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Nathalia da Cruz Wigg
Rio de Janeiro / RJ

Desafio ao tempo


Só desafia o tempo quem não confia na vida...

20 de julho de 1978...

Lara Springmann estava debruçada no parapeito da janela em sua casa localizada na cidade de Aveiro (Portugal). O caldo da laranja escorria pelos poros do queixo da rapariga. O verão radiava escarlate de tão vivo. Ela observava o horizonte. Procurava, sem mergulhar, algo lá no fundo do mar. Sua visão parecia dispersa. As árvores dançavam junto à brisa que a acariciava no rosto.

A noite foi chegando de mansinho, seduzindo lentamente o sol, lhe oferecendo abrigo por cima do seu toldo negro. Lara apreciava com sã cumplicidade as teias do tempo. Desejava escalar a ampulheta de Cronus, sem afogar-se na areia movediça. Então surgiu uma idéia que poderia transformar o mundo...

Decidiu criar uma obra de arte que de tão sublime pudesse entorpecer o deus do tempo. O grande objetivo era fazer com que Cronus se aposentasse o quanto antes! E assim Lara Springmann deu início a uma longa empreitada...

Há alguns anos, sobre a tela de um quadro, tentou retratar os seus pais verdadeiros, mas faltou imaginação (ela não sabia quem eram as pessoas que a puseram no mundo. Foi abandonada, com poucos dias de vida, num orfanato). Depois desse episódio, resolveu parar de pincelar, porque além de ficar desestimulada com a falta de êxito no trabalho, percebeu também que os pais adotivos não conseguiam esconder a tristeza com a vã tentativa.

A mãe que a criou realmente transcendeu laços consangüíneos. Dona Judite foi mãe de alma e isto já dispensava qualquer comentário. Muito preocupada com a educação e cultura da filha, ela matriculou Lara, ainda pequena, numa escola de artes plásticas para crianças.

Springmann tornou-se uma adulta de grandes virtudes e com o talento aprimorado, mas tinha muito medo da velocidade do tempo. E percebia que muitas pessoas eram exatamente como ela nesse quesito. Então surgiu a grande idéia de criar a obra mais sublime de todas a fim de entorpecer Cronus e o driblar.

Durante cinco anos, ela usou toda a sua genialidade para produzir a obra mais inovadora do planeta. Todos estranharam o comportamento obsessivo de Springmann, pois ela não fazia outra coisa da vida.

Construiu um salão no extenso terreno da casa em que morava. Tudo completamente adaptado ao seu projeto. Encomendou uma tela gigante, comprou as melhores tintas e pincéis que existem, fez combinações inéditas com cores para encantar a visão de qualquer mortal e imortal; comprou óleos essenciais aromáticos, álcool e água a fim de produzir uma fragrância jamais sentida pelos homens; construiu um estúdio de gravação ao lado do salão a fim de produzir a melhor e mais excêntrica melodia do mundo.

Foi um trabalho quase integral. Demorou cinco anos para produzir uma tela a óleo de 40m x 40m com as cores mais exóticas do planeta, que estampavam uma mulher belíssima saindo do crepúsculo. A pintura era cintilante e as cores chegavam a ofuscar. Springmann banhou o tecido da tela com uma fragrância inédita que entorpecia qualquer pessoa a quilômetros de distância. Comprou um equipamento de som que era capaz de chegar a 150 decibéis (um volume tão estrondoso quanto à decolagem de um avião a jato), compôs a mais bela letra de música e a mais entorpecente sinfonia.

A inovadora obra de arte estava pronta. Após cinco anos Lara Springmann já tinha emagrecido 20 Kg (estava magra como um faquir) e possuía olheiras profundas. No entanto, criou a obra mais surreal de todos os tempos.

Ela levou o monumento, acompanhado da aparelhagem de som, para o centro da cidade onde morava. A notícia do projeto outrora se espalhou e a imprensa de vários países já estava alerta. Entre expor o quadro gigante e ligar a aparelhagem de som, inúmeras pessoas já tinham se aglomerado. A população aguardava ansiosa para ver o maior evento de todos os tempos.

Springmann utilizou uma ferramenta de sua patente que propagava o olor da fragrância que criara. Com a ajuda apropriada, pôs o gigantesco quadro na vertical, ligou o som, intitulou a obra de "Desafio ao Tempo" e invocou Cronus.

Algo surpreendente aconteceu! O mundo ficou entorpecido. Repórteres que se encontravam no local filmavam tudo, mesmo embriagados. Os telespectadores de várias emissoras, que assistiam ao espetáculo, também transcenderam em suas casas. O poder visual, auditivo e olfativo que a obra emitia, ultrapassou as barreiras da tecnologia. Nenhum estudo fisiológico era capaz de explicar o efeito que o "Desafio ao Tempo" causava nos humanos.

Um raio cruzou o céu e Cronus resolveu aparecer! O torpor cessou... Todos já estavam absolutamente sãos e pasmados ao se depararem com o Deus do tempo. O mundo calou! Cronus olhou para Springmann e lhe disse que o seu pedido seria atendido. Então decretou que a partir daquele momento largaria o seu ofício.

O tempo parou eternamente! Eternamente 23h. Eternamente noite. Eternamente domingo. Eternamente uma lembrança fugaz... Sem o tempo, o passado e o futuro foram banidos, e Cronus levou com ele as recordações de todas as pessoas. O mundo se tornou uma máquina vazia. A vida se tornava eternamente oca.

Porém Springmann foi a única pessoa que teve a memória intacta. A sua consciência transformara-se no seu maior juiz. Lara Springmann nunca mais poderia encontrar os pais verdadeiros, pois não existia mais ninguém no mundo que possuía o tempo passado na mente.

A genial artista estava repleta de sentimentos que se perdiam no vazio de cada indivíduo para qual ela direcionava o olhar. Pobre Springmann... Seus pais adotivos já não lembravam mais dela; mesmo com todo amor, sem o Tempo, não podiam agarrar as lembranças que se dissipavam entre os dedos. Sem o Tempo, as camélias da vida perderam a magia... Sem o Tempo o "Desafio a Cronus" perdeu o sentido...

Mas ela pensou: "Se ainda me restam as lembranças, Cronus não foi embora totalmente. Ele não se aposentou! Ainda rege em mim. Talvez a chave do tempo esteja comigo."

Então Springmann pegou álcool e jogou na fenomenal obra de arte. Depois, pôs fogo em seu trabalho... Um trabalho de cinco anos incinerava ali, bem na sua frente, alumiando as olheiras e o corpo cansado.

Cronus surgiu das cinzas da obra que, outrora, foi um desafio a ele, e disse perdoar a arrogância de Springmann, concedendo a ela uma nova chance. Ele proferiu:

"Jamais abandonaria seus irmãos. A única pessoa alucinada aqui é você mesma. Para todos os homens o mundo é o mesmo. Mas por você ter deixado a prepotência e a vaidade terem lhe cegado no caminho da sabedoria, eu precisei puni-la usando a sua própria consciência. Eu, o Tempo, lhe cedi os talentos e você os usou contra mim. Você gastou uma energia absurda com algo que em nada lhe acrescentou, e investiu contra mim em vez de investir em você. Acabou por dispersar os seus conhecimento."

Com a nova chance outorgada a Lara Springmann, ela percebeu que o Tempo sempre foi um grande amigo e que o homem tem o próprio encéfalo como pior inimigo. Ela compreendeu que quem criou os relógios foi o homem e não Cronus. O homem criou as divisões "passado, presente e futuro". O bicho homem que fragmentou a unidade do tempo. Springmann descobriu que Cronus é o dia, a tarde e a noite. É a terra, o mar, o fogo, o céu, os pássaros a cantar na alvorada... Ele é a natureza UNA... É a vida, a sabedoria, o amor e os sonhos. O Tempo é o Pai regendo a alma do mundo.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008