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Um dia na janela
Sonhava
mais uma vez, como sempre, com aquele que havia de chegar e arrebatar
seu coração. Queria
se apaixonar, ser amada, mas tudo ficava no vazio, quando ouvia
a voz de sua
mãe: -
Rose, está na
hora do jantar! -Já estou indo! - falava desanimada, como alguém
que tivesse voltado de uma longa viagem através do tempo. Na
mesa, um grande silêncio era interrompido mais uma vez
pela sua mãe, Dora, uma mulher de olhar triste, como alguém
que guardava algo dentro do coração que não
lhe deixava em paz. -
Rose, filha, você gostou daqui? É um bairro bom,
alegre, o que achou? -
Gostei sim, tudo me parece belo e familiar. Às vezes
tenho a impressão que vamos ter grandes histórias,
morando aqui. -
Histórias,
como assim? -
Não sei, somente o tempo dirá... O
jantar transcorreu tranqüilo, com breves comentários
sobre o novo bairro. Rose foi dormir, deitou-se e continuou pensando, sonhando em como
deveria ser aquele que tanto esperava para ser seu amor. Adormeceu
serena e tão profundamente, que quando se deu
conta, ouviu o toque do despertador: -
Já? Que horas são? Não
acredito! Oito horas? Parece que acabei de me deitar!- pensou
ela. Rose
tinha seus quinze anos, cheia de sonhos, música, adorava
dançar e viver plenamente sua vida. Naquele
dia no colégio, contou a todos sobre o bairro que
estava morando, com muito entusiasmo. A
manhã passou depressa. Ela veio rápido para casa,
pois algo a fazia sempre ir à janela, como se quisesse ver
alguma coisa que não sabia o que era. Realizou seus trabalhos e deveres como de costume e novamente
a noite chegou. Com
ela seus encantos: o luar, as estrelas, o ruído dos
carros, as luzes. Rose adorava tudo isso. Debruçada, parou por alguns instantes, quando de repente
seu coração começou a acelerar e seus olhos
brilharam de emoção. Era como se estivesse vendo o que tanto tempo esperava ver: seu
grande amor. -É ele!
Tenho certeza, a pessoa que espero amar e ser amada com todo
amor do mundo. Era
um rapaz simples, até bonito, mas isso aos olhos dos
outros, porque aos olhos de Rose, tinha tudo de mais apaixonante. Seu
olhar acompanhava seus passos pela rua, com vontade de gritar
para não perdê-lo de vista, quando teve a maior surpresa
da sua vida: aquele que chamara a atenção do seu
olhar e ocupara de imediato seu coração, acabara
de entrar na casa da frente. Foi quando viu que além de
seu grande amor era também seu vizinho. Extasiada
de tanta emoção, ela ficou estática,
não sabia o que dizer e nem o que pensar, somente teve a
certeza de seu amor à primeira vista - coisa que só acreditava
vendo em novelas - mas a partir daquele momento, descobriu que
realmente existia, pois estava acontecendo diante de seus próprios
olhos, dentro do seu coração. Agora
seus dias não seriam mais vazios, ela os dedicaria
a ver a pessoa amada, conhecê-lo e o acompanhar de perto.
Foi isso que começou a fazer. Naquela
noite, Rose não conseguiu dormir, não parava
de pensar nele e como conseguiria se aproximar. Como faria? O
dia amanheceu calmo, como de costume. Rose tomou seu café da
manhã, sem conversar com ninguém, não parava
de pensar no seu amor. Na
escola, não conseguiu deixar de contar a sua melhor
amiga Lucília. Essa ficou surpresa e disse: -
Rose, agora você não pode perdê-lo de vista.
Procure saber tudo sobre ele, já que mora tão perto,
melhor ainda! Vizinho, tudo fica mais fácil. Que sorte a
sua! Chegando
em casa, foi correndo à janela, quem sabe o veria
de novo. Para
a sua surpresa, lá vinha ele. Eram doze horas e trinta
minutos, deveria estar vindo almoçar, pensou. Quando
ele passou pela janela de Rose, como se algo chamasse sua atenção, ele olhou para cima e foi quando pela primeira
vez, seus olhos encontraram-se. Rose sentiu um frio, um arrepio
invadir seu corpo, seu coração batia descompassado.
Ficou com vergonha, não sabia se continuava ou saía
da janela. Ele entrou em sua casa e ela saiu toda vermelha, respirando ofegante.
Sentou-se na cama e pensou: -Agora
ele já sabe que eu existo. Permaneceu
sentada até se acalmar, pensando em como seria
daqui pra frente, já que ele sabia existir alguém,
lá em cima, naquela janela, mas não sabia que esta
pessoa já o amava tanto. Como dizer a ele, mostrar seu amor, aproximar-se, o que faria? Rose
passou a tarde toda impaciente, pois agora sua vida era pensar
nele.
Ia toda hora à janela, na tentativa de vê-lo
mais vezes. Na
hora do jantar, foi lá mais uma vez. Eram dezoito horas
e trinta minutos, quando um carro parou em frente à casa
. Na
mesma hora ela se inclinou para ver melhor. Era ele que descia,
mas desta
vez algo a deixou muito feliz, pois ele mal desceu do
carro e seus olhos procuraram sua janela e se depararam com seu
olhar em sua direção. Rose sentiu tudo novamente
e percebeu que realmente estava apaixonada e que tinha chances,
pois ele a procurava com o olhar. Neste
instante, sua mãe a chamou para jantar, pois seu
pai já estava em casa também: -Rose,
venha logo, está esfriando, filha! Durante
o jantar, Rose comentou com sua família a respeito
do rapaz que viu entrando na casa da frente. Sua mãe logo
falou: -
Procure olhar pra ele, quem sabe vocês acabam namorando?
Será bom, assim vai sair, passear mais, se divertir, é o
que precisa uma moça na sua idade. Rose pensou: -
Bem que eu queria, mas será que vou conseguir? No
dia seguinte, na escola, contou a Lucília tudo que ocorreu,
quando seus olhos se encontraram, que ele já estava olhando
pra ela, enfim, um flerte apaixonado. Lucília
sem titubear foi logo dizendo: - Vamos descobrir onde ele trabalha? -
Como vou fazer isso? Mal o conheço, nem sei o que ele
faz, você está louca, amiga? -
Louca não, mas acho que está na hora de você descobrir
mais coisas a respeito dele. A
moça cheia de sonhos e ao mesmo tempo confusa foi pra
casa, não podia perder o horário que ele chegaria.
Agora que já sabia de cor seus retornos e saídas,
não saía da janela, acabou gravando o roteiro de
vida dele. Era
sábado, o dia que Rose mais gostava. Logo cedo tomou
seu café e começou os preparativos para ir à praia. O
sol estava radiante, ardia, queimando sua pele já morena,
mas ela adorava aquela sensação de liberdade, de
curtir a natureza. Mais
tarde, quando voltava de um passeio pela beira da água,
ela o viu. Ele estava bem na frente dela, conversando com um grupo
de amigos. Rose não acreditava no que via. Até lá?
Só podia ser o destino, unindo-os de novo pelo olhar. Ela
passou ao lado dele e sentiu quando ele a mediu dos pés à cabeça,
ficou gelada, mas com o coração pulsando de tanta
emoção. Rose
ficou na praia um bom tempo, curtindo o sol e seu amor, longos
olhares
foram trocados até a hora de ir embora. Chegando
em casa, enquanto se arrumava, ouviu uma conversa de seu pai
dizendo
a sua mãe: -Sabe,
hoje fui até a praia e me sentei um pouco em um
banco para tomar um solzinho de leve, imagina quem eu encontrei?
O Arthur, aquele que trabalhou comigo, uns anos atrás, está lembrada? -Sim,
ele tinha um filho, deve estar moço, não? -É verdade, ele me mostrou o garoto. Estava na praia, o
nome dele é Sérgio, já tem vinte e três
anos. Por coincidência, nossa filha também estava
lá. Ele estava me contando que é nosso vizinho, mora
em frente ao nosso prédio, naquela casa, acho que é o
rapaz de quem a Rose estava falando. Quando
ouviu isso, Rose ficou paralisada. Não podia ser
verdade... Conhecido de seu pai? Agora
ficava fácil descobrir mais coisas sobre ele. Ela foi correndo e se intrometeu na conversa: -Pai,
ele não
te contou o que o filho dele faz? Onde trabalha? Me fale! -Disse
que é arquiteto, trabalha num escritório,
mas não sei onde. Ela
pensou com seus botões: -Bom,
já é um começo. Quem sabe Lucília,
que gosta de brincar de detetive, poderá me ajudar a descobrir
este mistério? Naquela noite nem dormiu direito, pensando em como descobrir. Chegando à escola contou a sua grande amiga, que logo deu
um jeito na situação: -Já sei um lugar onde só tem escritórios
de advogados, arquitetos, engenheiros. É lá, tenho
certeza! -Como
você tem certeza que é lá? -Quer
apostar como é? Terminando
a aula as duas saíram correndo em busca do tal
escritório. Entrando
no prédio encontraram vários nomes, anotaram
um deles e na lista telefônica acharam o telefone. Lucília foi quem ligou, pois Rose não tinha a mínima
coragem. Quando atenderam, ela perguntou: -Por
favor, eu gostaria de saber se aí trabalha algum arquiteto
com nome de Sérgio. -Trabalha
sim e por coincidência sou eu mesmo! Lucília não sabia o que dizer, ficou engasgada,
não podia acreditar no que acabava de ouvir. Apenas perguntou: -Quando
você sai ou chega em casa, por acaso vê sempre
uma moça na janela? Rose
quase desmaiou, não seria possível que sua
amiga estivesse perguntando tal coisa. Ele respondeu: -Vejo
sim, por quê? -Espere,
você vai saber o porquê agora... Lucília
puxou a amiga e passou o telefone: -Fale com ele, diga tudo o que gostaria de dizer. Rose,
muito envergonhada, conversou com ele e contou do seu amor, quem
era
ela, o quanto esperava por ele todos os dias só para
vê-lo, enfim, contou tudo. Ele
ficou mudo, porém depois tomou fôlego e disse
num tom bem frio: -
Não ligue mais para cá! Rose desligou chorando: -Não disse que isso não daria certo?! Como vou olhar
para ele agora? Como vou ficar na janela? Que vergonha você me
fez passar! Chegou
em casa pálida, envergonhada, chorosa, até sua
mãe percebeu. Rose contou tudo a ela. -Filha,
não fique assim! Vocês pegaram o rapaz de
surpresa, amanhã é outro dia, quem sabe ele pensa
melhor e resolve falar com você? -Agora
não tem mais jeito, está tudo
acabado! Não conseguiu jantar, só pensava no que tinha ouvido
dele. Que dor no coração! Mais
tarde, deitada em sua cama, ouviu um barulho de carro. Era ele.
Resolveu
sair à janela mesmo assim. Foi maravilhoso, pois Rose teve a maior surpresa de sua vida.
Ele olhou para cima e disse: -Amanhã quero falar com você aqui
embaixo - ele sorriu e entrou no carro. Não preciso dizer o que Rose sentiu, pois a felicidade
estampou-se em seu rosto na mesma hora. Foi correndo contar à sua
mãe e depois a Lucília. -Viu,
sua boba? Deu certo, não fosse eu, você não
teria falado com ele! No
dia seguinte ela já sabia o horário que ele desceria,
então ficou lá embaixo fingindo esperar alguém. Ele
desceu, atravessou a rua e veio em sua direção: -Bom dia, tudo bem? -Tudo. -Então era você no telefone, eu jamais poderia esperar.
Disse para você não ligar para lá, porque prefiro
falar com você pessoalmente. -Pois é, era eu mesma. O que você achou? -Eu
gostei muito, mas não posso te prometer nada além
de amizade, pois tenho namorada. Rose
ficou perplexa, pois nunca tinha visto nenhuma moça
com ele. -Tem mesmo? -Tenho
e já namoro há muito
tempo, mas podemos ser amigos, que tal? Diante
das circunstâncias, o que poderia Rose querer? Ela
aceitou, quem sabe mais tarde ele se apaixonaria por ela? Era um
jeito de estar perto dele. E
assim passaram a ser amigos. Iam à praia juntos, passeavam,
conversavam e se divertiam muito. Sérgio
apresentou Rose a muitos amigos que passaram a fazer parte de
sua turma. Assim
o tempo foi transcorrendo, sempre juntos, trocando olhares pela
janela,
sorrisos. Qualquer pessoa que olhasse pensaria que
Sérgio estava apaixonado. Um
dia, Sérgio convidou Rose para sair à noite.
Ela estranhou, mas aceitou. Não
achava certo sair com um rapaz comprometido, mas o amava tanto
que faria qualquer coisa por ele. Chegou
o dia tão esperado. Rose embelezou-se toda e desceu
para encontrá-lo. Entrou em seu carro, cumprimentaram-se com um beijo e partiram.
Rose estava cheia de sonhos, cheia de amor. Naquela noite nada aconteceu. Ele contou do seu trabalho, da sua
namorada, da sua vida, o que gostava de fazer, conversa comum.
Mesmo assim, Rose voltou para casa feliz. Quem sabe teria uma chance
dele desmanchar o namoro e passar a ser seu namorado? Vários dias passaram-se e sempre do mesmo jeito, a mesma
paquera, até um vizinho brincando falou: -Isso ainda vai dar namoro! - Era o que todos pensavam e o que
Rose mais queria. Sérgio convidou Rose para sair de novo. Lá foi ela,
cheia de esperanças. Dentro
do carro conversando, num certo momento, Sérgio
parou e ficou olhando em seus olhos, fitou sua boca e deu um beijo
longo e apaixonado em Rose, que correspondeu com todo o amor que
mantinha em seu coração. Quando o beijo terminou, Rose perguntou a ele - com muito medo
- mas perguntou: - Como ficamos? O que seremos? Namorados ou amigos? Sérgio
olhou bem para Rose e disse: -
Minha querida, devo lhe confessar que gosto de você muito
mais que um amigo, mas não posso ser seu namorado, já tenho
uma namorada e não posso abandoná-la. É uma
situação muito complicada entre nós. -
Mas o que tem de complicado em você gostar de mim e ficarmos
juntos? -
Você não entenderia, não posso explicar
o que existe entre mim, ela e nossas famílias. Por enquanto
tem que ser assim. -
Assim como? Saindo escondidos, sem ninguém ver? Eu sendo
a segunda, a outra em sua vida? -
Não é bem assim, você está aumentando
as coisas. -
Infelizmente é assim, não tem outro jeito de entender
a situação, serei sempre a outra em sua vida! Rose
ficou irritada. Viu que apesar de amá-lo tanto não
poderia deixar que ele a fizesse de boba. -
Sabe, o melhor que temos a fazer é não sairmos
mais, pois já vi que você vai mesmo é ficar
com ela e não comigo. Assim não quero! Depois
disso, não tinha outra coisa a fazer do que ir para
casa e chorar. Ela
se sentiu até mais aliviada, tinha certeza que havia
tomado a decisão certa. Dormiu
profundamente depois de muito chorar e pensar, mas acordou leve,
tinha tirado
um peso de seu coração. -
Deixa assim, não era para ser meu, há de aparecer
um dia a pessoa certa - pensou. A
vida continuou a mesma: ela estudava, saía com as amigas
de sempre - algumas delas da turma de Sérgio. Ele trabalhava,
ia à praia com a mesma turma, saindo à noite com
sua namorada, o que mais aborrecia Rose. Mas o que ela podia fazer
a respeito? Ele
olhava sempre para cima, na esperança de encontrar
o olhar de Rose, mas ela não saía mais a janela.
Sérgio olhava agora um grande vazio: sem sinal de Rose. Rose
olhava agora para o nada, sem Sérgio, sem os olhares,
sem o amor e sem esperanças. Sim,
a vida continuou a mesma, mas o coração de
Rose nunca mais foi o mesmo, pois não amou ninguém
com a mesma intensidade daquele amor, um dia na janela. |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008 |