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Michele Fávero
São Paulo / SP

O passageiro sedutor


Véspera de feriado, centenas de pessoas transitam entre os portões de embarque e desembarque, alguns atrasos e imensas filas de bagagens. Gláucia é a última a entrar no ônibus e quando o motorista manobra a desajeitada senta bruscamente na poltrona, desculpando-se com o desconhecido ao lado que responde com um largo e breve sorriso, deixando-se perceber seus lindos olhos claros e certa timidez.

A janela está no lado aposto de sua poltrona e toda vez que vira para observar a noite que começa a dar os ares da graça, sente o perfume forte misturado com a pele do rapaz. Provavelmente de uns vinte e dois anos, bronzeado. Quem sabe um surfista indo ao encontro do litoral. Madeixas loiras e rosto com traços marcantes, mãos másculas, pêlos dourados na parte do braço de fora da camiseta. Com certeza bem mais alto que ela. A curiosidade de saber mais sobre o rapaz que adentra seus pensamentos e envolve de mistério seus instintos a faz se apresentar ao jovem, puxar uma conversa qualquer a fim de pôr um ponto final em seus devaneios. Muito educado, responde suas perguntas e parece ter ficado alegre com a iniciativa dela. Apresenta-se como Edú, ter pouco mais de vinte e dois anos, de férias do trabalho carinhoso no modo de falar e de elogiar. No momento em que ela falava, ele a observava com atenção, e num gesto rápido mexeu em seus cabelos, Glaúcia recuou um pouco surpresa, mas ele continuou e de leve toca em seu braço, resultando num longo suspiro e na vibbração em seu corpo inteiro. Na medida em que a noite caía, a temperatura acompanhava, fazendo que os dois se aproximassem cada vez mais e acabaram cochilando.

Com a primeira parada do ônibus em uma pequena rodoviária, ela acordou e permaneceu com os olhos fechados, estava com a cabeça no ombro de Edú, que encostou suas pernas junto às dela. Aproveitou o sacolejar de estrada e num lento esforço corporal segurou suas mãos e foi correspondida levando um imenso susto. Disfarçou novamente e se encostou um pouco mais. Sentiu o braço em suas costas, e a mão dele passeando por sua cintura, o coração disparou num sinal de proteção que a fez adormecer dentro daquele abraço quente e delicado que rompia as barreiras do desconhecido para a intimidade do tocar da pele, da libido.

Acordou com leve toque da mão do jovem em seu rosto, passeando em seus lábios, com os cabelos caídos sobre o rosto, inclinando-se com a boca entreaberta como se fosse finalmente beijá-la, ele chegou a sentir seu gosto, mas ele disfarçou a ação quando percebeu que a acordara.
O ônibus chega a cidade de destino dele, e tudo foi tão rápido que mal conseguem trocar um abraço, com gostinho de quero o beijo sonhado a noite toda.

Gláucia acompanha seus movimentos lá fora, o ônibus sai e o perfume de Eduardo permanece ao seu lado.

 
     
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008