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Allan Pitz
Rio de Janeiro / RJ

A fantástica máquina de Franklin



Com o mundo pela frente, as estradas por conhecer, a vida berrando nas placas luminosas, não era justo que só o coitado do Franklin não pudesse ter o direito a liberdade plena. Homem de verdade não tem duas pernas; tem quatro rodas. Era assim naquela família.

Sob o amanhecer, preparava-se para pedalar sua “Magrela enferrujada” até o trabalho. De lá iria da mesma forma para faculdade. Os irmãos e primos já tinham seus carangos, mas dificilmente sobrava lugar para caronas. O expediente menos corrido, as “Marias gasolinas”, os luxos motorizados, davam-lhe ódio – Quando eu comprar meu carro, também não convido ninguém pra nada. Pra nada! -

- Tio quer comprar um número de sorteio? - Franklin sorriu empolgado. Um jornal de bairro promoveu o grande sorteio de um automóvel 0km; adivinhem quem foi o sortudo vencedor?

O rapaz insistente que comprou oitenta e oito bilhetes! – Daí eu pensei, um deles tem que ser o “Danado” -, E ria-se todo. Franklin não cansava de repetir às meninas do bairro, o seu enorme golpe de sorte, sorte de campeão. Nossa! Que vantagem tinha sobre os parentes agora! Afinal, seu “possante” não foi presente de ninguém, de Deus, quem sabe... – “Nego” fica nessa de Deus lhe pague, Deus lhe pague, vai que ele me pagou mesmo?! - sortudo! Agora só ficava sorrindo o ex ciclista.

A bordo de seu carro esportivo, Franklin esquecia tudo lá fora, pisava fundo, viajava pelo simples prazer da estrada, do vento, do ar verde que consegue ser puro mesmo com a movimentação dos carros. Voltava tarde, já esquecera milhões de vezes a tal faculdade. - De que mesmo? Ah! De administração – Há muito não assistia uma aula. Em compensação, quantas paisagens incríveis quanta adrenalina, êxtase de alegria e emoção, que prazer inenarrável! Difícil... Quase impossível viver como nos tempos da magrela. E como não querer o Mundo de uma vez agora?

- Corro atrás do que quero a duzentos por hora! E não derrubo o copo. – Todavia a descoberta tardia do álcool não combinava com a paixão pela velocidade. Porém, dentro de seu paraíso metálico de segurança não sobrava tempo pra cautelas medrosas e agouros de mãe; - Só se vive uma vez cara, uma vez.- Por mais incrível que pudesse ser para alguns, ou absolutamente normal para tantos outros, Franklin sentia-se muito melhor motorista sob o efeito dos drinks, batidas, vinhos, e tudo que o dia ou a ocasião sugerisse; -Se for pouca “birita” tranqüilo. De cara cheia só profissional que nem eu; vira vídeo-game! Só não posso desligar e começar de novo... Vira vídeo-game.- Ainda existia muito do moleque Frank ali. São evidentes os sinais da evolução física, percebe-se na barba, no rosto, na voz. Mas havia na mente muito, mas muito, do garoto obcecado na fila do Fliperama. A infantil imortalidade involuntária persistia revestir-lhe o peito de aço. Super-Homem!? Super Máquina!

No dia 20 de Junho de 1998, às 23 horas e 55 minutos, a Fantástica Máquina de Franklin deu seu último vôo rasante. Sob a regência do maestro etílico, um inesquecível som de freios queimando, impacto, ossos rasgando a pele e conhecendo o mundo como filhos prematuros. Não sobrou quase nada do espetacular e inexplicável acidente entre o carro esportivo e o muro. Apenas Franklin anestesiado pela realidade, um “cotoco” dentro da lata retorcida; sem pernas, sem “tente novamente”, sem “super poderes”, sem super máquina, sem nada. Mas lúcido! Pela primeira vez em algum tempo, para poder ser platéia do próprio espetáculo e motorista eterno do seu único e incondicional meio de transporte atual; uma fantástica cadeira de rodas!

 
     
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008