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Glória Brandão
Itabuna / BA

O primeiro beijo de Maria Vitória


Sempre gostei de espelhos. Diante do espelho olho nos meus olhos, faço-me perguntas e respondo aos meus questionamentos. Assim, vendo-me frente a frente percebo que cresci bastante. Relembro alguns acontecimentos e parece que foi ontem, outros estão tão distantes, restando fragmentos adormecidos na minha memória. Eu sou Maria Vitória, meu pai é o Victor, minha mãe é a Cecília, minha avó é a Sofia e o meu avô era o Rafael. Meu avô era? Meu avô morreu há alguns meses. Engraçado, quando alguém morre já não se diz que Fulano é Fulano - era. Eu queria dizer que meu avô é o Rafael, mas dirão que está errado. Lá na sala tem fotos de toda minha família e quando alguém pergunta quem é esse senhor dessa foto, eu digo, esse é o meu avô Rafael. Imagine, eu respondendo, esse era o meu avô Rafael.

Eu nem ia falar do primeiro cheque que preenchi. Sempre achei bonito, um charme mesmo, quando meu pai abria a carteira , pegava o talão de cheques e sua caneta dourada, inclinava a cabeça para um lado e preenchia com elegância um cheque para pagar alguma conta. Um belo dia, minha professora de português ensinou na aula, como preencher um cheque. Aprendi e contei a todos na minha casa. Desse dia em diante, meu avô Rafael passou a me mandar preencher os cheques dele, o que eu fazia com muito gosto. De vez em quando eu imitava meu pai e inclinava minha cabeça para um lado, acho que eu ficava muito charmosa. O meu avô também ficava muito feliz. Com o cheque em mãos, me abraçava e dizia: devo-te mais um sorvete Vitorinha. Quando ele me levava na sorveteira da esquina, eu me fartava. Ele era tão bom, tão alegre... Os avós não deveriam morrer. Eles são pais duas vezes.

Estou aqui me olhando já faz muito tempo. Penso em tantas coisas e vou ter assuntos novos para conversar com a Dany. É Daniela, mas eu chamo de Dany a minha melhor amiga. Lembro-me o dia em que nós nos conhecemos. Era domingo de Páscoa, o dia amanheceu triste para todos nós. Todo domingo de Páscoa, meu avô era quem comprava os chocolates para todos e eu sempre ganhava um ovo de chocolate bem grande, embrulhado em um papel prateado com um coelho enorme. Eu até pensava que os coelhos tinham gosto de chocolate. No dia que conheci a Dany, era um dia sem alegria. Meu avô já não estava entre nós. Meu pai estava desempregado, minha mãe seguia no dia silenciosa e percebi que minha avó Sofia havia chorado. Eu brincava com Clarissa, minha boneca e amiga confidente. Aliás, só Clarissa não esboçava tristeza e nem alegria, era a de sempre. Para quebrar aquele sentimentalismo, minha avó teve a idéia de nos convidar para almoçar fora, ela pagaria. Saímos. Pensei em comer o ovo de chocolate que ela me deu assim que acordei, mas preferi o deixar enfeitando meu criado mudo, apesar da vontade que me consumia.

No restaurante até que todos ficaram alegres. Fui ao banheiro lavar minhas mãos e tinha uma garota um pouco mais velha que eu, na ponta dos pés passando batom na boca. Era a Dany. Ela me ofereceu o batom, eu não aceitei, mas ela disse que eu estava pálida e foi logo passando. Apresentamos-nos e trocamos nossos endereços. Não demorou e a Dany foi até a minha casa e depois eu fui a casa dela. Ficamos amigas. Eu tinha treze anos e a Dany quatorze. Ela já tinha beijado. Beijou o Renato, um menino da mesma escola que ela. Eu disse para ela que eu nunca tinha beijado e não sabia beijar. Na mesma hora ela mandou que eu treinasse com uma laranja. Achei estranho, mas a Dany disse que daria certo.

Nunca vou esquecer o espanto da minha mãe. Eu estava no meu quarto com uma laranja na mão treinando o beijo. Eu imaginava beijando o Daniel. Fazia tempo que ele me tratava com muito carinho e me olhava com um olhar diferente. Sem contar que eu sentia um frio, um calor, as pernas ficavam bambas quando ele aparecia. Acho que eu estava gostando dele. Pois bem, estava eu chupando, melhor beijando a laranja com meus olhos fechados e como a laranja estava azeda eu fazia caretas e imaginava uma boca, a boca do Daniel mesmo. Foi quando minha mãe entrou e diante da cena gritou: Maria Vitória, que está fazendo? Abri meus olhos, deixei a metade da laranja cair ao chão e respondi: Estou beijando o Daniel! Minha mãe arregalou os olhos e interrogou: Beijando quem? Contei pra ela que foi a Dany quem me orientou a treinar o beijo na laranja. Foi uma conversa difícil. Ela me disse que não deveria ser muito bom o beijo do Daniel porque minha cara estava péssima. Minha mãe logo entendeu que eu estava gostando do Daniel. Treinei outras vezes em outras laranjas mais doces e com a porta do meu quarto bem fechada.

Em uma manhã chuvosa, estava eu na Biblioteca quase vazia, parei a leitura e observava a água descendo pela vidraça. Daniel apareceu na minha frente, perguntou-me se eu estava com frio, respondi que sim. Ele sentou ao meu lado, segurou minha mão, olhou em meus olhos e lentamente foi aproximando seus lábios dos meus. Um toque, uma carícia leve e de repente nossos lábios unidos. O meu primeiro beijo estava acontecendo enquanto a chuva escorria pela vidraça. Nem lembrei dos treinamentos com as laranjas. Acho que não errei. Eu gostei muito! Acredito que ele gostou, pois outros beijos trocamos. Agora, estou diante desse espelho toda arrumada. Enquanto espero Daniel chegar. Mergulho nas reminiscências e vejo quanta coisa aconteceu na minha vida. Lá na sala estão meus pais e minha avó. Faz um ano que meu pai está trabalhando como bancário. Hoje é o primeiro dia que Daniel vem oficializar o nosso namoro. Minha mãe e minha avó prepararam um jantar especial. Temos motivos para comemorar. Dou um último retoque nos meus cabelos e na maquiagem. Vou para sala. Daniel chega com um ramalhete de rosas cor de rosa. As rosas estão lindas. Daniel está lindo. Estou tão contente!

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 15 - Julho de 2008