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Murilus Augustus
Apesar
da interminável lista de exigências que deveria
ser cumprida nessas ocasiões, nem tudo, entretanto, era
levado em função desta aos passeios imperiais. Via
de regra, as exigências do imperador restringiam-se a saciar
apenas seus caprichos e garantir seu entretenimento. O sentimento
de adoração e o zeloso cuidado de seus súditos
mais fiéis eram responsáveis para garantir que, o
que de fato fosse importante, estivesse contemplado na enorme bolsa
imperial. Tudo devia estar preparado para se precaverem contra
todo e qualquer infortúnio. Todas as possibilidades de condições
adversas deveriam ser prontamente atendidas. Imagine você se
acontece do Imperador sentir fome e não ter nenhuma de suas
iguarias favoritas à mão para saciá-la! Ou
ainda dele sentir sede, calor, frio... Ou então sentir-se
abatido pelo tédio, acometido de enjôo, pela vontade
emergencial (e sempre incontrolável) de urinar, pela picada
de algum inseto ou outra indisposição de qualquer
ordem. Seria uma verdadeira catástrofe. Antes sobreviessem
sobre sua comitiva as dez pragas do Egito - juntas - a sentir a
ira do Imperador! Assim como Luis XIV, Napoleão Bonaparte
ou qualquer outro imperador que se preze, nosso Imperador também
não tolerava falhas. Ai
daquele que não pudesse atender de imediato às
necessidades imperiais. Sucumbiria sem piedade à humilhação
publica e a injuria, enquanto tentava de forma inútil, patética
e exaustiva, justificar o injustificável. Seria insultado.
Receberia uma chuva de duras palavras enquanto tentava, ridiculamente,
rebater os gritos e a chuva de blasfêmias com palavras de
adoração. Conheciam as vontades e os caprichos do
Imperador - talvez por isso não se permitissem ao direito
de falhar. Assim, além da reprovação do imperador,
sentiam sobre si o peso da própria vergonha. Não
adotava a mesma técnica de outros imperadores que deixaram
sua marca na historia. Não condenava os faltosos à prisão
numa masmorra distante nem sequer ordenava estes à execução
sumaria. Preferia a condenação moral, que por vezes,
lançava uns contra os outros, para seu deleite. Enquanto
praguejava contra quem quer que fosse, gostava de ver quem seria
o primeiro a tomar suas dores e defendê-lo com a própria
vida. Por isso, cuidavam para que tudo saísse de acordo,
para que correspondessem de imediato aos seus anseios - fossem
eles quais fossem. O Imperador não tolerava erros. Muitas
vezes, nem acertos - não fossem esses de seu interesse. Mas
enquanto caminhavam, ai sim, fazia o que fazem todos os imperadores:
Se
ele para de andar, todos param. Se ele fala, todos escutam.
Se ordenava que se calassem, calavam-se de imediato. Se ele ri,
todos também podem fazê-lo. Mas se percebe qualquer
gracejo fora de hora ou dirigido, mesmo que com fina sutileza, à sua
majestade imperial, seria desejável não apenas dez,
mas quantas pragas couberem no Egito, somadas aos castigos dos
mais profundos quintos dos sete Infernos e o que mais viesse pela
frente. E
com todos os preparativos imperiais devidamente providenciados
e checados à exaustão, lá foram todos: pai,
mãe e avós. Sorridentes como a própria manhã de
domingo. Levando pelas mãos Murilo Augusto. 4 anos. O pequeno
imperador de traços angelicais, ao parque de diversões
que se instalara há algumas semanas no bairro vizinho. |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008 |