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Glória Brandão
Itabuna / BA

Rua das Pedrinhas


Anita estava debruçada na janela observando a paisagem. Em frente da sua casa havia um jardim sempre movimentado .Pessoas indo, pessoas vindo e muitas que ali paravam para cumprimentar um conhecido ou simplesmente sentar e olhar pro nada. Engraçado, como é olhar pro nada? Acho que Anita está olhando pro nada. O vento balança as folhas das árvores e desalinha os cabelos claros de Anita. Ela nem se importa, ajeita o penteado com as mãos, sem nenhuma intenção, e o vento, como menino travesso, insiste na desarrumação. Olhar distante... Ela olha através das frestas das árvores e nem percebe os pombos em constante inquietação. Se meu tio Carlos estivesse vendo Anita à janela, certamente diria: " um real pelos seus pensamentos". Sempre que alguém está em silêncio olhando em uma só direção, tio Carlos repete essa mesma frase. O devaneio de Anita termina quando Dolores, a secretária do lar, se aproxima e bate de leve no ombro da moça dizendo: " Anita, telefone pra você". Anita se afasta da janela e vai até a saleta atender ao telefone. É Álvaro o seu noivo, convidando-a para jantar em um restaurante francês muito aconchegante. Oito horas da noite Anita e Álvaro chegam ao restaurante. O jantar transcorre tranqüilo e sem novidades, mas de repente Álvaro diz: "querida, eu, quero te dizer que encontrei a nossa casa. A casa que tanto sonhamos." Anita demonstra surpresa, já que eles estão de casamento marcado, todos os móveis já comprados e até o momento, não tinham a casa. Encontraram algumas, mas quando ela gostava, Álvaro desaprovava em algo e vice-versa. "Como ela é, tem quantos quartos, fica em qual rua...? É uma casa muito bonita, bem dividida, com um tamanho ótimo e tem árvores na frente e no quintal, diz Álvaro. A moça demonstra satisfação e decidem no dia seguinte irem juntos ver a tal casa. O resto da noite é de puro amor e contentamento para os pombinhos, já que a casa tão almejada, está praticamente comprada pelo entusiasmo de ambos.

Conforme o combinado, Anita saiu do colégio mais cedo e passou no hospital para pegar Álvaro. Foram para a Rua das Pedrinhas. A casa corresponde à aspiração de Anita. No mesmo dia efetuaram a compra, já que ambos estavam em comum acordo.

A rua tem esse nome porque há anos atrás, o então prefeito Alberto Cairo, mandou ladrilhar aquela rua com pedrinhas coloridas, tal qual a música. Conta-se, que o prefeito tinha uma filha de quinze anos, chamada Ana Clara. Moça muito meiga, que subia e descia a rua cantarolando a mesma cantiga. Sempre pedia ao pai para deixar a rua como a da música. O pai dizia não ser possível, porque que os eleitores iriam cobrar outras ruas com o mesmo calçamento, que iria ficar muito caro e etc. Só que Ana Clara foi passar umas férias no Rio de Janeiro e morreu afogada na praia de Ipanema. Em homenagem à sua filha, o prefeito mandou ladrilhar a antiga Rua Pitangueira com pedrinhas coloridas, conforme a música e o desejo da sua saudosa filha. A antiga rua foi renomeada de Rua das Pedrinhas. Moradores mais antigos dizem que em noites de lua cheia, Ana Clara vagueia pela rua subindo e descendo cantando essa cantiga:


" Nesta rua, nesta rua tem um bosque
Que se chama, que se chama solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração

Se eu roubei, se eu roubei teu coração
Tu roubaste, tu roubaste o meu também
Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque, é porque te quero bem.

Se esta rua, se esta rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Só pra ver, só pra ver meu bem passar."

Casa comprada. Chegou o dia do casamento. A família, os amigos, colegas de trabalho, todos compartilhando da alegria dos noivos. Viajaram em lua de mel por oito dias e voltaram felizes. Agora nova vida, nova casa e muito amor entre Anita e Álvaro. A vida de ambos voltou à rotina. Álvaro, jovem médico, muito feliz e comprometido com sua carreira. Cada dia com mais pacientes e mais compromissos, retornando para casa muito tarde. Anita voltou a sua rotina no colégio, mas por ensinar só pelo dia, sempre chegava em casa primeiro que seu marido.Uma certa noite, enquanto tomava banho, ouviu passos na sala e falou: " Álvaro, você chegou amor? Já estou saindo do banho". Para espanto de Anita, a sala estava silenciosa e ela sentiu um arrepio. Telefonou para o hospital e falou com seu marido, contou o que acontecera e pediu que ele voltasse logo, pois ela estava muito impressionada. Ele tratou de confortar sua esposa, dizendo que isso acontece com todas as pessoas e que ela devia estar pensando nele e que esquecesse essa bobagem. Anita não esqueceu. Nessa noite ela dormiu bem abraçada ao marido e acordou várias vezes no meio da madrugada.

Os dias se passaram e o ocorrido foi esquecido. Em uma noite de primavera, Anita e Álvaro estavam jantando com as janelas abertas, de forma que o frescor da noite entrava casa dentro, enquanto eles jantavam despreocupados. As luzes da casa abriam rasgões de claridade em meio ao jardim, e foi assim, que Álvaro pousou os talheres bruscamente no prato e olhou fixo na direção das árvores. Anita percebendo algo de errado com a inquietação do marido, perguntou o que estava acontecendo, o que ele estava vendo e ele relutou em lhe falar. Mais tarde, já deitados, ele disse que imaginou ver uma pessoa, um vestido, ou uma saia caminhar rapidamente por entre as árvores. Pronto, desse dia em diante o pavor de Anita aumentou. Resolveram contratar uma secretária do lar e combinaram que ela poderia morar com eles, já que a casa era grande e tinha quartos de sobra. Helena, era o nome da nova colaboradora de Anita. Moça, simpática, amiga e de confiança. Não demorou muito tempo e Anita já tratava Helena como se fosse da família.

O verão chegou. Fazia muito calor e todos os moradores daquela rua ficavam com suas janelas e alguns até com as portas abertas até tarde. Helena, lá no seu quarto tinha o hábito de ficar lendo revistas até tarde e rabiscando o nome dos familiares e do namorado que ficou lá no interior. E numa dessas noites ela saiu do seu quarto gritando muito e indo esmurrar a porta do quarto de Anita e Álvaro. Quando eles levantaram assustados, ao abrir a porta a coitada caíra desmaiada. Reanimada, não queria contar o ocorrido. Álvaro por ser médico lhe deu um calmante e Helena dormiu com Anita nessa noite. No outro dia, mais calma contou o ocorrido, disse que enquanto folheava sua revista, uma moça debruçou na janela e com uma voz muito doce começou a cantar: "nesta rua, nesta rua tem um bosque, que se chama, que se chama solidão..." e saiu saltitante por entre as árvores e sumiu de repente. Helena, afirmou que era alma penada. E que não ficava mais naquela casa, pois não foi a primeira vez que percebeu algo de estranho. Ela contou que em outro dia, enquanto cuidava do almoço, ouviu aquela mesma cantiga e que veio até a sala e não tinha ninguém. No mesmo dia os três foram para a casa dos pais de Anita em frente ao jardim, onde Anita antigamente ficava em longos devaneios. Isso aconteceu há alguns anos. As pessoas dizem que Ana Clara continua a cantarolar entre aquelas árvores. Quanto a casa na Rua das Pedrinhas, até hoje tem uma placa já desbotada pelo tempo: VENDE-SE ESSA CASA.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008