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Noite encantada
Ele
falava de momentos e sensações únicos,
ele sabia estar findando devido à modernidade dos automóveis, ônibus
e caminhões. Poesia
pura era poder ouvir ao longe o barulho do trem chegando, dizia
ele
, ainda mais maravilhoso era o particular barulho das
maquinas movidas a vapor, sim, as famosas Maria Fumaça.
Ele com os olhos marejados recordava com emoção,
emoção de poeta, o barulho da maquina a espirrar
vapor e os olhos das pessoas que nas janelas passavam nos vagões
em direção a cidade, olhos extasiados. Era
um olhar diferente, de um povo diferente, havia ainda a pureza
do orgulho
de poder ir até a cidade, valores hoje deturpados
pelas imagens vistas no nosso dia a dia pela Televisão.
Hoje já não sentimos o prazer de no sábado à noite
irmos a pracinha comer pipoca, pegar na mão da namoradinha,
sentir o cheiro da mistura de perfumes da época, águas
de colônia e almíscar selvagem. Pedalar
uma bicicleta na estradinha de terra era uma aventura, descer
ladeiras
e subir morros era prazer puro de homens que em
tardes quentes transformavam-se em crianças e de crianças
que orgulhosas experimentavam a liberdade do adulto, liberdade
de poder ir onde e quando quisessem. Lembro-me
de uma noite, quando a nossa família estava retornando
de uma visita a casa de um tio, precisávamos andar pelo
menos um kilometro até a casa do meu avô, não
havia luz elétrica na estrada, afinal estávamos na
roça, nos idos de 1964, ano da revolução,
que pensamento ruim, então; Voltando a narração,
a estrada era puro breu, vaga-lumes a marcar o caminho, éramos
guiados pelas sombras das arvores e pelas cercas de arame farpado,
sombras da Lua maravilhosa, lembro-me como se fosse agora, nunca
mais esquecerei da luz que vinha em nossa direção,
da forma prateada que parecia tocar ao chão, acho que é por
isto que as vezes escrevo com emoção, guardei todas
elas em meu coração,foram-me dadas, ou doadas, não
sei a definição, pelo pai da natureza. Em meus ouvidos
ainda escuto a voz do meu avô e do meu pai comentando as
coisas da roça, as mudanças da época. Recordavam,
como hoje estou recordando, a infância dos meus tios e do
meu pai. Era
verão, férias da escola, antes do natal, a noite
dispersava um cheiro maravilhoso que vinha do laranjal,laranjas
e mexericas caídas espalhavam o cheiro da preguiça,
de quando acabávamos de consumir grande quantidade da fruta,
dormíamos de baixo dos seu pés sem medo de ser e
estarmos felizes, a areia misturava com o suor de nossos pés,
usávamos sandálias de couro, aquilo me deixava curioso,
porque ali estando eu não me importava com a areia
nos meus pés, pois na cidade eu detestava andar descalço.
Eu não sabia, hoje sei, que a simplicidade do lugar me fazia
sentir parte dele, ali ninguém estaria a me cobrar pés
limpos, roupas passadas, mãos lavadas, até meus pais
nada falavam, pareciam também dividir com todos nós
a emoção, a liberdade e a simplicidade do lugar. Lembro-me
que naquela mesma noite antes de eu dormir, pude ouvir ao longe
o
barulho do trem chegando, de inicio o tilintar dos utensílios
da cozinha devido o tremor que o trem provocava, depois a maquina
bem mais próxima passou-me um medo estranho, segurei a respiração
esperando o choque, que estranha foi aquela sensação,
de quando o trem passou, soltei a respiração e senti-me
aliviado, como se de um perigo extremo fui afastado, mas era apenas
um sentimento da minha feliz e fértil imaginação,
eu estava feliz e queria ser parte de tudo e vivenciar cada momento
de emoção. Hoje
o trem já não passa mais, ficou no tempo e
na memória das pessoas e do lugar o período mais
feliz de uma população, que naquela época
vivia a simplicidade de um bom dia, dado com sinceridade, a espera
ansiosa a tarde em que a primeira composição de trem
passava, para na noite repetir a sensação e na madrugada
todos prenderem a respiração. |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008 |