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Olhos azuis
Era
um 'faz tudo' no bairro onde morávamos; sua solidão e estranheza
lhe deram esse apelido incomum. Diziam que nas noites de sexta-feira
ele ficava estranho, bebia até não poder mais e depois da meia-noite
uivava feito um lobo errante pela madrugada. Foi
no seu funeral que eu vi pela primeira vez aqueles olhos azuis
que marcariam minha vida para sempre. Ela devia ter a minha
idade, ou mais nova talvez, não sei precisar. Linda e misteriosa.
Pôs sua mão esquerda no meu ombro direito e me olhou declinando
ligeiramente o rosto, sorriu misteriosamente com certa ironia,
eu hoje suponho. A outra mão dedilhava um pingente, um coração
vermelho do tamanho de uma frutinha de pitanga, num cordão
de ouro em seu pescoço. Sua
fisionomia tomou um aspecto meio estranho, e seu olhar pareceu
hipnotizar-me. E se foi, saiu entre o mar de gente alta ali
no funeral. Há vinte anos atrás um fato estranho voltou a marcar
minha memória. Eu estava no centro da cidade, um calor infernal
e, ao tentar atravessar uma rua fui impedido pela multidão
que olhava um acidente. Havia um corpo no asfalto. Forcei passagem
para olhar e vi cérebro espalhado pelo chão; pedaços gelatinosos
cinzentos de massa encefálica na rua. Entre
a fatalidade e repugnância da cena outro evento sinistro se
revelou. Ao meu lado uma mulher loira de cabelos longos, muito
elegante, esbelta, tocou meu ombro direito com sua mão esquerda.
Assustei-me com o toque. Ao olhar sua face, fui tomado por
enorme espanto. Ela dedilhava um pingente, um coração, com
sua outra mão. Olhou-me profundamente, os olhos azuis irradiando
um brilho sinistro. O sorriso se abriu, como um coringa. Meu
coração acelerou, fiz menção de dizer algo, mas não conseguia
articular as palavras. Em segundos, ela se foi no meio da multidão. Fiquei
olhando-a partir, trajada num vestido longo, de um tecido grosso;
um incômodo num dia tórrido como aquele, pensei. Ela não olhou
para trás. Fiquei ali estático no meio do povo curioso pelo
anônimo morto no asfalto, na contingência mais estúpida da
vida dramatizando meu instante insólito. Eu devia ter meus
30 anos na época. Vivi
sempre solitário. Distante dos irmãos que constituíram suas
famílias. Meus pais morreram sem que eu tivesse próximo deles.
Não tive filhos que eu tenha assumido, outros assumiram a paternidade.
Gozei de vida muito boêmia e intensa. Preferi assim. Muita
mentira, muita traição, muito desgosto eu via em todos os lares.
Preferi o caminho da solidão e dos prazeres sem compromissos,
sem as neuroses que corroem as famílias. Mas tive paixões e
amores profundos. Ainda os tenho, aqui e ali, esporadicamente.
Em momentos mergulhados na memória sempre quis entender quais
simbolismos a vida, naqueles esquisitos encontros com aqueles
olhos azuis, me reservava. Na infância e depois anos mais tarde.
Mas, ainda haveria de ocorrer algo perturbador. Vou narrar
um acontecido. Aos
50 anos eu tive um infarto na rua. Fui atendido por transeuntes
e levado ao hospital. Perdi a noção dos dias
que lá passei até que obtive melhora e fui transferido para
a enfermaria geral. Fiz amizades com outros enfermos. Não recebi
visita de nenhum dos meus irmãos e apenas pude contar com os
carinhos de duas amantes que escapuliram de suas vidas de casadas
e vieram me visitar. Contudo, em uma semana tive outra forte
dor no peito e apaguei. Acordei,
soube depois, cerca de três
dias na UTI; meu prognóstico não era dos melhores. Minha hora
chegava. Eu até desejava que fosse logo, pois aquela maldita
dor no peito que me fez defecar era o que mais me humilhava.
Situação desprezível a que chega um ser humano. Numa
noite, uma médica entrou, conversou com as enfermeiras do plantão
na unidade, olhou algumas fichas numa prancheta e veio em minha
direção. O pavor invadiu-me ao tempo que senti um gosto amargo
na boca. A
médica, loira, o pingente de coração, o rosto comprido,
aqueles olhos azuis do passado, e o mesmo brilho penetrante
no olhar: era ela. Pôs a prancheta sobre meu ventre, sua mão
esquerda fria tocou-me o rosto e a outra deu início aquele
sinistro cacoete que dedilhava o pingente de coração. Sorriu
silenciosamente, como um coringa. Minha pele arrepiou-se. Durou
uma eternidade o meu olhar na laguna azul profunda dos olhos
dela. A mesma fisionomia da mulher de 20 anos atrás. Parecia
não ter envelhecido um ano. "Não pode ser, eu pensei, meu Deus,
não pode ser". Então, pela primeira vez ouvi sua voz, firme
e suave, rosto inclinado sobre mim, disse: -
Temos onze pacientes aqui e um hoje não viverá além da madrugada. Confesso:
penso ainda não ser a sua hora. - O que quer dizer com isso - balbuciei
atônito. -
Não precisa ser você, pode ser outro, basta me acenar
positivamente, não diga nada, apenas acene com sua face. Milhões
de pensamentos fustigaram minha mente naquele instante, mas
fui rápido como o trovão e acenei positivamente. Eu queria
viver, claro - quem não quer? -
Boa escolha. Adeus... Mas, um aviso: a vida é uma eterna troca, uma roda com mil olhos
que vislumbram todos os horizontes. - Disse isso e se foi,
após tirar a prancheta sobre mim, deixando-a nas mãos das enfermeiras. Pela
manhã despertei e fiquei sabendo que um paciente da UTI
havia falecido. Nos dias seguintes fui tendo rápida melhora
e em duas semanas obtive alta. Meus últimos exames, segundo
o cardiologista, estavam ótimos: segundo ele minha saúde era
como a de um touro. Depois
desse acontecimento tenho sonhado constantemente com ela. Os
olhos azuis fitando-me ao longe.
Seu espectro belo, parado numa esquina
sombria, vestida de branco, castigada pelos ventos frios da
madrugada, e o olhar
maligno assombrando minha alma. O sorriso
largo, como um coringa, me aguardando, não sei quando nem em qual momento futuro. |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 16 - Agosto de 2008 |