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Jackson Martins
São Bernardo do Campo / SP

Murilus Augustus


E, como de costume, estavam todos exultantes por caminharem lado a lado com o Imperador. Já no inicio da semana ele decretara um de seus passeios dominicais - dessa vez visitariam um de seus locais preferidos. Sempre às vésperas de seus passeios, seus devotos súditos preparavam meticulosamente todos os imprescindíveis apetrechos imperiais, os quais precisariam estar prontamente disponíveis - para a ocorrência súbita de emergencial de alguma eventualidade ou para saciar algum dos seus infindáveis caprichos. Esse ritual era cumprido religiosamente a cada vez que o imperador decidia se ausentar para além de seus domínios.

Apesar da interminável lista de exigências que deveria ser cumprida nessas ocasiões, nem tudo, entretanto, era levado em função desta aos passeios imperiais. Via de regra, as exigências do imperador restringiam-se a saciar apenas seus caprichos e garantir seu entretenimento. O sentimento de adoração e o zeloso cuidado de seus súditos mais fiéis eram responsáveis para garantir que, o que de fato fosse importante, estivesse contemplado na enorme bolsa imperial. Tudo devia estar preparado para se precaverem contra todo e qualquer infortúnio. Todas as possibilidades de condições adversas deveriam ser prontamente atendidas. Imagine você se acontece do Imperador sentir fome e não ter nenhuma de suas iguarias favoritas à mão para saciá-la! Ou ainda dele sentir sede, calor, frio... Ou então sentir-se abatido pelo tédio, acometido de enjôo, pela vontade emergencial (e sempre incontrolável) de urinar, pela picada de algum inseto ou outra indisposição de qualquer ordem. Seria uma verdadeira catástrofe. Antes sobreviessem sobre sua comitiva as dez pragas do Egito - juntas - a sentir a ira do Imperador! Assim como Luis XIV, Napoleão Bonaparte ou qualquer outro imperador que se preze, nosso Imperador também não tolerava falhas.

Ai daquele que não pudesse atender de imediato às necessidades imperiais. Sucumbiria sem piedade à humilhação publica e a injuria, enquanto tentava de forma inútil, patética e exaustiva, justificar o injustificável. Seria insultado. Receberia uma chuva de duras palavras enquanto tentava, ridiculamente, rebater os gritos e a chuva de blasfêmias com palavras de adoração. Conheciam as vontades e os caprichos do Imperador - talvez por isso não se permitissem ao direito de falhar. Assim, além da reprovação do imperador, sentiam sobre si o peso da própria vergonha. Não adotava a mesma técnica de outros imperadores que deixaram sua marca na historia. Não condenava os faltosos à prisão numa masmorra distante nem sequer ordenava estes à execução sumaria. Preferia a condenação moral, que por vezes, lançava uns contra os outros, para seu deleite. Enquanto praguejava contra quem quer que fosse, gostava de ver quem seria o primeiro a tomar suas dores e defendê-lo com a própria vida. Por isso, cuidavam para que tudo saísse de acordo, para que correspondessem de imediato aos seus anseios - fossem eles quais fossem. O Imperador não tolerava erros. Muitas vezes, nem acertos - não fossem esses de seu interesse.

Mas enquanto caminhavam, ai sim, fazia o que fazem todos os imperadores: Se ele para de andar, todos param. Se ele fala, todos escutam. Se ordenava que se calassem, calavam-se de imediato. Se ele ri, todos também podem fazê-lo. Mas se percebe qualquer gracejo fora de hora ou dirigido, mesmo que com fina sutileza, à sua majestade imperial, seria desejável não apenas dez, mas quantas pragas couberem no Egito, somadas aos castigos dos mais profundos quintos dos sete Infernos e o que mais viesse pela frente.

E com todos os preparativos imperiais devidamente providenciados e checados à exaustão, lá foram todos: pai, mãe e avós. Sorridentes como a própria manhã de domingo. Levando pelas mãos Murilo Augusto. 4 anos. O pequeno imperador de traços angelicais, ao parque de diversões que se instalara há algumas semanas no bairro vizinho.

 
     
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008