| |
Lucio
Brasil Ramos Fernandes
Campinas
/ SP
Omg
e o fogo
Cansado e faminto, Omg andava arrastando a sua lança. Andara
quase o dia todo e não vira nenhum animal, nem mesmo um roedor,
e sua fome aumentava. Naquele dia pressentiu que não encontraria
caça, como não encontrara no anterior. Aquela nuvem
de fumaça no horizonte e o cheiro de árvores queimadas
eram maus presságios. Duas vezes o sol havia se levantado
desde que vira riscos brilhantes no céu e animais fugindo
e ouvira o barulho assustador.
Ao se perder da tribo, Omg vagara durante muitos sóis, até
encontrar a mulher com a criança, também perdidas.
A princípio ficara feliz pela companhia, apesar de não
ser da tribo, e o fato de ser mulher tinha vantagens. Mas havia
a criança, sempre querendo alguma coisa e se metendo em tudo.
Também precisava conseguir comida, peles e abrigo para três.
Quando estava sozinho não tinha esses problemas. Mas não
conseguia se livrar delas e estranhamente não tinha coragem
de matá-las. Mas a mulher tinha utilidade, aquecia-o nas
noites frias, limpava suas feridas e amarrava as peles nos seus
pés. Mas aborrecia com falatório e grunhidos incompreensíveis.
Um dia resolveu ir embora logo cedo. Achou que andando na direção
do sol encontraria a sua tribo, pois se lembrava vagamente de ter
se perdido quando viajavam com o sol no rosto. Aos primeiros raios
pôs-se a caminho, levando lança, faca de pedra e bolsa.
Caminhou muito tempo, com o sol na frente, e começou a sentir
fome e sede. Achou um pequeno animal, abateu-o, comeu e sentindo-se
cansado e sonolento, dormiu. Acordou sobressaltado, sentindo a premência
de continuar a jornada em direção ao sol. Seguiu adiante
e em alguns lugares, sentindo a paisagem familiar, concluiu que
seguia o caminho certo e logo encontraria a sua tribo. Andou horas
até que repentinamente se deparou com a mulher e a criança
diante da caverna. O choque foi tão grande que quase desmaiou.
Só depois de muito tempo conseguiu entender que esquecera
que enquanto dormia o sol havia passado para o outro lado, para
o lado em que se põe, e indo em sua direção
ele havia voltado sobre os próprios passos. Mas não
adiantava relembrar, tinha de continuar procurando caça.
Continuou caminhando e sentiu o cheiro conhecido de quando árvores
eram tomadas pela coisa amarela e vermelha, agitada, brilhante e
quente que atemorizava e também seduzia. Ao ultrapassar uma
colina viu muitos galhos e troncos queimados e cinzas, mas o fogo
só atingira uma parte da mata, pois havia poças de
água indicando que chuva forte apagara o incêndio.
Apesar do medo, começou a andar beirando a devastação
examinando tudo. Então viu alguma coisa que não era
árvore, também enegrecida, mas com forma de animal.
Chegando mais perto, reconheceu um pequeno gamo com uma perna quebrada
presa entre galhos. Com a ponta da lança cutucou o animal,
que continuou imóvel. Se houvesse carne ainda aproveitável
estaria salvo. Notou que o dorso do gamo estava enegrecido, mas
na frente ainda havia cor, apesar dos pelos queimados. Pegou a faca
de pedra e começou a cortar uma pata traseira, mas grunhiu
aborrecido porque a carne não era vermelha e sanguinolenta
como de hábito. Era escura e não desprendia sangue,
mas a simples visão da caça abatida e a faca cortando
carne fez sua boca salivar, o estômago se contorcer, o corpo
ansiar por alimento. Cheirou a carne e arregalou os olhos. Ela não
cheirava mal como esperava, ao contrário, era quase agradável.
Mordeu um pedaço e sentiu a consistência diferente,
mais macia, e o gosto não era ruim como pensara.
Comeu o pedaço cortado e mais outro e bebeu de uma poça
sentindose reconfortado e feliz, a ponto de resolver levar o restante
do animal para a caverna, para alimentar a mulher e a criança
e talvez sobrar um pouco mais. O sol já se punha e sentiu
a urgência de voltar para a caverna, além do frio que
à noite incomodava, fazendo lembrar de como eram quentes
as chamas de árvores queimando. Se pudesse ter um pouquinho
daquele calor por perto talvez as noites não fossem tão
frias. Mas além do temor natural do fogo, não sabia
como fazer isso. Tentando soltar a pata do gamo notou um fio de
fumaça saindo do emaranhado de galhos. Instintivamente recuou,
mas percebeu que não havia o que temer e também ficou
curioso. Afastou uns galhos e viu que um deles soltava a fumaça
e tinha uma brasa na ponta. Omg era inteligente, talvez o mais inteligente
da sua tribo ou da sua espécie, mas não sabia disso.
Mas usava sua inteligência instintivamente e num súbito
impulso pegou o galho com a brasa, procurou mais alguns gravetos
com brasas e juntou todos formando um maço que com a brisa
se acendeu como uma tocha. Assustou-se e deixou cair tudo, mas recolheu
resolvido a levar fogo para a caverna. Com o gamo sobre o ombro
e segurando os gravetos viu que o vento fazia a brasa aumentar e
brilhar até surgir a chama. Resoluto pôs-se a caminho.
Na caverna estavam todos felizes e satisfeitos. O calor aconchegante
do fogo e a noite começando a cobrir tudo induziam ao sono.
Olhando a fogueira, o pequeno e sonolento cérebro de Omg
desfilava imagens do que havia visto em relação ao
fogo. Relâmpagos temíveis no horizonte, chamas assustadoras
levantando-se contra o céu, animais fugindo apavorados, e
ele próprio temeroso e encolhido no fundo da caverna. Mas
agora havia um fogo calmo e fascinante aquecendo a sua gruta e trazendo
paz e uma sensação de aconchego. E havia a carne macia
e saborosa. Pela sua mente passavam rapidamente relâmpagos,
faíscas e fogo e mais alguma coisa que o perturbava. Lentamente
começou a formar a imagem das suas mãos tentando lascar
uma pedra. Lembrava-se de bater uma pedra contra a outra e das faíscas
que saltavam. De repente relacionou aquelas faíscas com os
raios que iluminavam o céu. Eram muito diferentes em tamanho,
mas eram parecidas. Duravam apenas um instante, eram brilhantes
e azuladas... e podiam produzir fogo! Subitamente, Omg soube que
nunca mais sentiria frio nas longas noites de inverno.
|
|
|