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Vicentônio
Regis do Nascimento Silva
Macaraí
/ SP
Sustos
Começa a tarefa de casa quando um amigo, subindo no muro
e sobre ele equilibrando-se, grita. Que tal irem ao rio?
Lembra-se do pai: se recebesse reclamações da escola...
Recusa o convite. Ao saber o motivo da preocupação,
o amigo compromete-se a solucionar os problemas de matemática.
Veste calção de banho, guarda o material escolar embaixo
do colchão, fecha a porta da cozinha cuidadosamente, mas
não se esquece de deixar a janela do quarto entreaberta:
precaução.
Coberto de lodo, o atalho ao rio leva invariavelmente os transeuntes
ao chão de modo que, os dois amigos acompanhados de cinco
parceiros, entram na água com os braços, os cotovelos,
as costas e as nádegas doloridas.
A algazarra, a gritaria e as brincadeiras dos meninos atiçam
os instintos de um cachorro. Aguarda o deslize da dona ao abrir
o portão para pegar algumas verduras de uma charrete. Em
pouco tempo, rasga a roupa depositada sobre algumas folhas grandes.
Os protestos aumentam a fúria canina. O cachorro atira-se
na água, movendo-se rapidamente. Três dos garotos alcançam
a margem contrária, sobem em árvores. Fazem caretas
e gargalham aos remanescentes que, faces assustadas, esforçam-se
no rio.
Pouco menos de dez braçadas antes de chegarem, um deles,
precisamente o último, desaparece. Todos salvos em galhos
altos, espantam-se quando o procuram.
- Esse maldito o engoliu, grita um.
- Ele deve ter morrido de medo, afirma outro.
-Ai, meu Deus! Geme o terceiro, o garoto convidado. Como explicar
ao pai a saída de casa sem sua ordem? Como responder às
perguntas sobre o sumiço do amigo? Quem fará as contas
de matemática para entregar na manhã seguinte?
O cachorro enfada-se, atravessa o rio e desaparece. Descem, chamam,
gritam, andam nas margens, revolvem matos e capins, perguntam a
alguns pescadores de um menino de calção vermelho.
Inconformados, rumam para casa. Prometem silêncio total. Caso
ninguém descubra o corpo, escapam da justiça.
À noite, enquanto pensa numa maneira de faltar à escola,
ajoelha-se para rezar pela alma do companheiro cujo corpo, pensa
comovidamente, ultrapassara os limites da cidade e se encontrava
vagando pelo oceano. Antes de concluir a reza, o pai entra no quarto,
acende a luz:
- O dever de casa está pronto?
Responderia que sim, mas ao abrir a boca vê o amigo desaparecido
coberto de lama, de folhas e de pequenos ferimentos. Grita. O pai
se assusta. A imagem desaparece. Essa alma quer reza, diz para si
mesmo. Veio me levar. Dribla as perguntas do pai. Não dorme.
Olha constantemente para a janela. Esperança sombria de vislumbrar
novamente o espírito. Por que não corria ao céu,
ao purgatório ou ao inferno? Por que o azucrinava?
Dia seguinte, a professora adverte. Nenhum esforço para resolver
as contas no fim de semana?
Os alunos indisciplinados recebem um comunicado que deverá
trazer assinatura do pai. O comunicado informa da falta de responsabilidade
do filho, da advertência que recebera, do registro de seu
nome no Livro Preto da escola e da necessidade inexorável
(de onde eles tiravam essas palavras?) do comparecimento do genitor
à unidade escolar em uma semana.
Chorava. Pela surra que levaria do pai. Pelo amigo que retornava
para levá-lo. A caminho de casa, não cumprimentou
a mãe do colega desaparecido. Sentia falta do filho? Por
que não telefonara para perguntar se ele estava em sua casa,
como sempre fazia? Por um instante pensou que ela estivesse numa
conspiração para prender os assassinos. Iria para
a cadeia.
Ao portão, frio na barriga, moleza nas pernas, batimento
acelerado no peito, respiração desaparecendo...
Entra em casa. No sofá, o espírito da noite anterior
sentado, sorrindo, tomando refrigerante. No quintal, o pai afia
um machado. Influenciado pelo espírito que procura arrastá-lo
ao outro mundo, destrinchá-lo-ia. Na sala, olha novamente
o amigo sentado, fita o machado...
- Oi.
Novo grito ecoa. O amigo bebia pausadamente o refrigerante.
- Vai embora espírito de treva. Vai embora...
- Pára de palhaçada. Que espírito de treva?
O cachorro aproximara-se. Inexplicavelmente encontrou um canudo
de mamão. Uma extremidade na superfície, outra embaixo
d'água, recobrara o fôlego e nadara discretamente até
um lugar seguro.
- Como estou feliz em saber que estás vivo!
- Eu estou vivo. Porém, devo avisar que teu pai encontrou
no chão o comunicado da escola que trazias na mão...
- Otávio!
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