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Jefferson
Quesado Neto
Fortaleza
/ CE
De
família
"Há gerações minha família é
atormentada pelos espíritos. Pelo menos é o que me
contavam meu pai e o pai dele. Uma maldição nossa,
exclusiva. Poucos de fora da família souberam disso, e não
há relatos de alguém que conseguisse viver mais de
um ano depois de ouvir nossas histórias.
Quando as distâncias eram grandes, o patriarca, o primeiro
homem de minha família, era um andarilho, fugindo de pessoas
que queriam sua cabeça. Ele tinha uma irmã gêmea,
mas foram separados muito jovens, quando ele falara ao seu pai que
vira espíritos malignos apossando-se da casa deles. Como
punição à "feitiçaria", o
patriarca de minha família fora expulso de casa. Não
sendo o suficiente, fora amaldiçoado pelo próprio
pai: ele deveria cair no esquecimento, assim como todos os seus
descendentes.
Guiado por espíritos, numa noite de tempestade pediu abrigo
aos moradores de uma casa. Lá, ele violou as regras da hospitalidade
e amou aquela que o aceitou em sua casa. A jovem, então,
tornou-se a matriarca de minha família. Depois de um tempo,
o patriarca fora executado; a jovem, sua irmã, teve seu filho,
e, no momento que a criança nasceu, sons de galope fizeram-se
presente. Apenas restaram a matriarca e seu filho: os outros moradores
apareceram mortos por golpes de espada ou patadas de cavalo.
Não estou inventando histórias: todas as vítimas
da maldição morreram desse mesmo modo e foram esquecidas
por todos, exceto pelas pessoas de minha família.
Escrevo esse texto no cemitério, lugar onde meu pai me levou
para fugir do som dos galopes. Aqui dentro, antes de meu pai me
dar o papel e a caneta, mostrou-me sua lápide: o nome, a
foto e as datas foram apagados.
Ouvi o galope sumir, então meu pai falou que eles desistiram,
por enquanto. Ele mentiu, pois sinto a gélida lâmina
de uma espada espectral tocar o meu pescoço, com o carinho
de um avô para com sua neta."
Texto encontrado sob um corpo feminino decapitado, por objeto cortante,
no cemitério, ao lado de uma lápide sem nome.
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