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Borges de Assis
Curitiba / PR

O amoral do José



O maior prazer daquele sitiante, o José, era descansar, à tarde, após árdua labuta na sua roça de amoras, ou como ele mesmo chamava, o seu amoral.

Sentado na rede de varanda daquele lindo sítio, ficava horas e horas ouvindo o chilrear do seu casal de curiós, quando não do canário chapinha.

Ele embalava-se aos sons e silvos dos canarinhos da terra e sonhava com a próxima colheita que, como a de todos os anos anteriores, haveria de ser abundante.

Um dia ele reparou que o ninho que havia feito com todo o carinho, com palha de milho seca para o casal de curiós, não estava mais no canto da gaiola. Ele fez outro e esse outro sumiu também.

Aí ele deu de observar o que poderia estar acontecendo e se deparou com um sorrateiro pardal roubando os fiapos da palha do bendito ninho.

Ele decidiu então seguir o pardal para ver para onde o mesmo levava as palhas, e o que aconteceu? Deparou-se com mais um e, mais um, e mais um pardal espalhados pelas suas terras.

-Deus é mais! Bradou indignado o agricultor - De onde apareceram essas pragas invadindo a minha roça inteira!

Naquele dia ele nem foi trabalhar, pois concluira que o sítio estava infestado das aves imprestáveis.

Tomou uma decisão. Foi à Casa do Ruralista onde lhe receitaram um veneno que exterminaria os bichos da noite para o dia. Voltou então para casa, satisfeito, e não tardou em aplicar o veneno.

Não deu outra, sem demora os pardais começaram a desaparecer e em poucos dias havia desaparecidos por completo.

Os dias seguintes foram de paz, trabalho e deleite na apreciação do canário da terra e do curió em seus cantos monumentais. Como era luxuriante! Que penas sedosas e brilhantes tinha aquele canarinho! Que dengo! Que canto!

Setembro. Mês de colheita. Silêncio. Nenhum pardal!

Nenhum cacho de amora, nenhuma espiga granulada no milharal! Nada! Nada! Nada!

Só o canto luxuriante do canário terrinha na gaiola e o pesadelo de, mais dias menos dias, acordar com a barriga roncando de vazia.

E o que estava acontecer? Os pardais, os incômodos pardais que antes faziam com a sua fuzarca a polinização das plantas haviam sido abatidos a veneno.

Os bagunceiros pardais não estavam lá na época certa e esperada pelas plantas!

Houve trabalho do agricultor, ouve crescimento e floração, mas não houve frutificação porque os pardais não estavam lá para que, com sua balbúrdia, espalhassem o pólen, no conhecido processo de polinização.

Mas o curió e o canarinho-da-terra estavam lá, certamente, com seus cantos exuberantes. Mas não seriam eles a descerem da recôndita gaiola para meterem seus canoros bicos na obra, ora!

 
     
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008