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Luciano
Machado Tomaz
Belo Horizonte
/ MG
A
solidão e a cidade
"Findava o dia, e a sombra, mansamente,
os seres aliviava cá na terra
das fadigas comuns..."
Dante, O inferno
Desfilam, à minha frente, as dores humanas. A finitude salta
aos olhos com a graça de uma bailarina triste... É
a hora da vida, que perde o futuro a cada instante. O pôr-do-sol
que se aproxima faz sangrar as mais doces almas com a crueldade
de um deus que tortura sob o véu do desespero. Olho ao redor
e vejo que perante a noite o mundo é covarde, não
há nada, nem ninguém que possa encarar a noite, sua
nudez é agressiva a qualquer existência, e ao pôr-do-sol
essa covardia se apresenta com uma nitidez ofuscante. Uma noite
é uma experiência de vida pulsante que abala a realidade
visível, a indiferença se torna impossível.
A consciência e a lucidez tão sólidas que todos
tinham enquanto o sol brilhava vai se dissipando e escurecendo com
o cair da noite, surge a incerteza do homem, travestida de alegria
e embriaguez. Aqui nos tornamos humanos.
Saí pela porta dos fundos para passar despercebido a qualquer
um (é sempre bom não chamar a atenção).
Tranqüilamente desci a rua que dava para a pracinha do bairro
como se caminhasse no jardim de algum mundo perdido no tempo. Ouvi
meu nome. Era um conhecido. Cumprimentei-o e continuei minha caminhada,
mesmo sem saber pra onde iria. Não existia um "onde",
só uma infinidade de rotas vãs que não chegariam
nunca a lugar algum. Pensei em voltar pra casa, mas não!
Havia acabado de anoitecer e eu precisava escapar do tédio,
mesmo que fosse para, em seguida, cair na melancolia. Àquela
hora, ninguém estava nas ruas, os bares estavam fechados,
ainda era cedo, a cidade pertencia a mim. Eu reinava absoluto sobre
aquele amontoado de "nadas" e me sentia também
parte daquele gigantesco "nada" que se assemelhava a uma
espécie de refúgio para quem já não
tem nada a perder. Um amontoado de seres que juntos eram nada.
Só é possível existir sozinho. Era nesse refúgio
que eu me perdia e me sentia ameaçado. Havia chegado agora
a uma grande avenida onde encontrei algumas pessoas tão perdidas
e ameaçadas quanto eu. Uma garota, bonita até, olhou
nos meus olhos quando passei, tinha um rosto triste e um olhar de
quem ainda não se deu conta de que pode enxergar. Passei
por ela, assim, sem dedicar-lhe maior atenção. Era
finalmente o existir. Sentia-me impressionantemente feliz. A alegria
de quem se sentia livre e a angústia da consciência
do limite, eram as causas da singular felicidade que sentia.
Perdia-me em devaneios sob os olhos ocultos da realidade, amava
aquele mundo que parecia tão pouco meu, tão distante
de minha compreensão. Sentia-me como alguém que perdeu
todos os sentidos, que não podia reconhecer nada, mas que
ainda era capaz de amar... amar desesperadamente a solidão,
amar o próprio desespero de estar só. Solidão...
uma palavra com um gosto amargo que está sempre na boca de
todos, pronta para ser pronunciada e se espalhar como uma peste
noite adentro. Mas não a pronunciam; embriagam-se para escapar
dela, encontram outras pessoas para esquecê-la, ou simplesmente
se matam. No entanto, toda fuga é inútil e tudo o
que se consegue é perder, visceralmente, a dignidade.
Cheguei a um cruzamento e parei para esperar que o sinal abrisse,
enquanto isso, percebi que a noite já reinava soberana sobre
a cidade, e desta só restavam escombros. Ninguém mais
se reconhecia, eram todos estrangeiros, que só não
se matavam por um estranho senso mútuo de cumplicidade e
dependência. Por que? Como é possível que vivam
assim, os homens? Será que só eu tinha a consciência
de que todos se odiavam e queriam acabar com o primeiro que cruzasse
seus olhares? A cidade parece ter um mecanismo invisível
que impede tal coisa, o império de um imperador que não
existe, um império que se sustenta sobre o vazio e que não
tem razão de existir, mas, nem por isso se entrega a própria
ruína. Era nessa impressão de real que eu estava me
afogando, me consumindo como se tragasse um cigarro ... era a lei
da noite, e eu não podia fazer nada que não resultasse
vão. Os olhos do eterno suprimiam toda coragem e toda nobreza,
o porvir era tudo e o presente se perdia como algo inatingível.
Angustiado, olhei para o nada e decidi rir...
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