![]() |
| Antologia
on line |
O primeiro beijo de Maria Vitória
Eu
nem ia falar do primeiro cheque que preenchi. Sempre achei bonito,
um charme mesmo, quando meu pai abria a carteira , pegava o talão
de cheques e sua caneta dourada, inclinava a cabeça para
um lado e preenchia com elegância um cheque para pagar alguma
conta. Um belo dia, minha professora de português ensinou
na aula, como preencher um cheque. Aprendi e contei a todos na minha
casa. Desse dia em diante, meu avô Rafael passou a me mandar
preencher os cheques dele, o que eu fazia com muito gosto. De vez
em quando eu imitava meu pai e inclinava minha cabeça para
um lado, acho que eu ficava muito charmosa. O meu avô também
ficava muito feliz. Com o cheque em mãos, me abraçava
e dizia: devo-te mais um sorvete Vitorinha. Quando ele me levava
na sorveteira da esquina, eu me fartava. Ele era tão bom,
tão alegre... Os avós não deveriam morrer.
Eles são pais duas vezes. Estou
aqui me olhando já faz muito tempo. Penso em tantas coisas
e vou ter assuntos novos para conversar com a Dany. É Daniela,
mas eu chamo de Dany a minha melhor amiga. Lembro-me o dia em que
nós nos conhecemos. Era domingo de Páscoa, o dia amanheceu
triste para todos nós. Todo domingo de Páscoa, meu
avô era quem comprava os chocolates para todos e eu sempre
ganhava um ovo de chocolate bem grande, embrulhado em um papel prateado
com um coelho enorme. Eu até pensava que os coelhos tinham
gosto de chocolate. No dia que conheci a Dany, era um dia sem alegria.
Meu avô já não estava entre nós. Meu
pai estava desempregado, minha mãe seguia no dia silenciosa
e percebi que minha avó Sofia havia chorado. Eu brincava
com Clarissa, minha boneca e amiga confidente. Aliás, só
Clarissa não esboçava tristeza e nem alegria, era
a de sempre. Para quebrar aquele sentimentalismo, minha avó
teve a idéia de nos convidar para almoçar fora, ela
pagaria. Saímos. Pensei em comer o ovo de chocolate que ela
me deu assim que acordei, mas preferi o deixar enfeitando meu criado
mudo, apesar da vontade que me consumia. No
restaurante até que todos ficaram alegres. Fui ao banheiro
lavar minhas mãos e tinha uma garota um pouco mais velha
que eu, na ponta dos pés passando batom na boca. Era a Dany.
Ela me ofereceu o batom, eu não aceitei, mas ela disse que
eu estava pálida e foi logo passando. Apresentamos-nos e
trocamos nossos endereços. Não demorou e a Dany foi
até a minha casa e depois eu fui a casa dela. Ficamos amigas.
Eu tinha treze anos e a Dany quatorze. Ela já tinha beijado.
Beijou o Renato, um menino da mesma escola que ela. Eu disse para
ela que eu nunca tinha beijado e não sabia beijar. Na mesma
hora ela mandou que eu treinasse com uma laranja. Achei estranho,
mas a Dany disse que daria certo. Nunca
vou esquecer o espanto da minha mãe. Eu estava no meu quarto
com uma laranja na mão treinando o beijo. Eu imaginava beijando
o Daniel. Fazia tempo que ele me tratava com muito carinho e me
olhava com um olhar diferente. Sem contar que eu sentia um frio,
um calor, as pernas ficavam bambas quando ele aparecia. Acho que
eu estava gostando dele. Pois bem, estava eu chupando, melhor beijando
a laranja com meus olhos fechados e como a laranja estava azeda
eu fazia caretas e imaginava uma boca, a boca do Daniel mesmo. Foi
quando minha mãe entrou e diante da cena gritou: Maria Vitória,
que está fazendo? Abri meus olhos, deixei a metade da laranja
cair ao chão e respondi: Estou beijando o Daniel! Minha mãe
arregalou os olhos e interrogou: Beijando quem? Contei pra ela que
foi a Dany quem me orientou a treinar o beijo na laranja. Foi uma
conversa difícil. Ela me disse que não deveria ser
muito bom o beijo do Daniel porque minha cara estava péssima.
Minha mãe logo entendeu que eu estava gostando do Daniel.
Treinei outras vezes em outras laranjas mais doces e com a porta
do meu quarto bem fechada. Em
uma manhã chuvosa, estava eu na Biblioteca quase vazia, parei
a leitura e observava a água descendo pela vidraça.
Daniel apareceu na minha frente, perguntou-me se eu estava com frio,
respondi que sim. Ele sentou ao meu lado, segurou minha mão,
olhou em meus olhos e lentamente foi aproximando seus lábios
dos meus. Um toque, uma carícia leve e de repente nossos
lábios unidos. O meu primeiro beijo estava acontecendo enquanto
a chuva escorria pela vidraça. Nem lembrei dos treinamentos
com as laranjas. Acho que não errei. Eu gostei muito! Acredito
que ele gostou, pois outros beijos trocamos. Agora, estou diante
desse espelho toda arrumada. Enquanto espero Daniel chegar. Mergulho
nas reminiscências e vejo quanta coisa aconteceu na minha
vida. Lá na sala estão meus pais e minha avó.
Faz um ano que meu pai está trabalhando como bancário.
Hoje é o primeiro dia que Daniel vem oficializar o nosso
namoro. Minha mãe e minha avó prepararam um jantar
especial. Temos motivos para comemorar. Dou um último retoque
nos meus cabelos e na maquiagem. Vou para sala. Daniel chega com
um ramalhete de rosas cor de rosa. As rosas estão lindas.
Daniel está lindo. Estou tão contente! |
| Volta Página Principal |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 15 - Julho de 2008 |