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Ronaldo Honorio
Rio de Janeiro / RJ

Olhos azuis


A primeira vez aconteceu quando eu tinha uns dez anos, creio; a memória é falha, sabemos! Nunca esqueci aqueles olhos azuis, face comprida, os cabelos loirinhos, o vestidinho de pregas e babados. O encontro foi no funeral do meu tio Arnoldo, mais conhecido carinhosamente por "sexta-feira".

Era um 'faz tudo' no bairro onde morávamos; sua solidão e estranheza lhe deram esse apelido incomum. Diziam que nas noites de sexta-feira ele ficava estranho, bebia até não poder mais e depois da meia-noite uivava feito um lobo errante pela madrugada.

Foi no seu funeral que eu vi pela primeira vez aqueles olhos azuis que marcariam minha vida para sempre. Ela devia ter a minha idade, ou mais nova talvez, não sei precisar. Linda e misteriosa. Pôs sua mão esquerda no meu ombro direito e me olhou declinando ligeiramente o rosto, sorriu misteriosamente com certa ironia, eu hoje suponho. A outra mão dedilhava um pingente, um coração vermelho do tamanho de uma frutinha de pitanga, num cordão de ouro em seu pescoço.

Sua fisionomia tomou um aspecto meio estranho, e seu olhar pareceu hipnotizar-me. E se foi, saiu entre o mar de gente alta ali no funeral. Há vinte anos atrás um fato estranho voltou a marcar minha memória. Eu estava no centro da cidade, um calor infernal e, ao tentar atravessar uma rua fui impedido pela multidão que olhava um acidente. Havia um corpo no asfalto. Forcei passagem para olhar e vi cérebro espalhado pelo chão; pedaços gelatinosos cinzentos de massa encefálica na rua.

Entre a fatalidade e repugnância da cena outro evento sinistro se revelou. Ao meu lado uma mulher loira de cabelos longos, muito elegante, esbelta, tocou meu ombro direito com sua mão esquerda. Assustei-me com o toque. Ao olhar sua face, fui tomado por enorme espanto. Ela dedilhava um pingente, um coração, com sua outra mão. Olhou-me profundamente, os olhos azuis irradiando um brilho sinistro. O sorriso se abriu, como um coringa. Meu coração acelerou, fiz menção de dizer algo, mas não conseguia articular as palavras. Em segundos, ela se foi no meio da multidão.

Fiquei olhando-a partir, trajada num vestido longo, de um tecido grosso; um incômodo num dia tórrido como aquele, pensei. Ela não olhou para trás. Fiquei ali estático no meio do povo curioso pelo anônimo morto no asfalto, na contingência mais estúpida da vida dramatizando meu instante insólito. Eu devia ter meus 30 anos na época.

Vivi sempre solitário. Distante dos irmãos que constituíram suas famílias. Meus pais morreram sem que eu tivesse próximo deles. Não tive filhos que eu tenha assumido, outros assumiram a paternidade. Gozei de vida muito boêmia e intensa. Preferi assim.

Muita mentira, muita traição, muito desgosto eu via em todos os lares. Preferi o caminho da solidão e dos prazeres sem compromissos, sem as neuroses que corroem as famílias. Mas tive paixões e amores profundos. Ainda os tenho, aqui e ali, esporadicamente. Em momentos mergulhados na memória sempre quis entender quais simbolismos a vida, naqueles esquisitos encontros com aqueles olhos azuis, me reservava. Na infância e depois anos mais tarde. Mas, ainda haveria de ocorrer algo perturbador. Vou narrar um acontecido.

Aos 50 anos eu tive um infarto na rua. Fui atendido por transeuntes e levado ao hospital. Perdi a noção dos dias que lá passei até que obtive melhora e fui transferido para a enfermaria geral. Fiz amizades com outros enfermos. Não recebi visita de nenhum dos meus irmãos e apenas pude contar com os carinhos de duas amantes que escapuliram de suas vidas de casadas e vieram me visitar. Contudo, em uma semana tive outra forte dor no peito e apaguei.

Acordei, soube depois, cerca de três dias na UTI; meu prognóstico não era dos melhores. Minha hora chegava. Eu até desejava que fosse logo, pois aquela maldita dor no peito que me fez defecar era o que mais me humilhava. Situação desprezível a que chega um ser humano.

Numa noite, uma médica entrou, conversou com as enfermeiras do plantão na unidade, olhou algumas fichas numa prancheta e veio em minha direção. O pavor invadiu-me ao tempo que senti um gosto amargo na boca.

A médica, loira, o pingente de coração, o rosto comprido, aqueles olhos azuis do passado, e o mesmo brilho penetrante no olhar: era ela. Pôs a prancheta sobre meu ventre, sua mão esquerda fria tocou-me o rosto e a outra deu início aquele sinistro cacoete que dedilhava o pingente de coração. Sorriu silenciosamente, como um coringa. Minha pele arrepiou-se. Durou uma eternidade o meu olhar na laguna azul profunda dos olhos dela. A mesma fisionomia da mulher de 20 anos atrás. Parecia não ter envelhecido um ano. "Não pode ser, eu pensei, meu Deus, não pode ser". Então, pela primeira vez ouvi sua voz, firme e suave, rosto inclinado sobre mim, disse:

- Temos onze pacientes aqui e um hoje não viverá além da madrugada.

Confesso: penso ainda não ser a sua hora. - O que quer dizer com isso - balbuciei atônito.

- Não precisa ser você, pode ser outro, basta me acenar positivamente, não diga nada, apenas acene com sua face.

Milhões de pensamentos fustigaram minha mente naquele instante, mas fui rápido como o trovão e acenei positivamente. Eu queria viver, claro - quem não quer?

- Boa escolha. Adeus... Mas, um aviso: a vida é uma eterna troca, uma roda com mil olhos que vislumbram todos os horizontes. - Disse isso e se foi, após tirar a prancheta sobre mim, deixando-a nas mãos das enfermeiras.

Pela manhã despertei e fiquei sabendo que um paciente da UTI havia falecido. Nos dias seguintes fui tendo rápida melhora e em duas semanas obtive alta. Meus últimos exames, segundo o cardiologista, estavam ótimos: segundo ele minha saúde era como a de um touro.

Depois desse acontecimento tenho sonhado constantemente com ela. Os olhos azuis fitando-me ao longe. Seu espectro belo, parado numa esquina sombria, vestida de branco, castigada pelos ventos frios da madrugada, e o olhar maligno assombrando minha alma. O sorriso largo, como um coringa, me aguardando, não sei quando nem em qual momento futuro.

 
     
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008