Regulamentos Como publicar Lançamentos Quem somos Edições anteriores Como adquirir Entrevistas
 
Antologia on line
 
 


Emmanuel Soares de Almeida
Juiz de Fora / MG

Noite encantada



Na estrada que ligava Cataguases a Miraí muitas histórias aconteceram por ali.
Meu avô contava que quando o trem passava muitas coisas boas iam e vinham com ele. Naquela época eu não entendia, mas hoje sei perfeitamente sobre o que meu avô falava.

Ele falava de momentos e sensações únicos, ele sabia estar findando devido à modernidade dos automóveis, ônibus e caminhões.

Poesia pura era poder ouvir ao longe o barulho do trem chegando, dizia ele , ainda mais maravilhoso era o particular barulho das maquinas movidas a vapor, sim, as famosas Maria Fumaça. Ele com os olhos marejados recordava com emoção, emoção de poeta, o barulho da maquina a espirrar vapor e os olhos das pessoas que nas janelas passavam nos vagões em direção a cidade, olhos extasiados.

Era um olhar diferente, de um povo diferente, havia ainda a pureza do orgulho de poder ir até a cidade, valores hoje deturpados pelas imagens vistas no nosso dia a dia pela Televisão. Hoje já não sentimos o prazer de no sábado à noite irmos a pracinha comer pipoca, pegar na mão da namoradinha, sentir o cheiro da mistura de perfumes da época, águas de colônia e almíscar selvagem.

Pedalar uma bicicleta na estradinha de terra era uma aventura, descer ladeiras e subir morros era prazer puro de homens que em tardes quentes transformavam-se em crianças e de crianças que orgulhosas experimentavam a liberdade do adulto, liberdade de poder ir onde e quando quisessem.

Lembro-me de uma noite, quando a nossa família estava retornando de uma visita a casa de um tio, precisávamos andar pelo menos um kilometro até a casa do meu avô, não havia luz elétrica na estrada, afinal estávamos na roça, nos idos de 1964, ano da revolução, que pensamento ruim, então; Voltando a narração, a estrada era puro breu, vaga-lumes a marcar o caminho, éramos guiados pelas sombras das arvores e pelas cercas de arame farpado, sombras da Lua maravilhosa, lembro-me como se fosse agora, nunca mais esquecerei da luz que vinha em nossa direção, da forma prateada que parecia tocar ao chão, acho que é por isto que as vezes escrevo com emoção, guardei todas elas em meu coração,foram-me dadas, ou doadas, não sei a definição, pelo pai da natureza. Em meus ouvidos ainda escuto a voz do meu avô e do meu pai comentando as coisas da roça, as mudanças da época. Recordavam, como hoje estou recordando, a infância dos meus tios e do meu pai.

Era verão, férias da escola, antes do natal, a noite dispersava um cheiro maravilhoso que vinha do laranjal,laranjas e mexericas caídas espalhavam o cheiro da preguiça, de quando acabávamos de consumir grande quantidade da fruta, dormíamos de baixo dos seu pés sem medo de ser e estarmos felizes, a areia misturava com o suor de nossos pés, usávamos sandálias de couro, aquilo me deixava

curioso, porque ali estando eu não me importava com a areia nos meus pés, pois na cidade eu detestava andar descalço. Eu não sabia, hoje sei, que a simplicidade do lugar me fazia sentir parte dele, ali ninguém estaria a me cobrar pés limpos, roupas passadas, mãos lavadas, até meus pais nada falavam, pareciam também dividir com todos nós a emoção, a liberdade e a simplicidade do lugar.

Lembro-me que naquela mesma noite antes de eu dormir, pude ouvir ao longe o barulho do trem chegando, de inicio o tilintar dos utensílios da cozinha devido o tremor que o trem provocava, depois a maquina bem mais próxima passou-me um medo estranho, segurei a respiração esperando o choque, que estranha foi aquela sensação, de quando o trem passou, soltei a respiração e senti-me aliviado, como se de um perigo extremo fui afastado, mas era apenas um sentimento da minha feliz e fértil imaginação, eu estava feliz e queria ser parte de tudo e vivenciar cada momento de emoção.

Hoje o trem já não passa mais, ficou no tempo e na memória das pessoas e do lugar o período mais feliz de uma população, que naquela época vivia a simplicidade de um bom dia, dado com sinceridade, a espera ansiosa a tarde em que a primeira composição de trem passava, para na noite repetir a sensação e na madrugada todos prenderem a respiração.

 
     
Volta Página Principal
Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008