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Jancarlo Maddalon Ferreira Nunes
Vila Velha / ES

A casa azul


Da janela da sala, via tudo: via a rua; a vida passando sem pressa.... naquela cidadezinha calma, verde e rodeada de montanhas redondas com suas cerrações eternas, no interior do Espírito Santo. Via homens e mulheres: sempre apressados, pela rua afora, com suas sacolas, mochilas e afazeres diários: inadiáveis, super-emergentes. A janela era bem no centro-do-centro da cidade.

- O tempo passa e eu ainda não consegui entender por que eles correm tanto... O tempo passa... não tem jeito! Não adianta correr!

Sempre se achou muito forte, esclarecida e "filosofada", com seus livros velhos comprados - como dizia - \"nos melhores sebos da capital\". Sobre eles havia se debruçado uma vida inteira, exatamente como se debruçava sobre a janela da sala: vendo a vida passar... sem pressa... Conseguiu, com isso, construir um caráter introspectivo, relativamente "inabalável" e altamente questionador:

- "Penso, logo existo..." Será? Será que existo mesmo, ou sou apenas o fruto do sonho de algúem que existe, de fato, em outra dimensão, e que me pensou? É! Uma espécie de pensamento; sei lá! E se desligarem a "tomada"? E se pararem de me "pensar-sonhando"? Deixarei de existir?... E, então, jamais saberei da minha própria existência!? Por aí, ia. E ia longe ...

Sua casa azul era a sua fortaleza. Sua família; a teia tênue que ainda a sustenva, com certa tensão e conforto, no ar rarefeito da sua realidade-fantástica. A realidade pra ela: seu reino - embora se considerasse mais desencatada que princesa. Era uma realidade amortecida pelas rédeas firmes que os pais tinham tomado das suas mãos, desde que nascera.

A janela da sala: uma janela pro mundo; não pro mundo real: o Mundo da Janela da Casa Azul.

Nasceu, cresceu e envelhcia lentamente, naquele sobrado; construído há não sei quantos anos e comprado pelos pais, quando se casaram.

A mãe dizia que ela tinha de ter sido freira, ou coisa assim: "Nunca vi menina mais acabrunhada!"

Já tinha passado dos 40 há muito tempo e, desde uma manhã de sol em que todos os jardins da cidade resplandeciam de juventude, cores e cheiros bons da região das montanhas - não sei porque cargas d´água - decidiu aquilo que seria o seu destino; agora e para sempre, amém: se resignava placidamente - sem mágoas, nem revoltas - à sua " solidão-solteirisse".

Alguns homens já haviam demonstrado interesse por ela quando mais nova; e mais bonita. Dispensou um por um. Nenhum deles era o que se poderia chamar de "bom partido". Mas, gostar - gostar, mesmo - ela só gostou de um: Joselito, o filho do padeiro da cidade; que padeirinho era. Os pais dela disseram que de jeito nenhum filha deles ia namorar com filho de padeiro!: "Imagina, só! Que futuro você pensa que vai ter com esse sujeito, sua doida! Quer matar seus pais de desgosto?"

Abriu mão do padeirinho e de todos os outros que apareceram no seu caminho; amava mais a família. Ou talvez fosse uma preguiçosa que não quisesse lutar pela sua vontade. Mas ela tinha "Vontade"? Se sacrificava, não como um ato de auto-penitência por, talvez, saber demais das coisas; mas porque achava que sua vida já estava decidida desde quando tinha entrado - fatal - nesse mundo: Destino. Jamais culpou seus pais pela sua solidão. Apenas a aceitava.
Ia sempre à igreja Matriz onde se confessava com um estado de espírito que só poderia ser definido como "uma-modorra-de-pajé-centenário", e, aos domingos, participava da missa e da comunhão.

Começou a escrever uma auto-biografia, desse jeitinho - sem tirar, nem por: "Suporto de tudo nesta vida: doença, fome, frio, morte e solidão; desde que sejam meus; não dos meus... Isso eu não suportaria. Se eu ainda tiver crédito com Deus, isto eu lhe peço: - Que seja comigo, Senhor, não com eles".

 
     
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008