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Eleine Rose Freitas Truono Mendes
Santos / SP

Um dia na janela


E na janela ela estava. Era noite calma, estrelada, com uma brisa leve e ela continuava a sonhar.

Sonhava mais uma vez, como sempre, com aquele que havia de chegar e arrebatar seu coração.

Queria se apaixonar, ser amada, mas tudo ficava no vazio, quando ouvia a voz de sua mãe:

- Rose, está na hora do jantar!

-Já estou indo! - falava desanimada, como alguém que tivesse voltado de uma longa viagem através do tempo.

Na mesa, um grande silêncio era interrompido mais uma vez pela sua mãe, Dora, uma mulher de olhar triste, como alguém que guardava algo dentro do coração que não lhe deixava em paz.

- Rose, filha, você gostou daqui? É um bairro bom, alegre, o que achou?

- Gostei sim, tudo me parece belo e familiar. Às vezes tenho a impressão que vamos ter grandes histórias, morando aqui.

- Histórias, como assim?

- Não sei, somente o tempo dirá...

O jantar transcorreu tranqüilo, com breves comentários sobre o novo bairro.

Rose foi dormir, deitou-se e continuou pensando, sonhando em como deveria ser aquele que tanto esperava para ser seu amor.

Adormeceu serena e tão profundamente, que quando se deu conta, ouviu o toque do despertador:

- Já? Que horas são? Não acredito! Oito horas? Parece que acabei de me deitar!- pensou ela.

Rose tinha seus quinze anos, cheia de sonhos, música, adorava dançar e viver plenamente sua vida.

Naquele dia no colégio, contou a todos sobre o bairro que estava morando, com muito entusiasmo.

A manhã passou depressa. Ela veio rápido para casa, pois algo a fazia sempre ir à janela, como se quisesse ver alguma coisa que não sabia o que era.

Realizou seus trabalhos e deveres como de costume e novamente a noite chegou.

Com ela seus encantos: o luar, as estrelas, o ruído dos carros, as luzes. Rose adorava tudo isso.

Debruçada, parou por alguns instantes, quando de repente seu coração começou a acelerar e seus olhos brilharam de emoção.

Era como se estivesse vendo o que tanto tempo esperava ver: seu grande amor.

-É ele! Tenho certeza, a pessoa que espero amar e ser amada com todo amor do mundo.

Era um rapaz simples, até bonito, mas isso aos olhos dos outros, porque aos olhos de Rose, tinha tudo de mais apaixonante.

Seu olhar acompanhava seus passos pela rua, com vontade de gritar para não perdê-lo de vista, quando teve a maior surpresa da sua vida: aquele que chamara a atenção do seu olhar e ocupara de imediato seu coração, acabara de entrar na casa da frente. Foi quando viu que além de seu grande amor era também seu vizinho.

Extasiada de tanta emoção, ela ficou estática, não sabia o que dizer e nem o que pensar, somente teve a certeza de seu amor à primeira vista - coisa que só acreditava vendo em novelas - mas a partir daquele momento, descobriu que realmente existia, pois estava acontecendo diante de seus próprios olhos, dentro do seu coração.

Agora seus dias não seriam mais vazios, ela os dedicaria a ver a pessoa amada, conhecê-lo e o acompanhar de perto. Foi isso que começou a fazer.

Naquela noite, Rose não conseguiu dormir, não parava de pensar nele e como conseguiria se aproximar. Como faria?

O dia amanheceu calmo, como de costume. Rose tomou seu café da manhã, sem conversar com ninguém, não parava de pensar no seu amor.

Na escola, não conseguiu deixar de contar a sua melhor amiga Lucília. Essa ficou surpresa e disse:

- Rose, agora você não pode perdê-lo de vista. Procure saber tudo sobre ele, já que mora tão perto, melhor ainda! Vizinho, tudo fica mais fácil. Que sorte a sua!

Chegando em casa, foi correndo à janela, quem sabe o veria de novo.

Para a sua surpresa, lá vinha ele. Eram doze horas e trinta minutos, deveria estar vindo almoçar, pensou.

Quando ele passou pela janela de Rose, como se algo chamasse sua atenção, ele olhou para cima e foi quando pela primeira vez, seus olhos encontraram-se. Rose sentiu um frio, um arrepio invadir seu corpo, seu coração batia descompassado. Ficou com vergonha, não sabia se continuava ou saía da janela.

Ele entrou em sua casa e ela saiu toda vermelha, respirando ofegante. Sentou-se na cama e pensou:

-Agora ele já sabe que eu existo.

Permaneceu sentada até se acalmar, pensando em como seria daqui pra frente, já que ele sabia existir alguém, lá em cima, naquela janela, mas não sabia que esta pessoa já o amava tanto.

Como dizer a ele, mostrar seu amor, aproximar-se, o que faria?

Rose passou a tarde toda impaciente, pois agora sua vida era pensar nele. Ia toda hora à janela, na tentativa de vê-lo mais vezes.

Na hora do jantar, foi lá mais uma vez. Eram dezoito horas e trinta minutos, quando um carro parou em frente à casa .

Na mesma hora ela se inclinou para ver melhor. Era ele que descia, mas desta vez algo a deixou muito feliz, pois ele mal desceu do carro e seus olhos procuraram sua janela e se depararam com seu olhar em sua direção. Rose sentiu tudo novamente e percebeu que realmente estava apaixonada e que tinha chances, pois ele a procurava com o olhar.

Neste instante, sua mãe a chamou para jantar, pois seu pai já estava em casa também:

-Rose, venha logo, está esfriando, filha!

Durante o jantar, Rose comentou com sua família a respeito do rapaz que viu entrando na casa da frente. Sua mãe logo falou:

- Procure olhar pra ele, quem sabe vocês acabam namorando? Será bom, assim vai sair, passear mais, se divertir, é o que precisa uma moça na sua idade.

Rose pensou:

- Bem que eu queria, mas será que vou conseguir?

No dia seguinte, na escola, contou a Lucília tudo que ocorreu, quando seus olhos se encontraram, que ele já estava olhando pra ela, enfim, um flerte apaixonado.

Lucília sem titubear foi logo dizendo:

- Vamos descobrir onde ele trabalha?

- Como vou fazer isso? Mal o conheço, nem sei o que ele faz, você está louca, amiga?

- Louca não, mas acho que está na hora de você descobrir mais coisas a respeito dele.

A moça cheia de sonhos e ao mesmo tempo confusa foi pra casa, não podia perder o horário que ele chegaria. Agora que já sabia de cor seus retornos e saídas, não saía da janela, acabou gravando o roteiro de vida dele.

Era sábado, o dia que Rose mais gostava. Logo cedo tomou seu café e começou os preparativos para ir à praia.

O sol estava radiante, ardia, queimando sua pele já morena, mas ela adorava aquela sensação de liberdade, de curtir a natureza.

Mais tarde, quando voltava de um passeio pela beira da água, ela o viu. Ele estava bem na frente dela, conversando com um grupo de amigos. Rose não acreditava no que via. Até lá? Só podia ser o destino, unindo-os de novo pelo olhar.

Ela passou ao lado dele e sentiu quando ele a mediu dos pés à cabeça, ficou gelada, mas com o coração pulsando de tanta emoção.

Rose ficou na praia um bom tempo, curtindo o sol e seu amor, longos olhares foram trocados até a hora de ir embora.

Chegando em casa, enquanto se arrumava, ouviu uma conversa de seu pai dizendo a sua mãe:

-Sabe, hoje fui até a praia e me sentei um pouco em um banco para tomar um solzinho de leve, imagina quem eu encontrei? O Arthur, aquele que trabalhou comigo, uns anos atrás, está lembrada?

-Sim, ele tinha um filho, deve estar moço, não?

-É verdade, ele me mostrou o garoto. Estava na praia, o nome dele é Sérgio, já tem vinte e três anos. Por coincidência, nossa filha também estava lá. Ele estava me contando que é nosso vizinho, mora em frente ao nosso prédio, naquela casa, acho que é o rapaz de quem a Rose estava falando.

Quando ouviu isso, Rose ficou paralisada. Não podia ser verdade... Conhecido de seu pai?

Agora ficava fácil descobrir mais coisas sobre ele.

Ela foi correndo e se intrometeu na conversa:

-Pai, ele não te contou o que o filho dele faz? Onde trabalha? Me fale!

-Disse que é arquiteto, trabalha num escritório, mas não sei onde.

Ela pensou com seus botões:

-Bom, já é um começo. Quem sabe Lucília, que gosta de brincar de detetive, poderá me ajudar a descobrir este mistério?

Naquela noite nem dormiu direito, pensando em como descobrir.

Chegando à escola contou a sua grande amiga, que logo deu um jeito na situação:

-Já sei um lugar onde só tem escritórios de advogados, arquitetos, engenheiros. É lá, tenho certeza!

-Como você tem certeza que é lá?

-Quer apostar como é?

Terminando a aula as duas saíram correndo em busca do tal escritório.

Entrando no prédio encontraram vários nomes, anotaram um deles e na lista telefônica acharam o telefone.

Lucília foi quem ligou, pois Rose não tinha a mínima coragem.

Quando atenderam, ela perguntou:

-Por favor, eu gostaria de saber se aí trabalha algum arquiteto com nome de Sérgio.

-Trabalha sim e por coincidência sou eu mesmo!

Lucília não sabia o que dizer, ficou engasgada, não podia acreditar no que acabava de ouvir.

Apenas perguntou:

-Quando você sai ou chega em casa, por acaso vê sempre uma moça na janela?

Rose quase desmaiou, não seria possível que sua amiga estivesse perguntando tal coisa.

Ele respondeu:

-Vejo sim, por quê?

-Espere, você vai saber o porquê agora...

Lucília puxou a amiga e passou o telefone:

-Fale com ele, diga tudo o que gostaria de dizer.

Rose, muito envergonhada, conversou com ele e contou do seu amor, quem era ela, o quanto esperava por ele todos os dias só para vê-lo, enfim, contou tudo.

Ele ficou mudo, porém depois tomou fôlego e disse num tom bem frio:

- Não ligue mais para cá!

Rose desligou chorando:

-Não disse que isso não daria certo?! Como vou olhar para ele agora? Como vou ficar na janela? Que vergonha você me fez passar!

Chegou em casa pálida, envergonhada, chorosa, até sua mãe percebeu.

Rose contou tudo a ela.

-Filha, não fique assim! Vocês pegaram o rapaz de surpresa, amanhã é outro dia, quem sabe ele pensa melhor e resolve falar com você?

-Agora não tem mais jeito, está tudo acabado!

Não conseguiu jantar, só pensava no que tinha ouvido dele. Que dor no coração!

Mais tarde, deitada em sua cama, ouviu um barulho de carro. Era ele. Resolveu sair à janela mesmo assim.

Foi maravilhoso, pois Rose teve a maior surpresa de sua vida. Ele olhou para cima e disse:

-Amanhã quero falar com você aqui embaixo - ele sorriu e entrou no carro.

Não preciso dizer o que Rose sentiu, pois a felicidade estampou-se em seu rosto na mesma hora. Foi correndo contar à sua mãe e depois a Lucília.

-Viu, sua boba? Deu certo, não fosse eu, você não teria falado com ele!

No dia seguinte ela já sabia o horário que ele desceria, então ficou lá embaixo fingindo esperar alguém.

Ele desceu, atravessou a rua e veio em sua direção:

-Bom dia, tudo bem?

-Tudo.

-Então era você no telefone, eu jamais poderia esperar. Disse para você não ligar para lá, porque prefiro falar com você pessoalmente.

-Pois é, era eu mesma. O que você achou?

-Eu gostei muito, mas não posso te prometer nada além de amizade, pois tenho namorada.

Rose ficou perplexa, pois nunca tinha visto nenhuma moça com ele.

-Tem mesmo?

-Tenho e já namoro há muito tempo, mas podemos ser amigos, que tal?

Diante das circunstâncias, o que poderia Rose querer? Ela aceitou, quem sabe mais tarde ele se apaixonaria por ela? Era um jeito de estar perto dele.

E assim passaram a ser amigos. Iam à praia juntos, passeavam, conversavam e se divertiam muito.

Sérgio apresentou Rose a muitos amigos que passaram a fazer parte de sua turma.

Assim o tempo foi transcorrendo, sempre juntos, trocando olhares pela janela, sorrisos. Qualquer pessoa que olhasse pensaria que Sérgio estava apaixonado.

Um dia, Sérgio convidou Rose para sair à noite. Ela estranhou, mas aceitou.

Não achava certo sair com um rapaz comprometido, mas o amava tanto que faria qualquer coisa por ele.

Chegou o dia tão esperado. Rose embelezou-se toda e desceu para encontrá-lo.

Entrou em seu carro, cumprimentaram-se com um beijo e partiram. Rose estava cheia de sonhos, cheia de amor.

Naquela noite nada aconteceu. Ele contou do seu trabalho, da sua namorada, da sua vida, o que gostava de fazer, conversa comum. Mesmo assim, Rose voltou para casa feliz. Quem sabe teria uma chance dele desmanchar o namoro e passar a ser seu namorado?

Vários dias passaram-se e sempre do mesmo jeito, a mesma paquera, até um vizinho brincando falou:

-Isso ainda vai dar namoro! - Era o que todos pensavam e o que Rose mais queria.

Sérgio convidou Rose para sair de novo. Lá foi ela, cheia de esperanças.

Dentro do carro conversando, num certo momento, Sérgio parou e ficou olhando em seus olhos, fitou sua boca e deu um beijo longo e apaixonado em Rose, que correspondeu com todo o amor que mantinha em seu coração.

Quando o beijo terminou, Rose perguntou a ele - com muito medo - mas perguntou:

- Como ficamos? O que seremos? Namorados ou amigos?

Sérgio olhou bem para Rose e disse:

- Minha querida, devo lhe confessar que gosto de você muito mais que um amigo, mas não posso ser seu namorado, já tenho uma namorada e não posso abandoná-la. É uma situação muito complicada entre nós.

- Mas o que tem de complicado em você gostar de mim e ficarmos juntos?

- Você não entenderia, não posso explicar o que existe entre mim, ela e nossas famílias. Por enquanto tem que ser assim.

- Assim como? Saindo escondidos, sem ninguém ver? Eu sendo a segunda, a outra em sua vida?

- Não é bem assim, você está aumentando as coisas.

- Infelizmente é assim, não tem outro jeito de entender a situação, serei sempre a outra em sua vida!

Rose ficou irritada. Viu que apesar de amá-lo tanto não poderia deixar que ele a fizesse de boba.

- Sabe, o melhor que temos a fazer é não sairmos mais, pois já vi que você vai mesmo é ficar com ela e não comigo. Assim não quero!

Depois disso, não tinha outra coisa a fazer do que ir para casa e chorar.

Ela se sentiu até mais aliviada, tinha certeza que havia tomado a decisão certa.

Dormiu profundamente depois de muito chorar e pensar, mas acordou leve, tinha tirado um peso de seu coração.

- Deixa assim, não era para ser meu, há de aparecer um dia a pessoa certa - pensou.

A vida continuou a mesma: ela estudava, saía com as amigas de sempre - algumas delas da turma de Sérgio. Ele trabalhava, ia à praia com a mesma turma, saindo à noite com sua namorada, o que mais aborrecia Rose. Mas o que ela podia fazer a respeito?

Ele olhava sempre para cima, na esperança de encontrar o olhar de Rose, mas ela não saía mais a janela. Sérgio olhava agora um grande vazio: sem sinal de Rose.

Rose olhava agora para o nada, sem Sérgio, sem os olhares, sem o amor e sem esperanças.

Sim, a vida continuou a mesma, mas o coração de Rose nunca mais foi o mesmo, pois não amou ninguém com a mesma intensidade daquele amor, um dia na janela.

 
     
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008