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Bruno Resende Ramos
Teixeiras / MG

O templo das três caveiras


Sempre demorava para dormir, por isso assistia às séries de TV para esperar a chegada do sono. Como uma entidade benfazeja, uma aura de luz inspirava-me recostar nas dobras da coberta e deitar a cabeça no travesseiro. No último dia 13 de junho, estava terminado o capítulo do livro "Contos das Almas". Sob aquela ótica intimista e surreal, depois de assistir a um filme de suspense e mistério, as pálpebras cederam ao avançar das cenas do filme. O filme da TV mostrava dois personagens em busca de um tesouro antiqüíssimo alojado em pirâmides egípcias. Quando andavam pelo deserto em meio a uma tempestade de areia as cenas ganhavam um realce novo e, na fronteira do real ali posto na série televisiva com meus sonhos, surgiu um novo personagem. E lá estava eu sentindo com toda sinestesia o alvoroço das areias e o calor insuportável daquele ambiente inóspito. Sim, os gritos da mocinha iam perdidos no invisível e temi olhar para qualquer lado, buscando somente o chão que crescia engolindo os meus pés. O protagonista sumiria junto com sua companheira e eu acordaria com apenas a cabeça e os braços sobre a areia. Felizmente pude com as mãos e braços livres desterrar o corpo e buscar a sombra de um arbusto mais próximo. Ali uma medalha com um símbolo que sugeria misticidade. Dependurado nos galhos, a relíquia era como um mapa e sinalizava três caveiras ao fim de cada caminho. Sabia que partiria dali seguindo algum rumo e optei pela caveira que esboçava sorriso, já que cada uma insinuava um estado de espírito.
Coincidentemente achava a cada instante um obelisco que confirmava que estavam certos os meus passos e as areias iam ficando para trás. Uma cidade após a colina mostrava o retrato do abandono. Desci cautelosamente até o que seria um templo e, entrando pelo pórtico central observei ser o da caveira que esboçava alegria. Para desvendar o enigma deveria abrir um arcabouço posto abaixo do altar de cerimônias. Sabia que se tratava de algo semelhante aos templos cristãos, só temia que, como tal, houvesse algo tão sagrado que detivesse em armadilhas os meus passos. Quando abri a arca percebi o faiscar de algo brilhante. Como já dizia o ditado, "muita esmola, o santo desconfia", por isso não meti as mãos de imediato nas jóias e raridades do baú, logo vendo tudo se transformar em mãos decepadas, como a insinuar que os que cedessem as tentações de obter a qualquer custo aquelas preciosidades teriam o mesmo fim. Assustado voltei-me num impulso para trás e percebi que as escadarias em que apoiava meus joelhos haviam inúmeras frestas donde emanava certo calor. Olhei para baixo e vi uma paisagem infernal. Lá, por baixo de toda aquela ostentação, monges, bispos, sacerdotes queimavam em chamas que, a qualquer custo, não deixavam de inflamar-lhes o corpo.
Para sair teria de confrontar com a caveira do pranto, e passar sobre o assoalho em mármore. Temi encontrar qualquer efeito nocivo a minha vida e tentei desviar-me passando por detrás do altar. Nada por ali além de uma gaveta incrustada no altar que mesmo não desejando abri-la, quando detive meus olhos nela, ouvi o brado da porta de entrada... Eram os dois artistas da tv:
-- Pare! Não dê um único passo! Isso nos pertence! Não pense que um intruso como você possa tirar-nos o maior bem de toda essa narrativa, pois o fim só poderia se dar quando eu e minha amada chegássemos diante deste artefato e esse nos abrisse as portas do sucesso, com mais de milhão em bilheterias e toda a fama pela qual nos tornaremos lembrados pela eternidade. Saia já daí seu estranho!
Imobilizado pela aspereza das palavras do artista pelo qual havia sido um dos fãs, guardei minha mágoa e afastei-me do altar, vendo-os ocupar o lugar que tinham direito. Aliás, quem era eu naquela história, senão um intruso mesmo? Que estaria fazendo ali que não fosse a eterna fuga de minhas noites de insônia?
Pois bem, quando abriram a gaveta e pegaram o obelisco de ouro, subitamente, via-os desnudos, e em seguida abraçando-se, pensei no amor de ambos representando mais um ato de glória cinematográfica, entretanto não, não era isso! Abraçavam-se pelo rigor do frio que passaram a sentir. Nus, agora mais pálidos, olhavam-me em estado de pavor, imóveis, sem ter com ajudá-los... Eram meus heróis favoritos e nada podia fazer por eles. Os pés ficavam aos poucos azuis e os corpos como estátuas de gelo. Uma imensa luz saiu do obelisco que os fez estilhaçarem-se em milhares de fragmentos. Fiquei pasmo, abatido.
Quando via a impossibilidade de sair daquele universo infernal. Pensei: "melhor voltar às areias".
Ao sair do templo, olhei a última caveira; não tentaria ocultar minha alegria em sentir-me totalmente despojado do desejo de conhecer o mistério que escondia. Era a menos expressiva como também- acredito- a monótona vida que levava. Despido de qualquer curiosidade, acendi-me em risos e gargalhei, rindo do que reservaria ao idiota que afoito quisesse desvendar-lhe o enigma. Assim, corri em disparada no sentido do deserto ausente de efeitos especiais e qualquer outra coisa, minha ambição era o nada, a vida, o simples repousar nas dunas da inexistência. E foi este o meu grande trunfo.
Na manhã seguinte, despertando diante da tv que estava programada para desligar-se automaticamente, senti ao colo certo peso. O amigo leitor já deve ter se acostumado a minhas insanas ponderações, mas creia-me por esta vez apenas e não me negue o direito de revelar-lhe a riqueza de minhas suposições antes que eu dê entrada a um manicômio, pois o que lhes digo é verdade. Sim, o crânio dourado estava sobre o meu colo... O que lá fazia? Sei que é o que me indagas. Direi, pois, o que ela revelou-me e que me trouxe de volta os dias de bom sono e sonhos benéficos. Inscrita em seu crânio os dizeres. "Poucos são os que retornam à vida em seu templo, porque não viveram durante a existência a sua forma verdadeira; mortos já estavam. A morte, no entanto, te retornará em presente as riquezas das quais despojastes em sua buscas essenciais."
E o que me pergunto e espero-lhes em honesta resposta que me digam é:
-Estarei eu vivo?

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 15 - Julho de 2008