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Diogo Carreira Fortunato
Rio de Janeiro / RJ

Dor nas costas


Abriu os olhos. Não quis se levantar. Suas costas doíam. A idéia de permanecer imóvel parecia a mais confortável possível. Enrolou mais uma hora na cama. Novamente abriu os olhos. Suas costas ainda doíam, porém sua vontade mudara. O que lhe impelia agora era simplesmente fumar um cigarro e tomar um café. Para alguns isso pode parecer pouco, para ele, neste instante, era tudo. Não é que ele não pensasse no futuro, muito pelo contrario, pensava até de mais. Visto que o futuro assim como o passado são meras construções do presente e para formá-los é sempre necessário pensá-los. Mas aquela dor, que agora se tornara minúscula, contudo insistente, parecia espreitá-lo, a procura de um deslize que faria com que ela voltasse a galope, feliz, para as mãos desse amo que não a deseja. A dor era como uma ancora que o fincava no presente.
É simplório falarmos da fome sem nunca a termos sentido. A nossa nada mais é do que o corpo nos pedindo o habitual de energia ingerido religiosamente ou não. Não é fome é ânsia de comer. Já a fome de um homem da caatinga, em plena seca nordestina, é esperança de poder vir a comer algum dia. Percebe a diferença? Essa é a questão.
Aquela dor já o incomodava tanto, há tanto tempo, que ele simplesmente não conseguia mais projetar seu futuro sem ela. Pelo menos não estaria sozinho, pensava ele, "enquanto estiver com minha dor sempre poderei contar com alguma coisa". E dela fez bengala. A mesma dor da qual tanto fugiu, agora era sua aliada. Como sempre a tinha por perto passou a não precisar de mais nada. Tinha sua dor, não precisava da dor dos outros. A dor dos outros não o comovia, pareciam pequenas perto da dele, a dele era superior, e quando não era, fazia-a parecer. Entretanto o que ele desconhecia é que por suas costas a dor tramava. O corpo não suporta algo que o aflige, diferente do homem que se acostuma, se entrega, o corpo luta em silencio. Em silencio porque cansou de gritar, o homem se habitua porque cansou de lutar. E na luta solitária e silenciosa o corpo jamais perde, pois a derrota para o corpo é a morte, enquanto houver vida há luta, mesmo que ninguém a perceba.
Abriu os olhos. Não quis se levantar. Suas costas doíam. A idéia de permanecer imóvel parecia a mais confortável possível. Enrolou mais uma hora na cama. Novamente abriu os olhos. Suas costas ainda doíam, porém sua vontade mudara. O que lhe impelia agora era simplesmente fumar um cigarro e tomar um café. Ao se levantar percebeu que suas costas não doíam mais, ele não o percebera antes porque não havia tentado se mexer, simplesmente sabia que estava lá, não precisava mais senti-la. Tamanho foi seu espanto quando viu que a bagagem da dor não estava mais lá. Ela havia esvaziado o guarda-roupa e partido, sequer lhe escrevera um bilhete, era o mínimo que ela poderia lhe deixar , afinal foram anos de convivência, ele já conhecia todas as suas manias, seus trejeitos, sua forma de ver o mundo, baseava-se nela, dependia dela para viver. É como se em um mundo sem dor ele parecesse não estar vivo. Flutuava, sem esperança, sem futuro, pisava no chão e não sentia mais nada. Tentava se lembrar do tempo que não a queria por perto, entretanto não conseguia mais. Apegara-se a ela. Sentado na cama começou a chorar, o choro que para muitos deveria ser de felicidade era, em verdade, de medo, de insegurança. Queria viver, mas viver sem dor, não sabia se seria capaz.
Levantou. Ainda de pijama, abriu a porta do seu apartamento e subiu as escadas até o terraço. Não era muito alto, tinha quatro andares, considerando o térreo. Estava sozinho, nem os pombos estavam lá àquela hora. Foi até o parapeito, olhou para baixo, a rua que normalmente é pouco movimentada, exceto nos dias de feira, estava deserta, e o sentimento de vazio só crescia. O mundo inteiro parecia ter se mudado para outro mundo e o deixado ali, não como dono deste mundo, mas como exilado, como desnecessário. E a dor, companheira de uma vida inteira, com quem contava, também o abandonara naquela manhã. Ele subiu no parapeito, olhou mais uma vez para baixo, só para ter certeza de que estava mesmo só, fechou os olhos, e lentamente pendeu seu corpo para frente. De olhos fechados não sabia até quando seu corpo penderia pelo vazio. Foi quando sentiu uma puxada nas costas, rapidamente imaginou: "não seria a dor que retornara, ao menos para se despedir?". Seu corpo retrocedeu e tocou de forma brusca o chão do terraço. Abriu os olhos e viu uma moça. Ela que mais tarde se identificaria como sua vizinha de cima, contou que ao ir jogar o lixo fora o notara se dirigindo ao terraço, e que estava pálido, com uma aparência muito ruim. Usou nestes termos para não dizer que seu vizinho estava com cara de suicida, se é que suicida tem cara. Ela o levou para casa e lá conversaram. Contou-lhe que estava passando por uma situação bem parecida, durante a conversa perceberam o nascimento de um novo futuro, uma nova esperança. Ele achava a moça divertida, imaginou filhos com ela, uma família, sabe?
Poft! Foi o som que fez seu corpo ao bater na calçada de cabeça.
Tudo se tornou escuro.
Por mais ou menos trinta segundos pode ouvir a voz de uma moça, que, entre lagrimas e gritos, dizia ser este seu vizinho de baixo. E lá ele ficou, a dor que tanto procurava não voltou. A rua estava lotada, era dia de feira, só ele não viu, sua busca chegou a um fim momentâneo. Pois sendo meu, parte de mim, posso vir a precisar dele um dia.
Abri os olhos e não quis me levantar. Minhas costas doíam, e a vontade de permanecer naquele instante imóvel me parecia a mais confortável possível.


 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 15 - Julho de 2008