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Renato Dutra Gomes
Taubaté / SP

Justiça materna


Às vezes me questiono sobre a justiça de determinadas ações humanas. Todavia, independentemente da resposta, brotam em meus pensamentos indagações sobre o fato de tais ações, justas ou não, serem corretas. Há vezes que eu acho que sim, outras, considero que não.

O fato é que ela era a matriarca da família e desde muito jovem o fora. Casou-se muito cedo e enviuvou com a mesma precocidade. Seu marido, certa noite, defendendo seu patrão numa briga de bar, fora esfaqueado pelas costas, morrendo ali mesmo naquela pocilga, sem nem ao menos ter chance de ser socorrido.

Mas não é diretamente sobre isso que escrevo agora. Digo diretamente, pois esse fato alterou profundamente a vida dela, que teve de criar sozinha seus dois filhos. Da fazenda não se mudou. Continuou ali, servindo aos seus patrões, fielmente, dia-a-dia, sem pestanejar, apenas resignando-se àquela vida.

As rugas na expressão dela denunciavam que a vida não lhe era nada fácil e pareciam, também, multiplicar cada ano (que não eram poucos) por dez.

Seu primogênito, ao aflorar da idade, deixou-a, assim como a vida no campo, para galgar melhores condições na cidade grande. Não foi, porém, sem as contestações e, até certo ponto, a reprovação da mãe, que, sem ter o que fazer, resignou-se novamente, diante mais esse golpe do destino. Entretanto, golpe maior veio pouco mais de seis meses após a partida de seu filho mais velho.

Por meio de um telegrama (lido por sua patroa, pois ela não sabia brincar com o quebra-cabeça chamado alfabeto) ela soube da morte seu filho que, numa tentativa de salvar a vida de seus companheiros, foi baleado dentro de um banco.

Com tudo isso, ela decidira dedicar o restante de sua existência ao seu último ente vivente nessa terra.

O tempo passou (não o suficiente para fazê-la esquecer, mas, pelo menos, o bastante para cicatrizar as feridas deixadas pelo destino). Seu antigo patrão e sua esposa já faziam companhia há algum tempo ao marido e ao primogênito dela. A fazenda agora era gerida pelo filho único de seus antigos patrões, herdeiro único de tão vastas terras.

O novo patrão, assim como o antigo, gostava de acompanhar tudo de perto. Todavia, essa não era a única semelhança entre o novo e o antigo gestor da fazenda. Eles também pareciam quanto ao vício e à fraqueza em relação às bebidas alcoólicas.

Nos meados de setembro, durante uma madrugada fria e chuvosa, patrão e empregado (é, justamente o filho dela) voltavam de uma viagem de negócios na camionete da fazenda. O que realmente aconteceu naquela noite, ninguém sabia dizer. Os únicos que poderiam sanar tais dúvidas, infelizmente morreram nesse acidente.

A esposa do "patrãozinho" ficou totalmente abalada com a notícia. Não tendo coragem de reconhecer os corpos. Então essa árdua tarefa recaiu sobre os calejados ombros da mãe da outra vítima, que teria de reconhecer os restos de seu filho caçula, sua última amarra a este mundo.

A sala de espera do necrotério era muito clara e extremamente fria. Ela esperou por algum tempo ali, em pé, relembrando toda a sua vida. Lembrou também na dedicação do seu marido para com seu patrão. Dedicação essa recompensada com não mais do que um "meus pêsames" e com um canto, no fundo do cemitério, para enterrar seu marido (área esta que era fatalmente destinada somente aos funcionários da fazenda, uma vez que os donos da terra eram sepultados no cemitério da cidade).

Logo que entrou no salão onde os corpos estavam à espera de reconhecimento, ela deu de frente com um lustroso caixão, com todos os seus detalhes dourados e com uma inscrição que ela não conseguiu entender, pois ler não sabia, mas que mesmo assim considerou serem palavras de paz e conforto para a alma (não dos que iam, mas sim, dos que ficavam) . Desviando um pouco o olhar, ela percebeu ao fundo da sala um outro esquife; esse bem mais simples, sem detalhes dourados, sem palavras escritas, apenas uma caixa de madeira na qual ela sabia que seriam depositados os restos de seu filho caçula.

Quando o legista descobriu os dois corpos que jaziam inertes naquelas mesas metálicas, ela tomou uma difícil decisão. Faria, então, de uma vez por todas (segundo ela) justiça e daria, ao menos, um último luxo ao seu filho, cobrando todos os anos de dedicação dos seus para com aquela fazenda. Não hesitou, indicou cada um dos dois corpos que seriam velados em caixões lacrados, devido a violência do acidente. Esperou que cada um fosse colocado em seu respectivo lugar e saiu da sala chorando, entretanto com a certeza de ter tomado a decisão correta.

Depois daquele dia, ela ia todo domingo rezar e colocar flores diante daquele túmulo (é, aquele mesmo, que todos - menos ela - consideravam ser o local do derradeiro descanso de seu patrãozinho).

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008