos engraçados, um folião anônimo carregando uma rainha nos ombros ao som das marchinhas de carnaval- Chiquinha Gonzaga-1899:

Ó abre alas que eu quero passar
Ó abre alas que eu quero passar
Eu sou da lira não posso negar
Eu sou da lira não posso negar
Ó abre alas que eu quero passar
Ó abre alas que eu quero passar
Rosa de ouro é que vai ganhar
Rosa de ouro é que vai ganhar

E o outro? Que engraçado! Com vestes semelhantes ao velho Pixinguinha, de pijama listrado sambava ali, no meio da rua, e o sambista empolgava dizendo:

- Dança quem pode, obedece quem tem juízo, corre quem consegue, canta quem sabe a letra, abre os braços quem se desvencilha dos adereços.

No entanto, na realidade, eu, de comemorações da cidade, pouco participava nesta época. Gostava mesmo era do coreto da praça, da banda, que aos domingos encantava os enamorados. Há tempos não ia a festas, não tinha o hábito de me fantasiar, fazer blocos. Por outro lado, tinha a liberdade de visitar as amigas, de ficar até ás 11 horas da noite no portão conversando, numa rua até deserta onde morávamos, olhando a vida, os outros, um irmão jogando bolinhas de gude.

Dois presentes eu tinha ganhado de um folião incontestável, amigo de escola, -o Tilin: uma máscara e um saco de confete. Mal sabia ele que, em festas de carnaval eu não tinha o habito de ir, mas mesmo agregando pouca alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma pessoa feliz.

Pensava eu, porque essas máscaras? Uma coisa que no fundo nada representava de bom porque vinha de encontro com à minha suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. Se naquele momento, absorta em meus pensamentos e sonhos, um mascarado falasse comigo, de repente ´poderia entrar em contato com o meu mundo interior, que de fantasia certamente não era feito, mas de pessoas com muito mistério.

Pouca coisa me animava no meio de tantas preocupações com meu pai, que viajava muito e para bem longe, terras longínquas de Mato Grosso, enfim eu não tinha cabeça para carnaval. Mas a vaidade era estampada no momento em que pedia a um dos meus irmãos para que passasse ferro quente nos cabelos ondulados como se fosse a chapinha de hoje. Época de adolescência trás na mente sonhos, sonhos vulneráveis, boca de batom bem forte, ruge nas faces salto nos pés. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da mesmice de outras.

E os confetes? Para que serviam os confetes?

Acredita que tiveram serventia? Aquele foi um carnaval diferente até considero milagroso que eu não conseguia acreditar. Uma amiga resolvera fantasiar de colombina, figurino diferente para uma ocasião tão certa. Muitos adereços, fitas coloridas, pura imitação, embora as crianças da época não tinha o costume de se fantasiar. Sempre imaginei que carnaval sem criança não tinha a menor graça. Elas eram as mais inocentes criaturas e dispostas a entrarem no clima transformando tudo em divertimento e folia. Brincavam com os amigos nas ruas, clubes ou em casa, o que não faltavam eram os confetes e serpentinas para colorir a festa

Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobraram fitas de cetim muitas fitas. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu apelo mudo, ou por bondade, já que sobrara papel e fitas - resolveu fazer uma fantasia para mim. Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, aceitei humilde o que o destino me dava. A vida é assim mesmo. E os confetes tomaram conta de tudo. Espalhados no ar pareciam chuvas, que os pingos não molhavam, mas causavam êxtases.

Nas ruas da cidade só se ouvia o som do tamborim e da chorosa Cuíca, um som mais grave, que logo me pareceu ser um grande surdo de marcação. As batidas secas, fortes e constantes daquele grande instrumento, pareciam querer dizer aos foliões: "vamos lá rapaziada! Hoje não há lugar para a tristeza". Como se encorajados pelo novo companheiro, que a cada momento se juntava a folia começaram a engrossar as vozes com uma marcha de esperança:

Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando

Pronto agora entendia a anarquia das ruas e o abandono dos restos das alegorias. Ainda ouvia algumas vozes distantes voltando para casa - ainda pude observar uma bela moça, uma Colombina, enlaçada a um Pierrô que passavam com suas sandálias amarradas na cintura e jogando para o alto seus confetes e serpentinas, embalados pelo som que, assim como eu, eles não tinham certeza de onde vinha.

E aquele momento passou como tudo passa na vida. E junto dele veio um sonho: no meio dos confetes e serpentinas a Colombina, na sua alegria contagiante , levantava os olhos, me lançava um olhar como se dissesse:

-"Ei, você aí Desce dessa janela e vem pra cá. Afinal, já é carnaval".

 
     
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008