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Karina Kowalski
Lajeado / RS

O fim


Era um dia frio. A sombra de figueira encobria o sol tão esperado depois de uma semana de chuva. A água cai das folhas em seu roso frio e cansado. Ele não se importa com a serena perturbação das gotas de água. Naquele momento ela simboliza a limpeza de sua alma.

Permanecia de olhos fechados ouvindo o cantarolar das folhas ao vento. Sentia a brisa fina da lagoa que também cantarolava. Era uma espécie de mantra, algo que lhe transmitia extrema paz. Embora o vazio tomasse conta de seus sonhos, aquele momento tornara-se mágico. Era algo inexplicável como um súbito "êxtase" de alguma coisa qualquer.

Seus olhos então embaçaram, encheram-se de dor. Lembrou daquela cena horrenda, desastrosa e fétida. Pensou que nada mais fazia sentido pra ele. Que não merecia aquele momento mágico de purificação. Para ele o mundo era dor, desespero e caos. Ser feliz não era seu estado natural. As marcas que carrega na pele são a prova maior de tudo isso. E para seu maior desespero: ele ama. E o amor é a pior das dores. Sentia-se sufocado, mas não queria respirar. Sabia que aquela dor desesperadora que sentia e que tanto admirava, estava perdendo, estava escorregando entre seus dedos. A dúvida lhe corrói. Ele tem um inexplicável medo de viver.

O sol agora se põe mais tarde, mas já começa escurecer. Seus olhos cheios de lágrimas permaneciam fechados, submersos em um mar de dúvidas e caos. Ele abriu os olhos. Está só numa imensidão vazia. Levantou-se lentamente e pegou o caminho de volta para casa. Um caminho sombrio em meio à multidão, e mesmo assim vazio.

A dor tomava conta dele, mas era assim que devia ser. Ele lembrara que uma vez disseram-lhe que se desejasse muito alguma coisa, o mundo inteiro conspirava a seu favor. E assim se fez...

A multidão e o barulho lhe deixavam atordoado. A passos largos e cabeça baixa ele chegou em casa. Abriu a porta devagar, colocou a chave em cima da mesa da sala. Pegou uma toalha que estava estendida no sofá e foi tomar banho, um longo banho.

A campainha toca, mas ele ignora. Não quer ver ninguém. Provavelmente era aquela que ele havia escolhido, mas ele não queria vê-la. Ou queria? Exitou por instantes, fez menção de atender, mas preferiu ficar ali. Só. Purificando seu corpo já que a alma não era mais possível.

O tempo passa e ele permanece imóvel. A água percorre seu corpo frio e imundo. Mal sabe ele que toda aquela sujeira está impregnada em sua pele, em seus poros.

Sai do longo ritual e vai em direção ao espelho. Olha para o espelho e a única coisa que vê é sua alma envolta em brumas, solidão e dor. Debruça-se sobre a pia de cabeça baixa. Fica alguns minutos ali. Parado. Aguardando alguma coisa que não sabe bem que é. Fecha os olhos. Tenta pensar em algo, mas não em soluções - tudo é muito complexo para ele. Sua mente está vazia tanto quanto sua alma. Pergunta-se: por quê? Mas não encontra resposta alguma. Talvez nem queira encontrar. Seus olhos estão embaçados. Seu corpo amortece lentamente. Lembranças lhe vêm em mente como um filme caótico, mas sua alma nunca esteve tão tranqüila.

Olha para seu corpo nu e frio. Sente-se bem. Sente, pela primeira vez, extrema paz em meio ao caos de sua mente e a leveza de sua alma. Mas ele permanece ali.

Intacto.
Imóvel.
Intocável.
Só...

 
     
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008