![]() |
| Antologia
on line |
Necessidade de rabiscos
"Nunca
fui nenhum tipo de herói, também não fiz parte
de organização ou movimento algum... As coisas foram
acontecendo naturalmente, seguindo uma espécie de fluxo criativo
que habitava silenciosamente meu corpo, e muitos outros. Passo a
passo, dia a dia, senti uma necessidade doida de escrever, como
de beber água, tomar banho, comer, vestir, calçar.
É tão orgânico quanto as minhas funcionalidades
habituais, escrever é tudo que gosto de fazer, que amo fazer!
Mas eu não sou igual aos outros, me recuso a escrever no
papel. Já escrevi muito em meus cadernos e fichários,
na escola, na faculdade, no trabalho, minha necessidade é
outra; Os Rabiscos! Meus incompreendidos e santificados rabiscos.
Quem foi o Asno que declarou que os desenhos e dizeres em banheiros
públicos não são obras de arte? Se cada letra
torta, cada hieróglifo moderno e frase filosófica
que de minhas mãos beijaram o concreto e a madeira, levaram
um pouco do meu coração! Mesmo
que eu quisesse, não poderia nem conseguiria narrar todas
as minhas obras de arte, são muitas, em lugares que nem lembro
ao certo, mas estão lá, pra quem quiser ver, é
só procurar. Num banheiro de rodoviária no interior
de São Paulo, comecei a divulgação do meu primeiro
rabisco de sucesso: “É aqui que todo covarde faz força
e todo valente se borra”. Logo os fãs aderiam e a frase
virou febre. Depois foi a musical; “Não cague cantando
que a merda sai dançando”. Quantos plágios Brasil
a fora, artistas reprimidos em busca do gozo ilegal. Logo os banheiros
já estavam tomados pelas obras: “Taninha sexo quente,
assando a lingüiça da gente”, “Se eu sou
ladrão a culpa e do tio Valmir”, “Quem não
tem fé tá ferrado”, “Mulher honesta só
minha mãe”, eram frases aleatórias, desenhos
diversos, mas comecei a encontrar nomes com telefones e indicações;
`` Ligue que te arraso de prazer”, “Tá a fim
de uma transa agora??”. Começou a perder o sentido.
Vinganças, chacotas, anúncios, já não
era arte. Abandonei os banheiros. Foi
durante uma viagem à Maceió que encontrei minha nova
tela de trabalho; os muros de um prostíbulo barato! Era fascinante,
o balé ofegante das celulites e perebas calientes na mesma
sacada. Minhas monalisas de 5,99 tão caras quanto a garrafa
de vinho que me acompanhava, musas inspiradoras que mereceram após
farta ceia carnal, uma de minhas frases mais celebres: “Não
existe mulher feia, você que bebeu pouco”. Os muros
eram meus agora. Todos eles. Hoje,
sou um setentão realizado, imortalizado e lembrado por todo
o Brasil. Em minha última investida, alcei ares de Profeta
Gentileza, ao escrever por todas as paredes vazias da Cidade do
Rio de Janeiro: “Só Jesus expulsa os Demônios
das pessoas” Mas cansei disso. Me sinto esgotado demais para
continuar viajando por aí sem rumo, vou me estabelecer em
algum outro País Sul-americano e pretendo saciar minhas necessidades
de Rabiscos, escrevendo vez ou outra, recadinhos muy amáveis
pelos muros do Mercosul. Dois já fazem enorme sucesso; “Yankes
go Home” e “ALCA ALCArajo”. |
| Volta Página Principal |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 15 - Julho de 2008 |