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Mauricio
Novais
Itamaraju
/ BA
O
Natal de Alice
A noite caíra e ninguém conseguia explicar por que
o sol insistia em brilhar; Alice, da janela observava o céu.
Seus poemas inundavam a avenida em que morava. Alice escrevia e
atirava os poemas pela janela. Para ela a vida não fazia
mais sentido, despertava-lhe total intolerância, como se tudo
o que havia servisse-lhe de estorvo. Não amava mais as pessoas,
não sonhava com coisas bonitas, não conseguia ser
simpática com ninguém, não desejava ser. Apenas
vivia cada dia de sua vida como se fosse o ultimo, como se sua existência
estivesse fadada ao fim instantâneo. Estranho que isso não
tenha então acontecido. Alice sorria, tentando esconder nas
bordas de cada sorriso a tristeza que sufocava seu pequeno coração.
Escrevia. Era o que somente sabia fazer: poemas, versos sobre amor
e tristeza, sobre solidão. Naquela mesma tarde Alice se atirou
da janela junto dos poemas que tanto confidenciaram-lhe a revolta.
Alice chorou ao despedir-se dos pais, irmãos e namorado.
Procurava não pensar na reação de todos, apenas
deixava-se levar pelas circunstâncias. Se havia algo de errado
com ela, ninguém soube explicar; sabe-se apenas que sua morte
consiste não somente no fato de morrer, mas que fica na memória
de todos como uma brutal fatalidade. Deixou uma cartinha singela,
despedindo-se de todos. A carta dizia que sentiria saudades e que,
não importa o que acontecesse, estaria sempre perto. Se Alice
cumpriu tal promessa jamais souberam, sabe-se apenas que faz muita
falta e, que todos os anos, ao aproximar o natal, percebe-se sua
falta, e sua presença é finalmente lembrada. Irmãos
choram a ausência que Alice deixou como presente; os pais
jamais se perdoaram por não tê-la consolado; o namorado
ficou traumatizado e jamais se casou. O certo é que, como
pássaro, Alice arriscou um vôo. Seus poemas ainda vagam
pela avenida, inertes, ao chão. Poucos transeuntes os lêem.
Alice se foi... Alice atingiu os céus nas asas de um sonho.
Se voltou como prometera, não soube jamais alguém.
O certo é que sua imagem nunca terá fim, suas roupas
não desapareceram do armário, seus móveis não
deixaram o quarto, nem mesmo as cortinas abandonaram a janela que
dá para a avenida sob o sol que aparenta tardar a se pôr.
Alice, menina de sorriso cintilante, nos deixou a dois verões,
mas Papai Noel nenhum pôde trazê-la de volta.
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