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José Luiz da Luz
Ponta Grossa / PR

Busilli



Vede-lo. O mar é um leito onde repousa o fascínio e o mistério: na alcunha da ardentia que vislumbra os sentidos, sonda à espreita a escuma faminta; no seu alvo leito, heróis ou insontes tremem ao serem tragados atraídos pela beleza e mistério. Um deleite das águas, que mescla o perigo ao vislumbre do amor, os lábios lascivos à
embriaguez dos sonhos.

Eu estava na praia deserta da madrugada. A escuma dançava alva, como refletindo no verão o morno luar. O rebentar das vagas na areia salgada se exauria como um gemido agonizante. A noite ia erma e o mar noturno solitário. Eu, merencório da solidão dos meus dias, acampava a sós pela praia, bem longe da cidade, como um moribundo que busca à intuição uma migalha de paz. Estava longe, muito longe de qualquer luz da cidade. As águas só se faziam claras pela lua sonolenta que ora se revelava entre as nuvens, ora se escondia.

Uma sombra de mulher de repente se via na escuma da praia, não sabia se brincava, ou se boiava. Era uma de vestes brancas que ora mesclava-se à alva escuma. Tinha uma face de lívida estátua sem vida, estática! Bradei com espanto:

- Mulher, a praia é perigosa e as vagas bravias. Não brinques ... não morras ... venhas ao chão firme!

Ela somente vagava sob o comando das águas, parecia sem vontade própria. Era uma de vestido de noiva, toda molhada da escuma. Saltei sobre as vagas, tomei-a nos braços. Pelos olhos vidrados eu temia estar morta, meus olhos como suar de uma taça trincada, desciam riscos de lágrimas, e pensava "que bela é esta noiva". A água impregnou de areia os seus longos cabelos, e os seios dela frígidos que a areia os roçou. Era uma noiva bela que eu suspirava e delirava de amor!

Era a mais bela visão: uma noiva no escuro da praia, daí lágrimas se derramavam. Veio sei lá de onde. Quem seria o noivo, por que estava boiando na praia? Eu não sabia, contudo o que eu sabia era que eu estava numa noite, na beira da praia deserta com uma figura desmaiada nos meus braços: percebi que havia naquela mulher um resquício de um hálito, ainda respirava, porém arquejante, e chorei de frenesi. Uma esperança àquela desconhecida ser como enviada pelas águas a nênia das murchas flores da minha alma.

Num cálido sonho do meu coração, acalantei-a do frio em meus braços, amei-a com a alma, sequei-a, limpei-a da areia. Pedia a ela "não morras", porém nos meus braços lentamente o seu corpinho foi desfalecendo, seus gélidos lábios exalaram o seu último suspiro, e seu coração tremeu e parou. Foi como uma explosão dentro do meu peito, vi meu sonho de amor se esfacelar dentro de mim. Lívida, deitei-a na praia, de seios regelados sem vida! Imóvel e virgem na areia. Nem seus cálidos olhos não conheci, nem as volúpias sensuais dos lábios não degustei, nem em seu colo de mulher não me deitei.

Desvairei: - Volta meu amor! Vem antes desposar-me em longos gemidos de amor. Queria teus lábios beijar, em teu colo de mulher sonhar... volta ... volta ...

A noite se fez mais silenciosa e tenebrosa: os grilos e as aves noturnas cantavam tristes; e eu desolado na praia com um corpo de uma virgem. A lua sumira-se nas nuvens e a chuva caía às gotas rotas: eu podia pressentir que na face dela havia um semblante de uma tristeza recôndita. Quem era ela? Como apareceu aqui? ...

Andei amedrontado longo tempo com ela nos braços em busca de alguma ajuda, pois não sabia o que fazer com o corpo, - "pensarão que eu a matei", eu temia: enfim cansei; ajoelhei-me na relva molhada. Ela parecia que dormia.

Vencido pela dor e pela fadiga, desmaiei ao lado dela. Quando amanheceu achei-me só, a desconhecida havia desaparecido. Contudo, a noiva lívida não poderia ser apenas uma alucinação: a sua aliança eu havia retirado e estava no meu bolso!

A viração da praia, àquela noite desmaiado na chuva, causaram-me uma febre. No
desvario, trespassava no pensamento aquela brancura de virgem, eu soluçava e todos os meus ecos se perdiam na solidão da praia ...

Saí em busca dela e de respostas: roubaram o corpo? Será que apenas desmaiou, acordou e fugiu? Quem era ela? Voltei às águas e nada se via. Andava perdido seguindo rastros incertos. Nada me saciava; no sono da ebriedade me vinha aquela virgem ...

Quando dei ciência de mim, estava frente a um templo. Mesmo fremente entrei, visto que as portas estavam abertas e que o religioso estava nas dependências internas, fitei quatro círios que cintilavam os véus numa mesa improvisada no altar. Ergui-os. Era o corpo da virgem. Véus brancos da mortalha, as grinaldas da noiva cobriam os sonhos dela naquela lívida face. Ergui o véu como um noivo que ergue para o beijo, os olhos vidrados entreabertos pareciam procurar algo perdido no além. Aquele semblante que expressava paixão, lembraram-me dos meus próprios sonhos de amor perdidos ... Era a virgem das águas! Abracei-a, tomei-a nos meus braços como se fora eu o seu noivo amado. Ela era bela mesmo assim!

Uma áspera voz ordenou-me a afastar ... - Deixa ela em paz! Não vês que já é a morte? - Era a autoridade do religioso que se apresentava.

À quele calor da febre de minha cabeça, à convulsão do amor fenecido, à virgem que desejaria reanima, ávido eu queria explicações sobre a virgem.

O religioso asseverou:

- Trouxe-a primeiro por ser mais leve, depois iria resgatá-lo. A propósito, quem és tu? Pensei que estivesses morto, mas vejo que estavas desmaiado, quase em coma.

- Me chamo Busilli, conta-me sobre a virgem - Enfim eu saberia a história dela.

- Vana era o nome dela, noiva de Damnum. No dia do casamento ansiosa o esperava vindo da Itália. Ele partira há tempos angariar trabalho, trazia na mala e no coração os frutos do suor e a esperança de nova vida. Casariam e partiriam para as terras de Taranto.

Na aspereza daquelas palavras, havia contudo algo de horrível. A areia, a noite, a escuma, o relento onde eu passara uma noite com ela lívida nos braços, no desejo de um amor, tudo me entristecia. Consegui, a custo, entender que naquele abraço o peito dela buscava seu amado. E eu ... que absurdo ... fui me apaixonar pela noiva de outro, além disso, sem vida ... que loucura meu Deus! ... Que loucura!

- Mas por que ela boiava nas águas?

- O avião que o trazia da Itália caiu no mar, nunca mais o acharam. Vana vestida de noiva enlouqueceu e nunca mais quis tirá-lo, sempre achando que seu amado voltaria a qualquer momento. Subia no farol abandonado olhando o mar a chamá-lo ... Pedia a Deus do céu, para o amado voltar. E na loucura de amor que se pendeu, olhava e sonhava ao longe do mar. Queria ter asas para voar, queria ser um anjo para salvá-lo. E não suportando seu amor, pensando ter asas para voar, atirou-se do farol ao mar. Nadou em busca do seu amado, de braços em braços, o mar levou sua alma ao seu amado, mas seu corpo despejou na praia.

Um ano, dias e noites se passaram depois do episódio da virgem. Custava-me a carregar o fardo das lembranças, ora ria de um rir desvairado, ora chorava.

Lembrai-vos do farol! Aquela forma branca de virgem que se atirou e pelo céu pedia seu amado. Neste mesmo farol muitas vezes subi a fitar o céu e o mar: que importa se não tive a coragem de atirar-me também! Quem perguntar o amor da virgem, por quem sentiu e morreu, saberá que meu paradoxo fora demasiado: querer morrer, mas por que morrer por quem morreu por outro?

Pelos céus, que não! Desde que retirei a aliança do dedo dela não tive paz, como se ela a pedisse ardentemente, eu próprio guardei como amuleto, mas na torre atirei-a ao mar como querendo devolvê-la.

Era à tarde, eu estava num acampamento nos confins do rio Amazonas, fugindo de mim mesmo, mas no silêncio eu me encontrava mais ainda, é certo! Nunca, nunca fui amado, murmurava. A ilusão morreu na virgem. Oh! não poderia morrer por ela.

Ouvindo os gritos de um boto cor-de-rosa, eu pensava " queria ser como eles". Sabeis da lenda? Transformar-se em um homem desconhecido, conhecer donzelas e amá-las, porém eu, ter o fogo da alma para achar meu verdadeiro amor! Mostrá-las o que faz um homem de alma e coração puros, que não são as palavras que provam alguma coisa.

Eu sorri de mim mesmo, absurdo, ser um boto cor-de-rosa! ...

Atirei-me no rio para nadar e espairecer o sangue enfebrado das ilusões. Entre os botos e galhos, esqueci-me dos perigos iminentes de seres carnívoros ou peçonhentos. Senti algo cravar em minha perna, rígido, logo o sangue espalhou-se na água e o pânico veio, porque atrairia animais carnívoros. Pensei na minha vida inteira em um único segundo, a virgem, o farol que eu não quis me atirar, mas estava enfim face à face com a morte, enterrado até o pescoço em uma água lamenta. Que morte, trocar as águas místicas do mar por águas lamacentas de um rio! Estava começando a faltar o ar, nada mais eu via, só debatia.

De súbito algo me pegou pelos braços, desvencilhou-me do galho que cravou na carne, o pânico foi tanto que desmaiei na água. Quando acordei estava no colo de uma mulher que limpava minha face do lodo. Tinha nos olhos o brilho do luar das matas, tinha na face o mistério das selvas, tinha o perfume das ervas das selvas. Estava estupefato, eu fora para uma desconhecida das matas o que a noiva fora para mim, mas pelos pendores da desconhecida eu fora salvo.

- Quem és tu, que fazes nesta selva faminta?

- Sou Iaciara, que quer dizer espelho da lua, sangue indígena desta terra de Tupã. Ela falava com sotaque - Minha terra! Doce mata, mãe natureza. De longe ouvi teu pavor meu jovem. A selva é como o mar, merece cuidado. Quis proteger-te como uma guerreira protege seu amado.

Ouvi sua firme voz! Creio que chorei, se não pelos olhos mas no peito arquejava. A antiga dor não mais me abarcava. Abri meu coração a ela como um vulcão, despi meus medos, minhas dores, mostrei toda ansiedade em querer amar uma alma na terra.

Ela tomou-me nos seus fortes braços. Sua voz firme fez tremer meu peito ao revelar-me:

- Homem branco, de branco espírito e puro coração. Faço-te saber que podes me amar com toda força do teu coração e de teu espírito, mas jamais poderás me tocar. Sou a virgem das matas, prometida virgem à Tupã até o fim dos meus dias, sou a imagem da pureza em minha tribo. Quem se apaixonar por mim, será também o mais puro da tribo, pois não poderá me tocar, deverá amar não com o corpo mas com o espírito.

Trouxe o mais delirante gorjear dos pássaros, seus lábios morenos trouxeram o sabor do mel proibido, seu suor trouxe os aromas das ervas perfumadas intocáveis do alto das montanhas. Fez-me sorrir e chorar de amor e desejo, feneceram as antigas ilusões da estátua da virgem noiva sem vida nas vagas, mas nasceu outros desejos de uma virgem viva, mas intocável.

A única coisa que importava era que eu estava diante de uma mulher real, a mulher da minha vida, e que deveria amá-la não com o sangue lascivo, mas com o coração e com o espírito.

Busquei o amor nas vagas das praias conhecidas, no entanto tive que palmilhar por longos caminhos, e em condições inesperadas fui encontrar. Nem sempre o caminho do amor é o mais fácil.

Sinto a minha alma na alma dela, sinto o prazer no espírito.

 
     
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008