| |
Cláudio
de Almeida
São
Paulo / SP
O
milagre da couve mineira
Passava das duas da madrugada e Zé das Couves ainda não
pregara os olhos. Virava e revirava na rede que lhe servia de cama.
O motivo da insônia, não era com certeza o leito, pois
há anos se habituara a dormir, descansar, fazer as refeições,
meditar, e até fazer os filhos na rede. Bem trançada
e reforçada, acomodava bem o casal e até os filhos
pequenos. Não, o assunto que desandava o pensar de Zé
das Couves era bem outro.
Naquela manhã, agarrara a pensar no desrespeito que lhe tinham
em toda cidade.
Vilarejo do interior de Minas onde todos são parentes, compadres,
amigos ou inimigos, enfim, todos se conhecem.
- Onde já se viu! Na minha idade tanta falta de consideração,
falta de respeito mesmo. Isso não fica assim...Ora... Esses
porqueiras... Hão de ver!
Tanta indignação tinha uma causa. Zé das Couves
que na pia batismal recebera o pomposo nome de José Emanuel
Floriano da Costa e Silva, herdara a alcunha de Zé das Couves,
pois seu pai havia sustentado toda a família, plantando e
vendendo a tão apreciada hortaliça.
Vivera bem, sem nunca ter se importado com o apelido, mas de uns
tempos para cá, implicava com a maneira com que lhe chamavam.
- José Emanuel... É esse o nome que minha finada mãe
escolheu e Deus abençoou na hora de meu batismo. Onde se
viu... Zé das Couves... Tenho nome... José Emanuel...
José Emanuel!
Tanta implicância era justificável. A idade já
ia avançada. Ele sabia que faltava pouco a viver. Não
queria passar à eternidade como Zé das Couves, por
isso a cisma que o aporrinhava tanto.
E tanto ralhou que os parentes, os conhecidos já não
ousavam chamá-lo como antes e se isso acontecia, por puro
hábito, o infrator desmanchava-se em desculpas.
Tempo ao tempo, tudo ia se assentando, ninguém mais se importava
com o incômodo demonstrado por Zé das Cou... Oh, perdão,
pelo Senhor José Emanuel, com o antigo perrengue que por
bom tempo enriqueceu o folclore do vilarejo, alimentando as conversas
nos botequins e na porta da igreja, o que irritava profundamente
o Santo Padre e aguçava sobremaneira a tagarelice do Sacristão.
Manhã de sexta-feira. Dia chuvoso céu carrancudo,
vento gelado daqueles típicos da Serra da Mantiqueira que
se espalha pelos campos das Gerais. José Emanuel caíra
doente, doença de velhice, triste e sem volta. No mesmo dia,
finzinho de tarde, o velho senhor partira para sempre, morrera como
um passarinho, diziam alguns, outros achavam que tinha ido tarde.
Poucos prantearam seu corpo, mas os que o fizeram foram sinceros
no pranto e na tristeza.
Por volta de três da tarde de sábado, o defunto já
baixara a terra e só Seu Geraldo, coveiro antigo, ajeitava
a sepultura com esmerado respeito.
A vida corria morosa e dolente como só é possível
no interior da Canastra, entre o murmúrio do rio que beirava
o vilarejo e o latir do vira-lata perseguindo o leiteiro que, de
bicicleta, atendia a parca freguesia.
A monotonia foi subitamente interrompida. Geraldo, o coveiro, em
desabalada carreira, branco como os lençóis das lavadeiras,
que quaravam ao sol, entrou pela porta da sacristia chamando pelo
Senhor Vigário.
- Deus seja louvado! Venha Seu Padre, no cemitério, corra,
venha ver, traga o terço que o caso é sério.
O vigário sem muito entender buscava acalmar o espavorido
coveiro acompanhando-o rumo ao campo santo, atrás vinha um
séqüito que superava em muito o cortejo que dias antes
levara José Emanuel à última morada.
De fronte à sepultura ainda fresca, todos ficaram boquiabertos.
Sobre a tumba vicejava forte e esplendoroso qual guardião
impoluto, um magnífico pé de couve. De suas folhas
verde esmeralda, as gotas de orvalho rolavam como lágrimas
prateadas chorando o amigo que partira.
|
|
|