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A poção misteriosa de Mãe Idalina
... A velhinha
percebeu a nossa chegada e veio depressa nos receber. Parece até
que já sabia do que se tratava. Olhou pela janela do carro,
franziu a testa e chamou com autoridade um caboclo que se escondia,
preguiçoso, na sombra do alpendre: Enquanto
ajeitávamos Enildo sobre o estrado de junco, a velhinha –
Mãe Idalina – envolveu o pescoço com algumas
guias coloridas, acendeu um toco de vela sobre uma mesinha que parecia
servir de santuário no canto da sala, fez uma rápida
reverência, foi em direção da cozinha, e voltou
logo a seguir com uma caneca contendo alguma coisa que parecia água.
Pediu que me afastasse. Levantou a cabeça do rapaz e ordenou
que ele bebesse. Depois fez o sinal da cruz e levantou-se com jeito
de quem acabara de cumprir sua obrigação: Todo
aquele ritual – ou terapia, sei lá – não
durou mais do que quatro minutos. A verdade é que Enildo
parou de gemer, parou de vomitar, e não demorou para se levantar
do estrado, ainda meio zonzo, é claro. Mas não parecia
mais estar doente. Parecia só cansado. O matuto preguiçoso
havia voltado para sombra do alpendre e a velhinha nos acompanhou
até a porta da sala. Precisava terminar de catar as favas
para o almoço. Voltamos
para o carro, e Mãe Idalina, de longe, simplesmente acenou: —
Vão com Deus! ... Por
via das dúvidas, paramos em Ibirité e decidi que Enildo
devia consultar um médico. Contamos tudo o que tinha acontecido.
Doutor Abraão – este era o seu nome – deitou,
então, a caneta sobre o receituário, recostou-se na
cadeira, cruzou os braços e com um indisfarçável
sorriso de sabedoria atestou: E depois
de um breve silêncio: —
A poção milagrosa dessa macumbeira vai acabar com
minha clientela! Acabar no bom setido, é claro. Ela é
fantástica! Nota:
este caso fantástico e verídico aconteceu em dezembro
de 1983. |
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| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |