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Lembranças de Isabella
Na
gaveta de lembranças há velhas fotografias que
jamais se multiplicarão. Suas roupas permanecem no armário,
intocáveis, à espera de sua senhora. Mas sua senhora
tarda a voltar. A mãe, desesperada, continua seu choro.
Suas lágrimas parecem conter toda angústia do mundo.
O coração, pequeno e doído, ainda busca razões
que a própria razão desconhece. As fotos daqueles álbuns
de natais passados continuarão intocáveis ao correr
voraz das eras... Quando voltará Isabella para os seus?
Quando a vida verá novamente aquele sorriso infantil que
jamais se deixou abalar através da noite escura, ainda que
as sombras a envolvessem? As respostas parecem não existir...
parecem não fazer sentido. E sempre que a porta se abre,
surge a impressão de que ela está chegando da escola. É como
se seu aniversário fosse ainda comemorado; e seu sorriso
tocante iluminasse toda a sala, deixando somente o susto de um
dia nebuloso. Sabemos,
porém, que isso jamais acontecerá. O coração
tenta enganar-se em busca de saída, mas não há saída,
a menos que a própria vida tenha nos pregado uma peça
misteriosa e sem graça. A saudade vai ficar... As tardes
que passou com a mãe serão sempre lembradas... O
mundo o qual amava, com sua família, seus brinquedos, seus
amigos da escola... isso certamente ninguém apagará.
Porque a vida não pode se repetir, mas, contrário
ao que pensamos, não é como grafite que se apaga
ao leve tocar da borracha. A vida é mais plena e fabulosa,
não existe borracha que possa apagar os bons momentos que
tivemos. |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008 |