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Apressado
Seu
horário de trabalho era das dez as dezenove e trinta
com uma pausa de uma hora e trinta para o almoço. Jonas
preferia chegar um pouco mais cedo, pois gostava de se esconder
no depósito para ler alguma coisa. Agora estava saboreando
o Evangelho Segundo Jesus Cristo do Saramago. Gostava daquela leitura
densa. Sua rotina virava pó nas páginas daquele livro. Às
dez se apresentava ao Adamastor, gerente da loja, o qual designava
quais seriam suas primeiras tarefas da manhã. Geralmente
iniciava a manhã com arrumação de livros em
prateleiras, nada que um macaco treinado não pudesse fazer
com a mesma facilidade. Jonas
não estava satisfeito com aquele trabalho, mas não
podia se queixar. Podia ler quantos livros quisesse. Sabia que
o conhecimento poderia lhe apontar novos caminhos no futuro. Sua única
preocupação era a vigilância feroz do Adamastor.
Esse daí achava que ler era perda de tempo, portanto quando
pegava alguém lendo, logo arranjava algo para o desocupado
fazer. Depois
de três horas arrumando prateleiras, Jonas podia
tirar uma hora e meia para o almoço. Hoje, para variar,
resolveu lanchar no Giraffas do Setor Comercial Sul. Queria um
lanche rápido para sobrar mais tempo para continuar sua
leitura. Estava interessante. Jesus já havia nascido. José deixara
Maria na gruta de Belém e estava indo procurar emprego como
carpinteiro. Jonas
avisou a Adamastor que estava saindo para o almoço.
Desceu as escadas rolantes sem parar nos degraus. Atravessou a
W3 Sul correndo. Desviou dos carros do estacionamento do Setor
Comercial. Correu para o caixa e fez seu pedido: um tri-clone e
uma coca pequena. Batatas-fritas? Não, obrigado! Comeu rápido.
Quase sem mastigar. Ao sair, quase tropeça em um mendigo. -
Toda sua pressa é uma ilusão. - Falou o mendigo. -
Isso é comigo?
- Perguntou Jonas. -
Quem tiver ouvidos para ouvir que ouça. - Retrucou o
mendigo, mais para si do que para Jonas. Jonas
não se dignou a retrucar. Ignorou o que o mendigo
havia falado e foi embora. Atravessou rápido o estacionamento
e dirigiu-se ao semáforo da W3. Havia feito aquele percurso
no sentido inverso há menos de vinte minutos. Realmente
engolira o almoço. O sinal para a passagem de pedestres
já estava intermitente quando Jonas atravessou correndo.
No mesmo instante em que ouviu uma buzinada ensurdecedora seguida
de um fritar de pneus no asfalto e, logo após, um baque
surdo. Jonas
não olhou para trás, ficou com vergonha de
ouvir um sermão de algum motorista. Sabia que tinha se arriscado,
mas continuou sua corrida até a livraria. Novamente, preferiu
as escadas rolantes ao elevador. Subiu num salto. Passou voando
por Adamastor e foi para seu esconderijo. Gostava de ficar escondido
no depósito, em uma poltrona, atrás de alguns caixotes.
Quase invisível aos olhos de quem entrasse. Lá podia
continuar sua leitura durante todo o resto do seu horário
de almoço. Após uma hora e meia, Jonas voltou para a loja. Tinha que
terminar de arrumar uma vitrine com os novos livros do André Vianco.
Nesse instante, percebeu que algo havia acontecido. Os funcionários
estavam todos reunidos próximos ao Adamastor que estava
ao celular. Rúbia estava chorando e vários colegas
tentavam consolá-la. Jonas se aproximou sem falar nada.
Tinha medo de cometer alguma gafe. Era melhor esperar para saber
o que estava acontecendo. -
Gente o que foi? - Sussurrou Jonas, sem poder conter a ansiedade.
Estranhou
quando não foi respondido. Mas não se preocupou,
pois nesse instante Adamastor desligou o celular e se voltou para
o grupo. -
O caso é grave. Foi traumatismo craniano. Levaram-no
para o Hospital de Base. Ele está na sala de cirurgia. Tenho
um brother lá. Ficou de me avisar assim que tiver alguma
notícia. -
Quem vai dar notícia para a avó dele? - Rúbia
perguntou. - Pode deixar. Eu ligo. - Falou Adamastor. -
Gente o que aconteceu? Quem está no hospital? - Perguntou
Jonas, já se desesperando pelo fato de ser ignorado pelos
colegas. Jonas
se assustou quando Rúbia falou num soluço: -
Pobre Jonas, tão novo... -
Pobre de mim? - Jonas falou num fio de voz enquanto um turbilhão
de imagens explodiu em sua mente. Um flash... E
Jonas se viu atravessando a W3 e sendo atingindo por um táxi.
O motorista freando e tentando desviar. Jonas girando sobre seu
corpo e caindo estatelado próximo ao meio fio. Um filete
de sangue escorrendo de seu ouvido direito. Outro flash... Jonas,
na maca, dentro da ambulância. Dois jovens médicos
tentando o reanimar. -
Vamos, rapaz, resista. - Insistia o paramédico enquanto
fazia massagem cardíaca. Mais um flash... Jonas
na sala de operação. Uma luz forte incomodando
seus olhos imateriais. Seu corpo ensangüentado respirando
com ajuda de aparelhos na mesa cirúrgica. Uma
explosão... E
lá estava Jonas, ao lado do seu corpo na UTI. Seu corpo
não estava mais ligado a aparelhos. Respirava calmamente.
Parecia dormir. Jonas
não entendeu como aquilo era possível. Estava vivo. Então,
por que estava fora do seu corpo? Como iria retornar? |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008 |