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O fim
Permanecia
de olhos fechados ouvindo o cantarolar das folhas ao vento. Sentia
a brisa fina da lagoa que também cantarolava.
Era uma espécie de mantra, algo que lhe transmitia extrema
paz. Embora o vazio tomasse conta de seus sonhos, aquele momento
tornara-se mágico. Era algo inexplicável como um
súbito "êxtase" de alguma coisa qualquer. Seus
olhos então embaçaram, encheram-se de dor.
Lembrou daquela cena horrenda, desastrosa e fétida. Pensou
que nada mais fazia sentido pra ele. Que não merecia aquele
momento mágico de purificação. Para ele o
mundo era dor, desespero e caos. Ser feliz não era seu estado
natural. As marcas que carrega na pele são a prova maior
de tudo isso. E para seu maior desespero: ele ama. E o amor é a
pior das dores. Sentia-se sufocado, mas não queria respirar.
Sabia que aquela dor desesperadora que sentia e que tanto admirava,
estava perdendo, estava escorregando entre seus dedos. A dúvida
lhe corrói. Ele tem um inexplicável medo de viver. O
sol agora se põe mais tarde, mas já começa
escurecer. Seus olhos cheios de lágrimas permaneciam fechados,
submersos em um mar de dúvidas e caos. Ele abriu os olhos.
Está só numa imensidão vazia. Levantou-se
lentamente e pegou o caminho de volta para casa. Um caminho sombrio
em meio à multidão, e mesmo assim vazio. A dor tomava conta dele, mas era assim que devia ser. Ele lembrara
que uma vez disseram-lhe que se desejasse muito alguma coisa, o
mundo inteiro conspirava a seu favor. E assim se fez... A
multidão e o barulho lhe deixavam atordoado. A passos
largos e cabeça baixa ele chegou em casa. Abriu a porta
devagar, colocou a chave em cima da mesa da sala. Pegou uma toalha
que estava estendida no sofá e foi tomar banho, um longo
banho. A
campainha toca, mas ele ignora. Não quer ver ninguém.
Provavelmente era aquela que ele havia escolhido, mas ele não
queria vê-la. Ou queria? Exitou por instantes, fez menção
de atender, mas preferiu ficar ali. Só. Purificando seu
corpo já que a alma não era mais possível. O
tempo passa e ele permanece imóvel. A água percorre
seu corpo frio e imundo. Mal sabe ele que toda aquela sujeira está impregnada
em sua pele, em seus poros. Sai
do longo ritual e vai em direção ao espelho.
Olha para o espelho e a única coisa que vê é sua
alma envolta em brumas, solidão e dor. Debruça-se
sobre a pia de cabeça baixa. Fica alguns minutos ali. Parado.
Aguardando alguma coisa que não sabe bem que é. Fecha
os olhos. Tenta pensar em algo, mas não em soluções
- tudo é muito complexo para ele. Sua mente está vazia
tanto quanto sua alma. Pergunta-se: por quê? Mas não
encontra resposta alguma. Talvez nem queira encontrar. Seus olhos
estão embaçados. Seu corpo amortece lentamente. Lembranças
lhe vêm em mente como um filme caótico, mas sua alma
nunca esteve tão tranqüila. Olha para seu corpo nu e frio. Sente-se bem. Sente, pela primeira
vez, extrema paz em meio ao caos de sua mente e a leveza de sua
alma. Mas ele permanece ali. Intacto. |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008 |