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Desce da janela, afinal, é carnaval
Gente
simples com um véu escuro cobrindo a cabeça
caminhavam em direção à igreja tagarelando
baixinho e desfiando o rosário, como que se regenerassem
dos dias de pecado cometido, não por elas, mas pelos outros.
Ao meio dos destroços carnavalescos, via-se os caminhões
recolhendo os trabalhadores, que muito cedo tinham que estar na
luta da construção da barragem Urubupungá.
Assim era o cenário naquela cidade do interior de São
Paulo, como se as ruas e praças de Andradina se explicassem
para que tinham sido construídas. E os dias de carnaval
se iam... Período de muita alegria, muitas pessoas pelas ruas. Algumas
fantasiadas, outras sem, ou em busca de qualquer uma. Caminhavam
e dançavam pelas ruas. Uns sentados nos bancos, outros nas
calçadas. Uma
bailarina sem sapatilhas, dando ares de fim de festa saltitava
pelas ruas
contribuindo para a alegria da época .Distribuia
sorrisos, jogava confetes e serpentinas, cantava, desmedidamente
as valsinhas de carnaval! E no cansaço repousava largada
, na esquina de uma rua. Aproxima-se
dela um desconhecido também fantasiado e divertido.
Estende sua mão em direção à bailarina.
Ela olha desconsolada para os seus pés, para as suas roupas
amassadas. O pirata sem pensar graceja: -Doce
criatura, é carnaval, porém não é verdade
que tu és bailarina! Transforme essas vestes de seda numa
capa de rainha! Agarre-se aqui e se sustenta nos meus ombros! Posso
ser teu trono! Momentos
engraçados, um folião anônimo
carregando uma rainha nos ombros ao som das marchinhas de carnaval-
Chiquinha
Gonzaga-1899: Ó abre
alas que eu quero passar E
o outro? Que engraçado! Com vestes semelhantes ao velho
Pixinguinha, de pijama listrado sambava ali, no meio da rua, e
o sambista empolgava dizendo: -
Dança quem pode, obedece quem tem juízo, corre
quem consegue, canta quem sabe a letra, abre os braços quem
se desvencilha dos adereços. No
entanto, na realidade, eu, de comemorações da
cidade, pouco participava nesta época. Gostava mesmo era
do coreto da praça, da banda, que aos domingos encantava
os enamorados. Há tempos não ia a festas, não
tinha o hábito de me fantasiar, fazer blocos. Por outro
lado, tinha a liberdade de visitar as amigas, de ficar até ás
11 horas da noite no portão conversando, numa rua até deserta
onde morávamos, olhando a vida, os outros, um irmão
jogando bolinhas de gude. Dois
presentes eu tinha ganhado de um folião incontestável,
amigo de escola, -o Tilin: uma máscara e um saco de confete.
Mal sabia ele que, em festas de carnaval eu não tinha o
habito de ir, mas mesmo agregando pouca alegria, eu era de tal
modo sedenta que um quase nada já me tornava uma pessoa
feliz. Pensava
eu, porque essas máscaras? Uma coisa que no fundo
nada representava de bom porque vinha de encontro com à minha
suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie
de máscara. Se naquele momento, absorta em meus pensamentos
e sonhos, um mascarado falasse comigo, de repente ´poderia
entrar em contato com o meu mundo interior, que de fantasia certamente
não era feito, mas de pessoas com muito mistério. Pouca
coisa me animava no meio de tantas preocupações
com meu pai, que viajava muito e para bem longe, terras longínquas
de Mato Grosso, enfim eu não tinha cabeça para carnaval.
Mas a vaidade era estampada no momento em que pedia a um dos meus
irmãos para que passasse ferro quente nos cabelos ondulados
como se fosse a chapinha de hoje. Época de adolescência
trás na mente sonhos, sonhos vulneráveis, boca de
batom bem forte, ruge nas faces salto nos pés. Então
eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da mesmice de outras. E os confetes? Para que serviam os confetes? Acredita
que tiveram serventia? Aquele foi um carnaval diferente até considero milagroso que eu não conseguia acreditar.
Uma amiga resolvera fantasiar de colombina, figurino diferente
para uma ocasião tão certa. Muitos adereços,
fitas coloridas, pura imitação, embora as crianças
da época não tinha o costume de se fantasiar. Sempre
imaginei que carnaval sem criança não tinha a menor
graça. Elas eram as mais inocentes criaturas e dispostas
a entrarem no clima transformando tudo em divertimento e folia.
Brincavam com os amigos nas ruas, clubes ou em casa, o que não
faltavam eram os confetes e serpentinas para colorir a festa Foi
quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobraram fitas
de
cetim muitas fitas. E a mãe de minha amiga - talvez
atendendo a meu apelo mudo, ou por bondade, já que sobrara
papel e fitas - resolveu fazer uma fantasia para mim. Quanto ao
fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de
outra, aceitei humilde o que o destino me dava. A vida é assim
mesmo. E os confetes tomaram conta de tudo. Espalhados no ar pareciam
chuvas, que os pingos não molhavam, mas causavam êxtases. Nas
ruas da cidade só se ouvia o som do tamborim e da chorosa
Cuíca, um som mais grave, que logo me pareceu ser um grande
surdo de marcação. As batidas secas, fortes e constantes
daquele grande instrumento, pareciam querer dizer aos foliões: "vamos
lá rapaziada! Hoje não há lugar para a tristeza".
Como se encorajados pelo novo companheiro, que a cada momento se
juntava a folia começaram a engrossar as vozes com uma marcha
de esperança: Um
pierrô apaixonado Pronto
agora entendia a anarquia das ruas e o abandono dos restos das
alegorias.
Ainda ouvia algumas vozes distantes voltando para
casa - ainda pude observar uma bela moça, uma Colombina,
enlaçada a um Pierrô que passavam com suas sandálias
amarradas na cintura e jogando para o alto seus confetes e serpentinas,
embalados pelo som que, assim como eu, eles não tinham certeza
de onde vinha. -"Ei, você aí Desce dessa janela e vem pra cá.
Afinal, já é carnaval". |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008 |