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Marília
Carreiro Fernandes
Vitória
/ ES
Vaivém
Ela olhou para ela.
Nesse instante o mundo percebeu algo diferente em torno das fumaças
e dos cafés.
Nos seus olhos o desejo e o medo se misturaram, a vontade de arriscar
foi nítida.
O receio, claro, era claro como o clarão da lua naquela noite
fria.
Entre seus dedos o cheiro do fogo; a sua volta, penumbra.
Os olhos fitavam-na, expunham sua sensualidade, viam-na nua e em
um segundo pareciam devorá-la, por inteira.
Era uma busca interminável de si só, de respostas
para suas dúvidas, uma outra espécie de bel-prazer.
Parou, acendeu outro cigarro e pensou quais os artifícios
usaria para decifrá-la. Quem sabe articular, soltar o grito
que estava preso a partir do momento em que se viu naquela situação
e assim, libertar-se-ia do peso sobre sua cabeça.
Ela tinha medo de ser dispensável e aquele momento ser ínfimo.
Queria impressionar e, com sensatez, dava tudo pra dar certo. Como
um dardo, lançava-se no centro do alvo, entregava-se com
força, agilidade e inteligência. Sabia tudo o que estava
fazendo, passo a passo, fria e calculadamente. Parecia até
chefe de algum grupo de estelionato, pois era racional em seus atos
e quem estava à sua volta não percebia sequer um gesto
além do normal.
Dentro de si havia uma mescla de covardia, necessidade, vontade,
fraqueza, pânico e uma cobiça que ajudava a não
deixar transparecer qualquer sentimento ao mesmo tempo em que tinha
as sensações mais profundas, de perder o fôlego
e fazer suspirar.
Perguntava-se se valeria ou não correr o risco.
Na verdade, queria mesmo é ficar ali, imóvel, contemplando
o momento, adorando aquela que até então estava intacta,
a mesma que tomava toda sua atenção desde que se olharam
pela primeira vez. Entretanto, não tinha mais tempo, precisava
imediatamente decidir o que queria. Talvez um sinal a mais fizesse
tudo se perder: suas fichas, seu rumo, sua vida.
Silêncio.
Tentou falar, a voz não saiu. Seu coração palpitava
rapidamente e parecia que estava a um pulo do externo. Suas mãos
tremiam desesperadas, querendo sair do lugar onde estavam para pegá-la
e nunca mais devolvê-la a ninguém.
Agora, não só as mãos, mas o corpo inteiro
estremeceu. Era a hora. Com uma das mãos foi em direção
a ela, no centro de tudo. Pensou duas vezes antes de tocá-la.
Como faria para não causar espanto, onde começaria,
o que diria se conseguisse. Insegura em relação ao
que poderia acontecer e sabendo que não lhe restava alternativa
sequer a não ser fazer o que sempre quis, esperava não
falhar.
Contou com o acaso.
Arriscou.
Conseguiu.
Sua expressão mudou. Finalmente poderia dizer que decifrou
o maior enigma que já viveu.
Foi tomada por uma euforia que fez com que não se importasse
com as pessoas que passavam por ali.
Depois desse momento, respirou fundo e abaixou carta por carta,
mostrando aquela última, que em meio a tantas outras era
única no baralho.
Única como aquela mesa, aquela hora e aquele jogo.
E ela, por sorte - ou não - comprou-a.
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