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Antonio Belmiro da Silva Junior
Brasília / DF

Apressado


Jonas acordava diariamente ao som do Bom Dia Brasil. Sete e quinze da manhã. De segunda a sexta, Jonas cumpria sua rotina. Pulava da cama. Corria para a cozinha, colocava a água do café para ferver e ia tomar banho. Era um tempo quase cronometrado. Sete e meia, saia do banho. A água já havia fervido e era só coar o café. Comia um pão amanhecido com margarina. Engolia o café e corria para o metrô. Da QE 24 do Guará II até a parada do metrô, era uma caminhada de dez minutos. Pegava o metrô das oito horas. Descia na Galeria dos Estados às oito e meia. Depois, caminhava atravessando o Setor Comercial Sul até o Shopping Pátio Brasil. Chegava ao seu local de trabalho, Livraria Cultura, por volta das oito e quarenta e cinco.

Seu horário de trabalho era das dez as dezenove e trinta com uma pausa de uma hora e trinta para o almoço. Jonas preferia chegar um pouco mais cedo, pois gostava de se esconder no depósito para ler alguma coisa. Agora estava saboreando o Evangelho Segundo Jesus Cristo do Saramago. Gostava daquela leitura densa. Sua rotina virava pó nas páginas daquele livro. Às dez se apresentava ao Adamastor, gerente da loja, o qual designava quais seriam suas primeiras tarefas da manhã. Geralmente iniciava a manhã com arrumação de livros em prateleiras, nada que um macaco treinado não pudesse fazer com a mesma facilidade.

Jonas não estava satisfeito com aquele trabalho, mas não podia se queixar. Podia ler quantos livros quisesse. Sabia que o conhecimento poderia lhe apontar novos caminhos no futuro. Sua única preocupação era a vigilância feroz do Adamastor. Esse daí achava que ler era perda de tempo, portanto quando pegava alguém lendo, logo arranjava algo para o desocupado fazer.

Depois de três horas arrumando prateleiras, Jonas podia tirar uma hora e meia para o almoço. Hoje, para variar, resolveu lanchar no Giraffas do Setor Comercial Sul. Queria um lanche rápido para sobrar mais tempo para continuar sua leitura. Estava interessante. Jesus já havia nascido. José deixara Maria na gruta de Belém e estava indo procurar emprego como carpinteiro.

Jonas avisou a Adamastor que estava saindo para o almoço. Desceu as escadas rolantes sem parar nos degraus. Atravessou a W3 Sul correndo. Desviou dos carros do estacionamento do Setor Comercial. Correu para o caixa e fez seu pedido: um tri-clone e uma coca pequena. Batatas-fritas? Não, obrigado! Comeu rápido. Quase sem mastigar. Ao sair, quase tropeça em um mendigo.

- Toda sua pressa é uma ilusão. - Falou o mendigo.

- Isso é comigo? - Perguntou Jonas.

- Quem tiver ouvidos para ouvir que ouça. - Retrucou o mendigo, mais para si do que para Jonas.

Jonas não se dignou a retrucar. Ignorou o que o mendigo havia falado e foi embora. Atravessou rápido o estacionamento e dirigiu-se ao semáforo da W3. Havia feito aquele percurso no sentido inverso há menos de vinte minutos. Realmente engolira o almoço. O sinal para a passagem de pedestres já estava intermitente quando Jonas atravessou correndo. No mesmo instante em que ouviu uma buzinada ensurdecedora seguida de um fritar de pneus no asfalto e, logo após, um baque surdo.

Jonas não olhou para trás, ficou com vergonha de ouvir um sermão de algum motorista. Sabia que tinha se arriscado, mas continuou sua corrida até a livraria. Novamente, preferiu as escadas rolantes ao elevador. Subiu num salto. Passou voando por Adamastor e foi para seu esconderijo. Gostava de ficar escondido no depósito, em uma poltrona, atrás de alguns caixotes. Quase invisível aos olhos de quem entrasse. Lá podia continuar sua leitura durante todo o resto do seu horário de almoço.

Após uma hora e meia, Jonas voltou para a loja. Tinha que terminar de arrumar uma vitrine com os novos livros do André Vianco. Nesse instante, percebeu que algo havia acontecido. Os funcionários estavam todos reunidos próximos ao Adamastor que estava ao celular. Rúbia estava chorando e vários colegas tentavam consolá-la. Jonas se aproximou sem falar nada. Tinha medo de cometer alguma gafe. Era melhor esperar para saber o que estava acontecendo.

- Gente o que foi? - Sussurrou Jonas, sem poder conter a ansiedade. Estranhou quando não foi respondido. Mas não se preocupou, pois nesse instante Adamastor desligou o celular e se voltou para o grupo.

- O caso é grave. Foi traumatismo craniano. Levaram-no para o Hospital de Base. Ele está na sala de cirurgia. Tenho um brother lá. Ficou de me avisar assim que tiver alguma notícia.

- Quem vai dar notícia para a avó dele? - Rúbia perguntou.

- Pode deixar. Eu ligo. - Falou Adamastor.

- Gente o que aconteceu? Quem está no hospital? - Perguntou Jonas, já se desesperando pelo fato de ser ignorado pelos colegas.

Jonas se assustou quando Rúbia falou num soluço:

- Pobre Jonas, tão novo...

- Pobre de mim? - Jonas falou num fio de voz enquanto um turbilhão de imagens explodiu em sua mente.

Um flash...

E Jonas se viu atravessando a W3 e sendo atingindo por um táxi. O motorista freando e tentando desviar. Jonas girando sobre seu corpo e caindo estatelado próximo ao meio fio. Um filete de sangue escorrendo de seu ouvido direito.

Outro flash...

Jonas, na maca, dentro da ambulância. Dois jovens médicos tentando o reanimar.

- Vamos, rapaz, resista. - Insistia o paramédico enquanto fazia massagem cardíaca.

Mais um flash...

Jonas na sala de operação. Uma luz forte incomodando seus olhos imateriais. Seu corpo ensangüentado respirando com ajuda de aparelhos na mesa cirúrgica.

Uma explosão...

E lá estava Jonas, ao lado do seu corpo na UTI. Seu corpo não estava mais ligado a aparelhos. Respirava calmamente. Parecia dormir.

Jonas não entendeu como aquilo era possível.

Estava vivo.

Então, por que estava fora do seu corpo? Como iria retornar?

 
     
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008