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Angelita Santos da Silva
Porto
Alegre / RS
Dentro da noite escura
Ana caminha pela rua estreita e escura. O silêncio é constrangedor:
assusta a menina que anda a passos pesadamente lentos. De repente,
um assovio ao longe começa: parece flutuar em ondas atemorizantes
de uma noite eterna. O som é contínuo, baixo e
penetrante. Ela olha ao redor: janelas escuras, cortinas cerradas.
Um vento sopra na noite quente e úmida. Seu rosto suado
borra a maquiagem de seus vibrantes olhos castanhos. Ana tenta
correr, mas sente-se amarrada a um fio invisível que puxa
seu pequeno corpo magro e feminino. Quer rompê-lo para
livrar-se do peso que a prende àquela sensação
de desconforto e desamparo que a faz penetrar cada vez mais dentro
da noite solitária. Ela tenta; se concentra; tenta unir
forças. Quanto mais tenta, mais presa fica. O som do assovio
se aproxima. Olha ao redor e nada vê: somente a escuridão
da rua, das casas, das janelas. Assovio mais forte. Mais força
faz, mais presa fica, mais suor escorre sobre sua face pálida
e suja. Percebe que não consegue sair do mesmo lugar.
Seu esforço é inútil. Pára. Resigna-se.
O som do assovio se aproxima cada vez mais. Ana fecha os olhos,
abre os braços, levanta a cabeça e pende seu longo
e esguio pescoço para trás. O assovio continua
se aproximando e a envolve de forma fresca e seca. A escuridão
torna-se completa, absoluta. Fazendo-a rodopiar cada vez mais
forte, o assovio torna-se pesado, eufórico, ofegante.
Seu corpo está aprisionado; molhado, dói. Sua cabeça
gira o que não consegue entender. A boca abafada engole
em seco o que não consegue gritar. Qualquer coisa perde
a importância que poderia ter. Seu estômago se contorce
em ânsias provocando um vômito vermelho e denso,
incontrolável. As lágrimas surgem marcando seu
rosto juvenil com sombrias e profundas estrias. Seu coração
transforma-se numa pérola negra, germinando podres e venenosos
tentáculos de ódio e amargura. Fecha-se em si.
Enclausura-se na escuridão de seu ser. Sua beleza juvenil
seca, enrugando sua pela macia a alva. Raízes brotam de
seu corpo ressecado penetrando a terra cálida e úmida
que cobre seu espírito entorpecido.
Ana,
então,
abre vagarosamente os olhos e enxerga os primeiros raios de sol
penetrarem as frestas da janela de seu pequeno quarto
azul.
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