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Ricardo Santos
São Paulo / SP

Homem vende sua alma


Aos 25, Jonas vive na jogatina. Não gosta de trabalhar. Pegar no pesado. Levantar cedo, nem pensar. É um sujeito esperto, cobiçado pelas mulheres. Bem apessoado. Enfim, sua vida é airada, ou seja, gira em torno das cartas e da noite. O dia é para dormir e descansar, diz.
Eram 23h30. O Imperador estava lotado. Freqüentador assíduo do cassino, sua mesa ficava bem no centro. No lugar de sempre. O jogo corria animado. Até o momento, tudo dava certo. Ganhou uma bolada. Sua noite de sorte. Preparava-se para ir para casa, quando de repente surgiu uma apostadora ávida para gastar.
A desconhecida fez-lhe uma proposta tentadora. Os seus R$ 35 mil contra os R$ 50 mil dela. Rodada única. Confiante, aceitou. A ganância desmedida pelo dinheiro era maior que o bom-senso. Além disso, à noite prometia muita adrenalina e diversão. O contrato verbal foi estabelecido na presença de um mediador. Ficou acertado entre as partes que ao término da jogada, o perdedor efetuaria o pagamento em até 24h.
Uma coisa o intrigava. Não conseguia identificar quem era aquele rosto oculto. Não imaginava que fosse Beatriz. Mulher inteligente, de fino trato, dona de olhos azuis e um corpo esbelto modelado pela natureza. Um furacão de beleza rara...
O jogo teve início. Cada apostador recebeu nove cartas. Quem tirasse as maiores ficava com tudo. Até a quinta carta tudo ia bem. \'\'Estava no papo\'\', pensou. A partir da sexta, tudo mudou. No final, perdeu. Meio atordoado e inconformado, não lhe restava senão quitar sua dívida. Não se deu por vencido. Num ímpeto de cólera, pediu revanche. Ela aceitou.
Alucinado, Jonas imaginava que poderia vencer e reaver a sua perda. Um novo acordo foi firmado. Seu carro valia R$ 35 mil. Caso sofresse nova derrota, além do carro, teria de trabalhar por 10 longos anos sem direito a salário. Por sua vez, ela lhe daria os R$ 85 mil. Quem é do ramo, sabe que não se descumpre um acerto de jogatina... Havia calculado todos os riscos. Naquele momento, via-se claramente que Jonas não estava sóbrio.
O mesmo jogo. Jonas estava visivelmente perturbado e cansado. Sua última chance de recuperar tudo. Se perdesse, venderia sua alma à diaba. Com a última carta veio o golpe decisivo. Era o seu fim. Impossível retroceder. Não havia outra saída. Recebeu um envelope com todas as instruções para comparecer, na terça-feira, às 20h, no Lago Sul, bairro nobre da cidade.
Chegou no horário. Foi recebido por um mordomo, que lhe deu um documento. Pediu que o lesse e assinasse. A partir daquele dia ali seria sua nova moradia. Foi conduzido ao seu aposento. Nos fundos da casa. Um quarto pequeno e confortável. Pela manhã, alguém bateu a sua porta. Recebeu roupas novas, de empregado. Após o café, foi conduzido ao jardim. Dia-a-dia deveria limpá-lo e cuidar dos cães da casa.
Durante quatro meses, essa foi sua rotina. O orgulho o abandonou. Sentia-se coisificado a ponto de não se reconhecer como um homem. Vivia em conflito consigo mesmo, pois não era livre. Preso a sua palavra, não havia para quem reclamar! Resignado, decidiu cumprir o acerto. Embora tivesse vontade de fugir.
Nesse período, o jovem não bebia, não jogava, não saía de casa e nada de mulheres. Pausa apenas aos domingos, quando foi avisado da sua nova tarefa. Não imaginava o quê. À tarde foi comunicado que ia trabalhar na casa grande. Servir as visitas e manter a cozinha e os banheiros limpos. Foi orientado para não se dirigir às visitas. Após meses de trabalho duro, Jonas estava diferente. Não dormia tarde como em outros tempos. Seus hábitos mudaram.
Porém, uma coisa o inculcava muito, o que mais poderia lhe acontecer? O domingo ainda reservava muitas surpresas. Não fazia idéia... Beatriz o aguardava no salão. Estava diferente. Madura e mais bela. Tremeu! Ficou empapado de suor e sentiu um frio imenso na barriga. Perdeu a voz. O coração saltou em suas mãos.
Cumprimentaram-se. Jonas não conseguia falar. Calma, ela revelou sua história. Lembrou-lhe de quando a deixou no altar, das sessões de terapia que teve de fazer e o alfinetou da sua condição de homem submisso a ela. Jonas perdeu os sentidos devido à insuficiência de irrigação sanguínea no encéfalo e tombou como uma rocha. O pobre coitado teve uma síncope! Ela o socorreu. Foram os únicos minutos de pura meiguice e zelo ardente que havia recebido desde então. Restabelecido, tudo voltou ao habitual. Um frio glacial congelou a sala. Beatriz voltou a ser uma mulher fria, inacessível e protocolar. Um a um, dirigiram-se aos seus aposentos emudecidos como se estivessem em clausura.
Ao acordar, a mesma rotina. Pós-almoço: papearam novamente. Ela propôs que se casassem. Deu-lhe 24h para responder. Não cochilou. Na cama, remexia desordenadamente e quase foi ao chão. Teve dores de cabeça. A noite foi em claro. Febre e calafrios. A ponto de bater os dentes. Foi um verdadeiro calvário. Finalmente, às 4h, conseguiu adormecer vencido pelo afadigamento.
Pela manhã, ela foi ao jardim e perguntou-lhe de sua decisão. Ele respondeu meio azedo e aceitou a sua proposta. Dentro de um mês cassaram-se. Nada mudou. Dormir apenas quando seus convidados fossem embora. Antes, tinha que deixar em ordem: os banheiros e a cozinha. Geralmente, ia deitar lá pelas 2h da manhã. Nem na folga, não podia ausentar da mansão. A casa era um quartel militar. Impossível fugir. Câmeras de segurança por todos os lados. Às vezes tinha devaneios, imaginava-se feito pássaro livre que voa rumo ao desconhecido.
Arrependeu-se de viver no jogo. Perdeu tudo: liberdade, dignidade e sonhos. Por vezes, seus amigos mais próximos alertaram-no dos perigos que corria. Como um tolo, não os ouviu! Para piorar as coisas: o matrimônio tornou-o mais triste e solitário! Entre eles inexistia intimidade da vida a dois. Ele dormia no chão. No convívio social, alguém jamais imaginaria o que se passava ali. Eram tristes como cães sem donos...
Cansado de tanto sofrer, pediu a Xangô que o libertasse de seu destino cruel. Aos pés da esposa, abriu sua alma. Suplicou perdão. Agradeceu pelo castigo que recebeu. Em prantos, pediu que o deixasse partir. Gostaria de ter uma nova vida. Ser honesto, trabalhador e responsável. Não queria saber de jogo, nunca mais.
Durante cinco anos trabalhou sem receber um tostão. Sentia-se cansado, sufocado e Infeliz. Não tinha motivos para viver. Seu desabafo desesperado tocou-a fundo. A mulher sem coração deu lugar a generosidade e nobreza de alma. Percebeu o novo homem. Choraram e soluçaram convulsivamente. Surgiu um amor verdadeiro e grande entre eles.
Entenderam, finalmente, que na vida a gente tem que dançar a nossa dança e cantar o nosso canto. Afinal, a cada dia surge uma nova oportunidade de recomeçar, como diz um grande poeta. Dessa forma, consumou-se uma relação a princípio caótica, terminou por amadurecer e se tornou sincera, desinteressada e isenta de afeições terrenas. Lá fora, sob o teto da madrugada, intensamente a Lua brilha para João e Maria. A energia deles pulsa em uma nova vida. Não eram estranhos em mundos paralelos. A magia do amor pôs fim à vingança e ao ódio.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 15 - Julho de 2008