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A velha senhora na praça de alimentação
Fico
sozinho à mesa e entrego-me a preguiça, sem
a mínima vontade de voltar para a loja onde divido a administração
com a minha filha. Observo
as pessoas transitando pelos corredores do Shopping. Uns apressados.
Outros tranqüilos, geralmente em duplas, contemplando
as vitrines, aparentemente sem quaisquer preocupações.
Fico a pensar a quantos anos não tiro pelo menos 15 dias
de férias para curtir o prazer do ócio. Hoje quebrei
a infernal rotina "casa-loja-banco-loja-casa" e parei
na praça de alimentação do shopping em plena
hora de trabalho, coisa que raramente faço. Desde que me
tornei comerciante cumpro uma estressante jornada de trabalho que
nunca é inferior a 60 horas semanais. Sinto-me
confortável e por uns poucos momentos desligo-me
dos afazeres e deito-me nos braços desse ócio momentâneo.
Meu olhar passeia displicente por tudo que está em minha
volta. De repente sou atraído pelo olhar vago de uma velha
senhora que aparentemente está igual a mim: entregue a preguiça,
observando a movimentação das pessoas naquela praça
de alimentação. Eu tenho 52 anos e ela deve ter entre
70 e 75. Feições humildes, olhar um tanto sofrido, cabelos
totalmente brancos. Gira com as mãos um copo vazio de coca-cola
sobre a mesa e de vez em quando esboça um discreto sorriso
(daqueles que não expõe os dentes). Fico a pensar
no que estaria aquela velha senhora pensando. Inconscientemente,
fixo-me naquele rosto que demonstra estar com o pensamento ancorado
nas lembranças do passado. Não é necessário
muito esforço para que eu também ancore o meu "barco" nas
lembranças do passado. Vejo-me
no corpo e na alegria daqueles adolescentes, circulando, não pelos corredores de um shopping (na minha época
acho que nem existiam), mas pelos parques de diversões,
pelas festinhas "americanas" animadas por vitrolas,
onde se tocavam Beatles, e pelos clubes, no auge da jovem guarda,
quando se dançavam ao som de Fevers, Renato e seus Blue
Caps, Golden Boys, Vips e muitos outros. Lembro, também,
que quando era menino nunca imaginei meus pais jovens. Nunca pensei
que um dia eu ficaria como eles com rugas e cabelos brancos. Nunca
imaginei que um dia eu ouviria a palavra papai dirigida para mim
e agora estou às vésperas de ouvir a palavra mais
gratificante para um homem que vê consolidado todo o seu
projeto de vida humana, profissional e familiar: vovô. Chego
a pensar que a gente, quando é criança ou
muito jovem, pensa que os velhos nasceram velhos. Hoje
me vejo com 52 anos, às portas da aposentadoria, na
praça de alimentação de um Shopping, viajando
pelas estradas do meu passado, relembrando a minha infância,
a minha adolescência, a minha juventude e os meus projetos
de vida, que não foram inúteis, tentando decifrar
os pensamentos de uma velha senhora que aparentemente está viajando
pelas mesmas estradas que eu. Quem sabe, neste momento, os pensamentos
dela estejam irmanados com o meu e juntos pensamos que um dia também
fomos jovens, brincamos, cantamos, bebemos, farreamos e nos entregamos
nos braços de um amor, mesmo que tenha sido de forma irresponsável,
achando que nossas reservas de vida jamais se acabariam. Permaneço ali, sentado à mesa com a mão no
queixo, apenas fisicamente porque a minha alma desprendeu-se do
corpo e viajou numa velocidade incrível por lugares que
eu jamais pensei que voltaria e que agora tenho absoluta certeza
que jamais esquecerei. São 16h22m, tenho que ir. Recolho os meus pensamentos e
deixo a velha senhora pensando por ela e por mim. Levanto e saio
lentamente. Passo pela minha companheira de pensamentos e sinto
vontade de interromper a sua "viagem" com um delicado
e carinhoso boa tarde, mas desisto e sigo o meu caminho. No
trajeto, entre a praça de alimentação
e o estacionamento do shopping, com um sorriso discreto nos lábios,
penso naqueles jovens adolescentes, que hoje brincam, cantam e
sorriem alegremente, amanhã, tão velhos como eu e
a velha senhora, um pouco mais velhos talvez, sentados em algum
lugar, observando as pessoas que circulam em sua volta, relembrando
os momentos que vivem agora e esboçando um discreto sorriso
que ninguém conseguirá decifrar. |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008 |