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A casa azul
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O tempo passa e eu ainda não consegui entender por que
eles correm tanto... O tempo passa... não tem jeito! Não
adianta correr! Sempre
se achou muito forte, esclarecida e "filosofada",
com seus livros velhos comprados - como dizia - \"nos melhores
sebos da capital\". Sobre eles havia se debruçado uma
vida inteira, exatamente como se debruçava sobre a janela
da sala: vendo a vida passar... sem pressa... Conseguiu, com isso,
construir um caráter introspectivo, relativamente "inabalável" e
altamente questionador: - "Penso, logo existo..." Será? Será que
existo mesmo, ou sou apenas o fruto do sonho de algúem que
existe, de fato, em outra dimensão, e que me pensou? É!
Uma espécie de pensamento; sei lá! E se desligarem
a "tomada"? E se pararem de me "pensar-sonhando"?
Deixarei de existir?... E, então, jamais saberei da minha
própria existência!? Por aí, ia. E ia longe
... Sua
casa azul era a sua fortaleza. Sua família; a teia
tênue que ainda a sustenva, com certa tensão e conforto,
no ar rarefeito da sua realidade-fantástica. A realidade
pra ela: seu reino - embora se considerasse mais desencatada que
princesa. Era uma realidade amortecida pelas rédeas firmes
que os pais tinham tomado das suas mãos, desde que nascera. Nasceu,
cresceu e envelhcia lentamente, naquele sobrado; construído
há não sei quantos anos e comprado pelos pais, quando
se casaram. A
mãe dizia que ela tinha de ter sido freira, ou coisa
assim: "Nunca vi menina mais acabrunhada!" Já tinha passado dos 40 há muito tempo e, desde
uma manhã de sol em que todos os jardins da cidade resplandeciam
de juventude, cores e cheiros bons da região das montanhas
- não sei porque cargas d´água - decidiu aquilo
que seria o seu destino; agora e para sempre, amém: se resignava
placidamente - sem mágoas, nem revoltas - à sua " solidão-solteirisse". Alguns
homens já haviam demonstrado interesse por ela
quando mais nova; e mais bonita. Dispensou um por um. Nenhum deles
era o que se poderia chamar de "bom partido". Mas, gostar
- gostar, mesmo - ela só gostou de um: Joselito, o filho
do padeiro da cidade; que padeirinho era. Os pais dela disseram
que de jeito nenhum filha deles ia namorar com filho de padeiro!: "Imagina,
só! Que futuro você pensa que vai ter com esse sujeito,
sua doida! Quer matar seus pais de desgosto?" Abriu
mão do padeirinho e de todos os outros que apareceram
no seu caminho; amava mais a família. Ou talvez fosse uma
preguiçosa que não quisesse lutar pela sua vontade.
Mas ela tinha "Vontade"? Se sacrificava, não como
um ato de auto-penitência por, talvez, saber demais das coisas;
mas porque achava que sua vida já estava decidida desde
quando tinha entrado - fatal - nesse mundo: Destino. Jamais culpou
seus pais pela sua solidão. Apenas a aceitava. Começou a escrever uma auto-biografia, desse jeitinho
- sem tirar, nem por: "Suporto de tudo nesta vida: doença,
fome, frio, morte e solidão; desde que sejam meus; não
dos meus... Isso eu não suportaria. Se eu ainda tiver crédito
com Deus, isto eu lhe peço: - Que seja comigo, Senhor, não
com eles". |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008 |