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Juan
Filipe Stacul
Colatina
/ ES
O
uivo
Apenas os mortos suspiravam naquela fria e silenciosa noite de novembro.
Os dois farejaram-se, como dois cães, e instintivamente um
percebeu que jamais conseguiria viver sem outro. Dois dias foram
necessários para que os deuses acorrentassem seus destinos
de forma que força nenhuma no Universo fosse capaz de separá-los.
Nem se viram, tampouco se tocaram, mas já eram um só.
- Qual é mesmo teu nome?
Fitaram-se. Ele não sabia se queria responder, nomes não
importam. Alguns silenciosos longos segundos se passaram até
o murmúrio sufocado:
- Eu te amo!
Ele sorriu.
- Mas nem nos conhecemos?
Não disseram nada, não pensaram em nada, deixaram
de viver nesse mundo por algum tempo. Uma lua fina e excessivamente
pálida tentava iluminar a noite negra, as estrelas estavam
semi-mortas, sem brilho. Um uivo suave era audível a quilômetros
dali, atravessando o silêncio da noite.
- Não é necessário...
E aproximou-se, receoso, como um bicho do mato desconfiado e tímido.
Levantou as mãos pálidas de dedos finos e gélidos
e tocou-lhe o rosto. A intensidade do desejo transbordando-lhes
a alma.
Seus lábios finos e rosados tocaram o outro, seus corpos
unindo-se através de uma magia incomensurável, abrasadora,
assassina. Não havia mais mundo, nem deuses ou seres, só
os dois animais selvagens e nus banhados pela brisa gélida
de novembro.
E não surgiram palavras, não foram necessárias
as explicações ou cobranças, não houve
som algum entre os dois que não fosse o suspiro suave do
amor jorrando na imensidão silenciosa do tempo.
Não houve crescer ou morrer, amor ou ódio. O único
vestígio de vida em todo o Universo foi o som distante dos
uivos dos lobos. Em algum lugar, fogueiras estalavam e ciganos dançavam,
pessoas nasciam e morriam, templos e séculos vinham e sucumbiam.
Mas ali, naquele instante, só havia o silencioso e tímido
amor, emanando das profundezas obscuras da alma humana e fazendo
as flores nascerem mansamente em territórios desérticos
e inexplorados.
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