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Rua das Pedrinhas
Conforme
o combinado, Anita saiu do colégio mais cedo e passou no
hospital para pegar Álvaro. Foram para a Rua das Pedrinhas.
A casa corresponde à aspiração de Anita. No
mesmo dia efetuaram a compra, já que ambos estavam em comum
acordo. A rua
tem esse nome porque há anos atrás, o então
prefeito Alberto Cairo, mandou ladrilhar aquela rua com pedrinhas
coloridas, tal qual a música. Conta-se, que o prefeito tinha
uma filha de quinze anos, chamada Ana Clara. Moça muito meiga,
que subia e descia a rua cantarolando a mesma cantiga. Sempre pedia
ao pai para deixar a rua como a da música. O pai dizia não
ser possível, porque que os eleitores iriam cobrar outras
ruas com o mesmo calçamento, que iria ficar muito caro e
etc. Só que Ana Clara foi passar umas férias no Rio
de Janeiro e morreu afogada na praia de Ipanema. Em homenagem à
sua filha, o prefeito mandou ladrilhar a antiga Rua Pitangueira
com pedrinhas coloridas, conforme a música e o desejo da
sua saudosa filha. A antiga rua foi renomeada de Rua das Pedrinhas.
Moradores mais antigos dizem que em noites de lua cheia, Ana Clara
vagueia pela rua subindo e descendo cantando essa cantiga:
Se eu roubei,
se eu roubei teu coração Se esta rua,
se esta rua fosse minha Casa
comprada. Chegou o dia do casamento. A família, os amigos,
colegas de trabalho, todos compartilhando da alegria dos noivos.
Viajaram em lua de mel por oito dias e voltaram felizes. Agora nova
vida, nova casa e muito amor entre Anita e Álvaro. A vida
de ambos voltou à rotina. Álvaro, jovem médico,
muito feliz e comprometido com sua carreira. Cada dia com mais pacientes
e mais compromissos, retornando para casa muito tarde. Anita voltou
a sua rotina no colégio, mas por ensinar só pelo dia,
sempre chegava em casa primeiro que seu marido.Uma certa noite,
enquanto tomava banho, ouviu passos na sala e falou: " Álvaro,
você chegou amor? Já estou saindo do banho". Para
espanto de Anita, a sala estava silenciosa e ela sentiu um arrepio.
Telefonou para o hospital e falou com seu marido, contou o que acontecera
e pediu que ele voltasse logo, pois ela estava muito impressionada.
Ele tratou de confortar sua esposa, dizendo que isso acontece com
todas as pessoas e que ela devia estar pensando nele e que esquecesse
essa bobagem. Anita não esqueceu. Nessa noite ela dormiu
bem abraçada ao marido e acordou várias vezes no meio
da madrugada. Os
dias se passaram e o ocorrido foi esquecido. Em uma noite de primavera,
Anita e Álvaro estavam jantando com as janelas abertas, de
forma que o frescor da noite entrava casa dentro, enquanto eles
jantavam despreocupados. As luzes da casa abriam rasgões
de claridade em meio ao jardim, e foi assim, que Álvaro pousou
os talheres bruscamente no prato e olhou fixo na direção
das árvores. Anita percebendo algo de errado com a inquietação
do marido, perguntou o que estava acontecendo, o que ele estava
vendo e ele relutou em lhe falar. Mais tarde, já deitados,
ele disse que imaginou ver uma pessoa, um vestido, ou uma saia caminhar
rapidamente por entre as árvores. Pronto, desse dia em diante
o pavor de Anita aumentou. Resolveram contratar uma secretária
do lar e combinaram que ela poderia morar com eles, já que
a casa era grande e tinha quartos de sobra. Helena, era o nome da
nova colaboradora de Anita. Moça, simpática, amiga
e de confiança. Não demorou muito tempo e Anita já
tratava Helena como se fosse da família. O
verão chegou. Fazia muito calor e todos os moradores daquela
rua ficavam com suas janelas e alguns até com as portas abertas
até tarde. Helena, lá no seu quarto tinha o hábito
de ficar lendo revistas até tarde e rabiscando o nome dos
familiares e do namorado que ficou lá no interior. E numa
dessas noites ela saiu do seu quarto gritando muito e indo esmurrar
a porta do quarto de Anita e Álvaro. Quando eles levantaram
assustados, ao abrir a porta a coitada caíra desmaiada. Reanimada,
não queria contar o ocorrido. Álvaro por ser médico
lhe deu um calmante e Helena dormiu com Anita nessa noite. No outro
dia, mais calma contou o ocorrido, disse que enquanto folheava sua
revista, uma moça debruçou na janela e com uma voz
muito doce começou a cantar: "nesta rua, nesta rua tem
um bosque, que se chama, que se chama solidão..." e
saiu saltitante por entre as árvores e sumiu de repente.
Helena, afirmou que era alma penada. E que não ficava mais
naquela casa, pois não foi a primeira vez que percebeu algo
de estranho. Ela contou que em outro dia, enquanto cuidava do almoço,
ouviu aquela mesma cantiga e que veio até a sala e não
tinha ninguém. No mesmo dia os três foram para a casa
dos pais de Anita em frente ao jardim, onde Anita antigamente ficava
em longos devaneios. Isso aconteceu há alguns anos. As pessoas
dizem que Ana Clara continua a cantarolar entre aquelas árvores.
Quanto a casa na Rua das Pedrinhas, até hoje tem uma placa
já desbotada pelo tempo: VENDE-SE ESSA CASA. |
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| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |