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Uma carona para a eternidade
Éramos
uma turminha de doze rapazes e moças entre 18 e 21 anos,
que se reunia todos os fins de semana na pracinha da igreja do Carmo
para conversar e cantar no embalo do violão de Helano, um
italianinho apaixonado por bossa nova. Não havia muito mais
o que fazer na Criúva dos anos 70. Entre
as garotas, uma delas se destacava pela espontaneidade: Julia, 18
anos, extrovertida, afinada, era a “cantora oficial”
nas nossas noitadas musicais. Seu sonho, fazer Medicina em Porto
Alegre. Nos últimos tempos só falava nisso, seu entusiasmo
chegava a ser contagiante. Naquela
noite, entretanto, Julia chegou diferente. Calada, parecia alheia
às conversas, olhar distante. Por duas ou três vezes
afastou-se do grupo e ficou parada próxima ao meio-fio como
se estivesse esperando alguém. Por
volta das 22 horas, mais ou menos, um carro preto dobrou a esquina
e parou do outro lado da rua. Um homem de terno desceu e olhou na
nossa direção, parecia procurar alguém. Júlia,
então, levantou-se, como se estivesse hipnotizada, e atravessou
a rua indo em sua direção. Todos estranhamos, mas
ninguém tomou qualquer iniciativa. De
onde estávamos não dava para ver bem as feições
do tal homem, víamos apenas que tinha um ar distinto, meia-idade.
À chegada de Julia, ele abriu cavalheirescamente a porta
do carona, Julia entrou, sequer olhou para nós, e o carro
saiu em direção de Caxias. Uma sensação
estranha tomou conta de todos nós. No
dia seguinte, às 6 da manhã, Gabriel chegou lá
em casa com a notícia: Julia sofrera um grave acidente de
automóvel naquela madrugada, na estrada que liga Criúva
à Caxias. Morreu no local presa às ferragens. Segundo
a polícia, o motorista fugiu após o acidente mas que,
estranhamente, não havia marcas de sangue no seu banco apesar
de o impacto ter destruído completamente o automóvel.
Mais misterioso ainda é que a porta do motorista estava retorcida
e não foi aberta, e uma possível saída pelo
pára-brisa seria absolutamente impossível. E mais
ainda: posteriormente, pela placa do veículo, o proprietário
foi identificado, chamava-se Teodoro, um engenheiro de Alegrete
que havia falecido em 1969, num acidente de trânsito, dirigindo
esse mesmo veículo. Pela foto dele no arquivo do Departamento
de Trânsito, pudemos confirmar que foi ele mesmo o homem que
deu a Julia aquela carona para a eternidade. |
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| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |