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José Faria Nunes
Caçu / GO

A cadela Pretinha e as porquinhas-da-índia


O ônibus a rodar pelo asfalto das lonjuras do Extremo Sudoeste de Goiás. No bagageiro, entre malas, fardos e objetos vários, caixas com gaiolas com peixinhos exóticos, hamsters e porquinhos da Índia, mercadoria para converter-se em dinheiro para saciar a sanha do traficante, camelô de vidas indefesas.
No interior do ônibus de ar climatizado, indiferente às condições insalubres do bagageiro em que padecem os animaizinhos, cochila recostado na confortável poltrona o homem que espera amealhar o bolso com a grana advinda do comércio de pequenos animais exóticos.
Nas paradas do ônibus em uma ou outra rodoviária um lanche, salgados, suco, água gelada. Nas caixas com gaiolas no bagageiro as pequenas criaturas sofrem as agruras do ambiente fechado e quente. Muito quente. Exageradamente quente. Nenhum alimento.
Após a travessia do rio Claro e do córrego Água Fria, a rodoviária da cidade de Caçu. Destino final.
O desembarque de passageiros e, entre as bagagens, também o desembarque das caixas com as gaiolas repletas dos pequenos animais, regalo para o deleite de colecionadores de animais exóticos e abastecimento dos bolsos do traficante.
Uma caixa, outra caixa, aberta uma após outra e, entre hamsters e porquinhos da índia, diversas baixas, sem nenhuma comoção ou surpresa de seu proprietário. Nem todos sobrevivem às intempéries da viagem.
A frieza do mercador separa dos vivos os mortos, acondiciona-os em sacos plásticos e os deposita na lixeira como casca de frutas e papeis amassados de embrulhos de produtos compros na lanchonete da rodoviária. Os sobrevivos, acondicionados em pequenas gaiolas, seguem para exposição e venda na praça.
Nas passarelas da praça, em frente ao Banco do Brasil que fica do outro lado, pés caminham, vão e vêm. Adultos, jovens, crianças. Alguns nem olham, passam, indiferentes. Na mente apenas os problemas que os movem, emoções positivas de uns, marcas de sofrimento e angústia na face de outros. Uns param, curiosos, outros passam alheios ao quadro ali exposto, vidas à espera de quem as compre. Alguns vão para casas de pessoas humanas, outros são adquiridos por pessoas de caráter duvidoso, talvez até cruéis. Alguns querem os animaizinhos como promessa mercantilista, fonte de lucros, isento de sensibilidade ou compromisso com a vida.
Entre os curiosos Katy encanta-se com o espetáculo dos pequenos roedores exóticos. Os hamsters, atletas, a exibir acrobacias nas rodas dentro da gaiola. Outra gaiola exibe porquinhos da índia, tímidos que se amontoam para fugir dos curiosos que insistem a incomodá-los.
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Em casa a pequena Katy empenha-se com argumentos a convencer os pais a concordarem com a aquisição de alguns dos pequenos animais à venda pelo camelô na praça. "São tão bonitinhos. Como eu queria um casalzinho daqueles!" Os pais ressaltam a responsabilidade em cuidar dos bichinhos, que podem interferir na rotina da família que já cuida de um casal de poodles. A insistência e o apego da garota amolece os corações dos pais que permitem a vinda dos bichinhos, desde que sejam devidamente cuidados.
Resistência vencida, Katy corre em busca da preciosidade. A família recebe um casal de jovens porquinhos, mimos da pequena Katy, cujo encantamento arrefece à medida em que a novidade torna lugar comum. E os mimos diminuem assim como os cuidados também, que passam para o pai, professor aposentado, que já cuida dos poodles, animais de estimação das duas filhas.
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Vez ou outra os dois animaizinhos são soltos na garagem, por onde correm, vasculham todos os cantos e recônditos, com preferência entre os vasos de plantas. Movimentos sincronizados como os do instrumental de uma orquestra. Dinamismo, vida e graça a conquistar a afeição da família.
A recomendação de necessidade de banhos de sol diários é seguida quase religiosamente, até o dia em que a rotina é rompida. Por distração ou esquecimento a gaiola fia por mais tempo ao sol que o costume e o conveniente. A excessiva exposição ao sol agride os pequeninos e a insolação recomenda os cuidados especiais do veterinário para o machinho, que não resiste. Vem a óbito e ganha enterro no quintal.
A companheira perde o par, fica a sós. E o professor fica com peso na consciência pelo descuido com o pobre animalzinho, frágil, indefeso.
Penalizada com a solidão da porquinha, Kety volta à praça em busca de novo companheiro para a porquinha que recebeu o nome de Stela, querendo significar estrela. "E se não houver mais nenhum porquinho?" A angústia da dúvida da menina exaure-se com a constatação de que ainda resta na banca do camelô um casal de porquinhos. "Ufa!" Respira aliviada a menina, que os compra sem questionar o preço, como antes costumava fazer, a exemplo dos pais.
Em casa eis que outro problema surge: as duas porquinhas não se entendem e precisam ser revezadas da companhia do macho, que fica ora com uma na gaiola, ora com a outra. Vez por outra ele é solto no cercado improvisado no canto do muro, em revezamento com as porquinhas, para que não padeçam no pequeno espaço das pequenas gaiolas. Isso até que gaiolas maiores sejam adquiridas para maior conforto dos pequenos roedores.
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Em pouco tempo a população de porquinhos cresce graças a ímpar fertilidade dos roedores. São removidos para o pátio do escritório do professor e novas gaiolas são adquiridas. No escritório um espaço maior é preparado para os banhos de sol dos pequenos animais, cuja proliferação começa a pesar no orçamento dado o elevado consumo de ração. O fato motiva a doação de parte dos animais, permanecendo um casal, a fêmea prenhe.
A irreverência do machinho leva-o a constantes fugas do cercado e, em uma delas, torna-se vítima do instinto-caçador do poodle que, de um salto, o sobressalto e a morte do pequeno roedor, também enterrado no quintal do escritório, ante o pesar da menina e do professor.
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Nascida a ninhada os filhotes, tão logo passam a se alimentar com ração, são doados assim como os demais membros da família. Menos uma porquinha que fica para amadrinhar-se com a mãe Stela, a matrona de todo o grupo, a primeira a ser adquirida no advento dessa história.
Entendimento quase simbiótico entre o professor e as duas porquinhas. A mãe e a filha que chega à maturidade manifestam-se com grunhidos a cada rangido de porta quando da aproximação do professor. De forma especial Stela, a mãe, que se levanta com as patinhas para o ar como se saudando seu benfeitor, que vem trazer-lhes ração, cascas de banana, folhas de repolho, couve ou folhas de bananeiras. E os dias a passarem, semanas a passarem, meses e anos a passarem.
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A rotina no escritório experimenta mudança com a chegada de novos inquilinos: a cadela pretinha com cinco filhotes recém nascidos e prestes a serem abandonados na rua.
Soltos no quintal cadela e filhotes, as duas porquinhas perdem a liberdade de passearem livremente pela grama verdinha, pasto predileto das pequenas roedoras. Ainda assim não lhes faltaram cuidado e atenção. O chiqueirinho, protegido com a esperança de inviolabilidade. E os dias passam, passam-se semanas.
Ao abrir como de outras vezes a porta o professor estranha a ausência dos grunhidos das porquinhas. Na porta do chiqueirinho, a denúncia: arrombamento. Acelera-lhe o coração ante o inusitado pensamento: morte?
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A revelação. Pelos, fezes e marcas de sangue espalhados pelo chiqueirinho atestam a carnificina. Nem ossos sobraram. Arredia, como se a se desculpar pelo ocorrido, Pretinha foge em direção ao portão que dá para a rua.
Das duas porquinhas da índia apenas lembranças e o grunhido que insiste em não sair dos ouvidos do professor.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 15 - Julho de 2008