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Justiça materna
O fato
é que ela era a matriarca da família e desde muito
jovem o fora. Casou-se muito cedo e enviuvou com a mesma precocidade.
Seu marido, certa noite, defendendo seu patrão numa briga
de bar, fora esfaqueado pelas costas, morrendo ali mesmo naquela
pocilga, sem nem ao menos ter chance de ser socorrido. Mas
não é diretamente sobre isso que escrevo agora. Digo
diretamente, pois esse fato alterou profundamente a vida dela, que
teve de criar sozinha seus dois filhos. Da fazenda não se
mudou. Continuou ali, servindo aos seus patrões, fielmente,
dia-a-dia, sem pestanejar, apenas resignando-se àquela vida. As
rugas na expressão dela denunciavam que a vida não
lhe era nada fácil e pareciam, também, multiplicar
cada ano (que não eram poucos) por dez. Seu
primogênito, ao aflorar da idade, deixou-a, assim como a vida
no campo, para galgar melhores condições na cidade
grande. Não foi, porém, sem as contestações
e, até certo ponto, a reprovação da mãe,
que, sem ter o que fazer, resignou-se novamente, diante mais esse
golpe do destino. Entretanto, golpe maior veio pouco mais de seis
meses após a partida de seu filho mais velho. Por
meio de um telegrama (lido por sua patroa, pois ela não sabia
brincar com o quebra-cabeça chamado alfabeto) ela soube da
morte seu filho que, numa tentativa de salvar a vida de seus companheiros,
foi baleado dentro de um banco. Com
tudo isso, ela decidira dedicar o restante de sua existência
ao seu último ente vivente nessa terra. O tempo
passou (não o suficiente para fazê-la esquecer, mas,
pelo menos, o bastante para cicatrizar as feridas deixadas pelo
destino). Seu antigo patrão e sua esposa já faziam
companhia há algum tempo ao marido e ao primogênito
dela. A fazenda agora era gerida pelo filho único de seus
antigos patrões, herdeiro único de tão vastas
terras. O novo
patrão, assim como o antigo, gostava de acompanhar tudo de
perto. Todavia, essa não era a única semelhança
entre o novo e o antigo gestor da fazenda. Eles também pareciam
quanto ao vício e à fraqueza em relação
às bebidas alcoólicas. A esposa
do "patrãozinho" ficou totalmente abalada com a
notícia. Não tendo coragem de reconhecer os corpos.
Então essa árdua tarefa recaiu sobre os calejados
ombros da mãe da outra vítima, que teria de reconhecer
os restos de seu filho caçula, sua última amarra a
este mundo. A sala
de espera do necrotério era muito clara e extremamente fria.
Ela esperou por algum tempo ali, em pé, relembrando toda
a sua vida. Lembrou também na dedicação do
seu marido para com seu patrão. Dedicação essa
recompensada com não mais do que um "meus pêsames"
e com um canto, no fundo do cemitério, para enterrar seu
marido (área esta que era fatalmente destinada somente aos
funcionários da fazenda, uma vez que os donos da terra eram
sepultados no cemitério da cidade). Logo
que entrou no salão onde os corpos estavam à espera
de reconhecimento, ela deu de frente com um lustroso caixão,
com todos os seus detalhes dourados e com uma inscrição
que ela não conseguiu entender, pois ler não sabia,
mas que mesmo assim considerou serem palavras de paz e conforto
para a alma (não dos que iam, mas sim, dos que ficavam) .
Desviando um pouco o olhar, ela percebeu ao fundo da sala um outro
esquife; esse bem mais simples, sem detalhes dourados, sem palavras
escritas, apenas uma caixa de madeira na qual ela sabia que seriam
depositados os restos de seu filho caçula. Quando
o legista descobriu os dois corpos que jaziam inertes naquelas mesas
metálicas, ela tomou uma difícil decisão. Faria,
então, de uma vez por todas (segundo ela) justiça
e daria, ao menos, um último luxo ao seu filho, cobrando
todos os anos de dedicação dos seus para com aquela
fazenda. Não hesitou, indicou cada um dos dois corpos que
seriam velados em caixões lacrados, devido a violência
do acidente. Esperou que cada um fosse colocado em seu respectivo
lugar e saiu da sala chorando, entretanto com a certeza de ter tomado
a decisão correta. Depois
daquele dia, ela ia todo domingo rezar e colocar flores diante daquele
túmulo (é, aquele mesmo, que todos - menos ela - consideravam
ser o local do derradeiro descanso de seu patrãozinho). |
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| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |