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Francisco
de Assis Borges
Curitiba
/ PR
Os
vizinhos que economizavam TV
Havíamos mudado há pouco tempo para a Rua ErnestoTagliari.
A casa, um sobradinho branco, embora sem luxo nenhum, era muito
confortável.
Tratamos logo de posicionar uma televisão no quarto para
assistirmos a novela das oito relaxadamente da cama.
Aí surgiu um pequeno problema, não havia um espaço
ideal disponível para a TV, só sobrava aquele cantinho
por cima da penteadeira que, por não ser esta nada pequena,
faria com que o aparelho ficasse posicionado um tanto quanto alto.
Não nos importamos, pois atingia o nosso objetivo e, lá
estava ela, com excelente imagem. E a cama? Macia e muito confortável.
Não faltava nada, pois!
Passaram-se mais de trinta dias da nossa chegada. Já estávamos
naturalmente habituados a casa e tínhamos um grande incentivador
à nossa satisfação. Era a novela das oito que
estava cada vez mais quente. Que maravilha! Que paz!
Começamos a notar que o vizinho de frente, estava sempre
no quintal com toda a família e não raras vezes os
surpreendemos olhando para o lado da nossa janela. Pura coincidência!
- Pensamos eu e minha mulher.
Passamos a chegar menos à janela, já que ela dava
de frente para o quintal dele e porque toda vez que fazíamos
isso quase sempre avistávamos alguém lá, principalmente
quando a TV estava ligada.
Um belo dia, porém, o nosso filho mais velho pediu que eu
olhasse para fora para verificar o porquê do estar toda a
família olhando ininterruptamente para a nossa casa e mais,
estavam sentados em um grande banco de madeira, todos os quatro:
Pai; mãe; filho e filha.
Que estranho! - Pensei. Porém não me retive, pois,
fiquei constrangido de ficar olhando para eles enquanto eles olhavam
para nós, embora eu estivesse encafifado com aquele comportamento.
Eram boas pessoas, isso os outros vizinhos já haviam me informado.
Passados não muitos dias, a situação se tornou
ainda mais intrigante, pois agora portava cada um o seu binóculo,
desses importados do Paraguai por ninharia, mas que, certamente
aproximava bem a imagem, pois estavam todos com o foco fixo na nossa
janela.
Assim que cheguei ao parapeito eles se disfarçaram como se
estivessem buscando estrelas e apontavam para o céu, e discutiam
como se eu não soubesse que estavam dissimulando seus verdadeiros
objetivos.
Eu e minha mulher, muito chateados com aquela situação
e, embora não possuindo ar condicionado ainda, passamos três
meses de janela fechada, sentindo o calor dos infernos, mas passamos,
pois assim acabaríamos com aquela situação
constrangedora.
Ora, a última coisa que faríamos seria armar uma discussão
com vizinhos, coisa que sempre detestamos e ainda, estávamos
cortando por certo o mal pela raiz, ao manter a janela fechada.
E assim foi. Três meses de paz e sossego até aquele
dia. O dia dos quarenta graus. O repórter televisivo, diga-se
de passagem, na mesma televisão que posteriormente fui saber
ser a causa de tamanho disparate, anunciara o elevado aumento de
temperatura, trazendo junto à sua notícia a informação
de que o motivo do mormaço era devido ao grande buraco feito
na camada de ozônio pela poluição industrial.
Trajando roupas leves e macias abrimos a janela com ímpeto
naquela noite. Ora que surpresa! Os ditos vizinhos haviam provavelmente
escutado a mesma notícia e lá estavam eles, assentados
enfileiradinhos no banco de madeira, com binóculo e tudo
e também com roupas frescas como nós, no maior converseiro.
O que mais me aborreceu foi o acerto na previsão deles, o
saber que abriríamos a janela. Acertaram e, assim que a abri
não disfarçaram nem um pouco, parece que estavam com
saudade e apontaram de imediato as suas armas para a novela das
oito, todos os quatro juntinhos, dando aquelas risadinhas de satisfação
e se cutucado mutuamente.
Não se deram mais o desfrute do sorrateiro despiste. Olharam
de frente e pronto, no que, para nosso desespero a menina gritou
para ouvirmos:
Não dá para aumentar um pouco o volume?
Antes que respondêssemos, com a legítima indignação,
responder alguma coisa, o menino complementou:
- Quando terminar a novela não se esqueçam de virar
para o doze, hoje vai ter São Paulo e Coríntians!
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