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Maura
Soares
Florianópolis
/ SC
Fim
de semana em Anitápolis
Quando jovens, com idade entre 10 e 18 anos, anos 50 e 60, sempre
que podíamos - a família Soares - íamos para
Anitápolis, SC, terra natal de nossa mãe, Odete.
Anitápolis é um município ao sul do estado
de Santa Catarina, de colonização predominantemente
de alemães, que ficou adormecido durante anos com sua vida
pacata, os colonos cuidando do seu gado, da plantação
e das reuniões em volta da igreja. Há uma igreja luterana
e outra católica. Lá sempre havia um baile programado.
As moças da cidade - nós - éramos requisitadas
para dançar e, se negássemos, era uma ofensa terrível.
Num desses fins-de-semana lá estávamos, após
uma longa viagem de ônibus pelas estradas sinuosas e perigosas,
de chão batido, através da garganta, com precipício
em cada curva. A paisagem era deslumbrante com a serra esverdeante,
suas casas amplas com curral anexo, varanda e janelas fronteiriças.
Fomos acolhidos, como sempre, no casarão do nosso tio, Lindolfo
Bepler, casado com a irmã de nossa mãe Odete, Aracy.
A casa, estilo colonial, com um amplo salão, quartos enormes,
confortáveis, com cobertas acolchoadas com penas de ganso
- as noites de inverno eram enregelantes - e camas enormes de madeira
maciça. Três grandes quartos davam para o salão.
O casarão ainda está de pé, neste século
21. Havia um pequeno quarto embaixo de uma escada íngreme
que levava ao sótão. O sótão se estendia
por todo o comprimento da casa. Um pequeno corredor dava para outro
quarto, no térreo, confortável, em que dormiam tia
Cici e tio Lindolfo. Nesse lado da casa, em frente ao quarto dos
tios, havia o armazém de secos e molhados, que abastecia
a região, onde o idioma alemão predominava. Lindolfo
falava alemão e, assim, podia se entender com aqueles em
que o português era bicho de sete cabeças. Encantava-me
ver e tocar naqueles grandes baús (digamos assim) com uma
tampa inclinada, onde eram armazenados a farinha, o arroz e o feijão.
Pendurados no teto baldes, panelas, frigideiras, chaleiras e outros
utensílios de cozinha. Cortes de tecido. Xícaras de
porcelanas, aparelhos de jantar, além de fumo de corda, lingüiça
defumada, potes de vidro com balas, fogos de artifício e
outros, tudo isso no mesmo ambiente. Gostava de me meter atrás
do balcão observando os trajes dos colonos com suas botas
de montaria com esporas, seus ponchos sobre os ombros, seus chapéus
de abas largas, facão na cintura, bombachas. Achava engraçado
quando eles queriam falar em português: "foguete",
era "fedete" ou "bomba à altura".
O sótão do casarão possuía quartos,
todos com grandes camas em que três pessoas podiam dormir
folgadamente. E foi nesse sótão que a festa aconteceu.
Diga-se de passagem que muitos utensílios de lavoura tais
como ancinhos, facões, machados, enxadas, eram guardados
no sótão, pois não havia lugar suficiente na
"venda" para armazenar todos os itens.
No Domingo, após missa e um farto almoço, a gurizada
subiu para o sótão para brincar. Já havíamos
tomado vinho no almoço. Eu, Zeula, Dulce(filha de Lindolfo)
e outros, pedimos mais vinho para o tio e ele prontamente mandou
mais umas garrafas. Gole vai, gole vem, o vinho, claro, subiu à
cabeça rapidamente. Nessa altura, no meio da tarde, o baile
no salão já havia começado, com acordeão
a tocar músicas germânicas. Tio Lindolfo subiu ao sótão
chamando a turma para o baile. Os que quase não haviam bebido,
foram. Outros ficaram, inclusive, eu, Zeula e Dulce. Nessa altura
do campeonato, sob o efeito etílico, tudo era muito engraçado.
Zeula começou a dançar, primeiramente sozinha e depois
pegou um ancinho e fez dela um par. Ríamos a mais não
poder, dançando e cantando, até que a sonolência
tomou conta de nós e claro, emborcamos naquelas camas macias
com colchões de palha e travesseiros de plumas.
Não precisa dizer que perdemos um dos bailes mais animados
que a sede já havia visto.
O vinho faz coisa!
Per Baco!!!
(Um fim-de-semana para lembrar)
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