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João
Rodrigues Ferreira
Rio de
Janeiro / RJ
Sonhos
desfeitos
"Não há nada mais forte do que um pensamento
cujo momento chegou".
O sol
ainda nem raiara e Pedrinho já saltava da rede. Dispensou
a lamparina e tateou no escuro até a porta da cozinha - que
dava para o quintal - puxou a tramela da porta e olhou o céu
ainda estrelado. O Cruzeiro do Sul piscava suavemente enquanto a
estrela d'alva, cintilante, descia no nascente. A brisa soprou o
seu rosto com o doce aroma da cana-de-açúcar; a lembrança
da mãe veio com o sussurro do vento. O engenho era o pedacinho
de céu do qual sua mãe muito falava (e agora ele já
sabia) - a casa-grande, a moagem da cana, os meninos provando a
garapa, a cachaça sendo preparada...
Muitos anos se passaram. De menino, virou homem; precisava descobrir
o mundo assim como descobrira o engenho. Esse mundão de Deus
deve ser muito bonito, cheio de novidades e maravilhas como fora
a casa-grande quando criança: muito que explorar, aprender
e aproveitar. A cidade grande, a Capital que Zequinha Germano sempre
falava. O Sul... Sim, o Sul que o esperava, cheio de sonhos e fantasias.
O Sul que corre dinheiro farto, mulheres bonitas... mais bonitas
do que a negra Judite.
Uma estrela cadente correu no firmamento. Ele correu para o terreiro,
pegou um punhado de terra, amarrou na camisa e deu um nó
antes que a estrela caísse. Isso daria sorte. Fez um pedido.
De repente, a lembrança da mãe lhe trouxe saudades.
Dois fios de lágrimas lhe escorreram dos olhos. Mais uma
vez ia partir para o desconhecido, mais uma vez sem os conselhos
da mãe. Mas o Sul deve ser muito bom; sim, é; o filho
de um cortador de cana falou isso ano passado, quando veio a passeio.
Roupas e sapatos novos, gastando dinheiro, bebendo cerveja...
Alegrou-se novamente. Olhou o horizonte. O sol vinha raiando. As
galinhas já desciam do poleiro e os trabalhadores do engenho
já estavam chegando. A hora de viajar era chegada. A cabeça
rodou. A mãe caída ao chão, o médico,
as pessoas falando... Tio Joaquim chegou e esses pensamentos foram
embora. Sentiu um aperto no peito, quis chorar. Não há
nada mais forte do que um pensamento cujo momento chegou.
Mulheres passavam às gaitadas no caminho do açude.
O açude onde aprendera a nadar, a dar cangapés com
os primos, a passar as mãos - por debaixo da água
- nas pernas das cabrochas...
Despediu-se de tia Marina, do avô, dos primos e de mais algumas
pessoas que vieram ver sua partida. Amigos e parentes lhe desejavam
boa sorte. Recomendações foram feitas por todos.
A rodoviária. O ônibus que lhe trouxera para um novo
mundo que se abrira quando criança; o mesmo que lhe levará
para um mundo completamente diferente de tudo que vira antes. Uma
pontada de alegria lhe espetara o peito. A cidade grande. O Sul.
O gigante de aço soprava fumaça preta, e um apito
ensurdecedor anunciava a partida. Tio Joaquim acenava com seu chapéu
que ia ficando cada vez mais distante; as árvores corriam
apressadamente. Seus olhos pesaram e ele dormiu. Dormiu com o sonho
de quem busca o desconhecido, a aventura, a quimera.
Enfim, O Rio. Seus olhos buscam todos os lugares ao mesmo tempo.
Carros, ônibus, pessoas passando apressadamente, correndo,
gritando. Ninguém se cumprimentava, nem ao menos dava um
"bom-dia". Gente diferente, mal-educada! Meninos de rua
descalços, sem camisas, pedindo, furtando, correndo; meninos
com vidros na mão, cheirando alguma coisa. Maneiras diferentes
de brincar (ou de viver). Prédios enormes substituíam
as mangueiras, as bananeiras, o canavial. O aroma da cana-de-açúcar
fora trocado pelo cheiro de gases e fumaça que saiam dos
carros. Uma sensação de medo do desconhecido palpitou
no seu peito. Lembrou de casa.
Um amigo o esperava. Um abraço fraterno, enfim. Em sua nova
morada as novidades foram sendo contadas aos poucos. O engenho,
o açude, as meninas... O cansaço bateu, cochilou.
Sua rede fora trocada pela cama. Dormira mal. Logo começaria
seu novo trabalho; sua tão desejada vida nova o aguardava
com o novo nascer do sol, que não mais era anunciado pelo
canto dos passarinhos, mas pelo barulho de carros e pessoas; sol
este que não seria fácil de ver ao nascer, escondido
atrás dos prédios e construções.
O dia fora duro e puxado. Se tivesse estudado mais talvez pegasse
um trabalho melhor. "Estude, Pedrinho. Você não
há de querer ficar burro velho como seu tio Joaquim",
dizia tia Marina. A velha tinha razão. Onde estariam seus
sonhos e fantasias do Rio de Janeiro, as maravilhas do Sul que tanto
ouvira falar? Cadê o dinheiro farto, o sonho dourado?
Tudo era diferente. Os hábitos, a comida, a música...
Até sua fala era diferente! A alegria ia sumindo a passos
largos, sem olhar para trás.
Meses se passaram e continuava na mesma. A saudade batia a cada
fim de tarde e cada vez mais forte. Os banhos de açude, a
negra Judite, as histórias do Zequinha Germano... Quanta
saudade!
O Sul não era tão fácil. Por que tantos deixam
o Norte? A ilusão, a maldita ilusão de comprar felicidade!
Isso não se compra. Podemos ser felizes com nossos pequenos
sonhos sob o céu estrelado do engenho, nos braços
de uma negra Judite qualquer, respirando a brisa que traz o aroma
da cana-de-açúcar, ouvindo o canto dos galos-de-campina...
Era lá, no engenho, na casa-grande, que estava a felicidade;
nos campos, solto, vivo, alegre e livre feito o caipora fazendo
suas danações. Não carecia viver noutro lugar
para ser feliz. Triste ilusão! O ônibus haveria de
voltar. E ele haveria de voltar.
Adormeceu e sonhou. Tio Joaquim de braços abertos, as gaitadas
das mulheres no caminho do açude, os moleques dando cangapés,
a estrela d'alva no nascente, a negra Judite, seu pedacinho de céu...
Outra vez feliz.
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