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Desafio ao tempo
20
de julho de 1978... Lara
Springmann estava debruçada no parapeito da janela em sua casa
localizada na cidade de Aveiro (Portugal). O caldo da laranja escorria
pelos poros do queixo da rapariga. O verão radiava escarlate
de tão vivo. Ela observava o horizonte. Procurava, sem mergulhar,
algo lá no fundo do mar. Sua visão parecia dispersa.
As árvores dançavam junto à brisa que a acariciava
no rosto. A
noite foi chegando de mansinho, seduzindo lentamente o sol, lhe oferecendo
abrigo por cima do seu toldo negro. Lara apreciava com sã cumplicidade
as teias do tempo. Desejava escalar a ampulheta de Cronus, sem afogar-se
na areia movediça. Então surgiu uma idéia que
poderia transformar o mundo... Decidiu
criar uma obra de arte que de tão sublime pudesse entorpecer
o deus do tempo. O grande objetivo era fazer com que Cronus se aposentasse
o quanto antes! E assim Lara Springmann deu início a uma longa
empreitada... Há
alguns anos, sobre a tela de um quadro, tentou retratar os seus pais
verdadeiros, mas faltou imaginação (ela não sabia
quem eram as pessoas que a puseram no mundo. Foi abandonada, com poucos
dias de vida, num orfanato). Depois desse episódio, resolveu
parar de pincelar, porque além de ficar desestimulada com a
falta de êxito no trabalho, percebeu também que os pais
adotivos não conseguiam esconder a tristeza com a vã
tentativa. A
mãe que a criou realmente transcendeu laços consangüíneos.
Dona Judite foi mãe de alma e isto já dispensava qualquer
comentário. Muito preocupada com a educação e
cultura da filha, ela matriculou Lara, ainda pequena, numa escola
de artes plásticas para crianças. Springmann
tornou-se uma adulta de grandes virtudes e com o talento aprimorado,
mas tinha muito medo da velocidade do tempo. E percebia que muitas
pessoas eram exatamente como ela nesse quesito. Então surgiu
a grande idéia de criar a obra mais sublime de todas a fim
de entorpecer Cronus e o driblar. Durante
cinco anos, ela usou toda a sua genialidade para produzir a obra mais
inovadora do planeta. Todos estranharam o comportamento obsessivo
de Springmann, pois ela não fazia outra coisa da vida. Construiu
um salão no extenso terreno da casa em que morava. Tudo completamente
adaptado ao seu projeto. Encomendou uma tela gigante, comprou as melhores
tintas e pincéis que existem, fez combinações
inéditas com cores para encantar a visão de qualquer
mortal e imortal; comprou óleos essenciais aromáticos,
álcool e água a fim de produzir uma fragrância
jamais sentida pelos homens; construiu um estúdio de gravação
ao lado do salão a fim de produzir a melhor e mais excêntrica
melodia do mundo. Foi
um trabalho quase integral. Demorou cinco anos para produzir uma tela
a óleo de 40m x 40m com as cores mais exóticas do planeta,
que estampavam uma mulher belíssima saindo do crepúsculo.
A pintura era cintilante e as cores chegavam a ofuscar. Springmann
banhou o tecido da tela com uma fragrância inédita que
entorpecia qualquer pessoa a quilômetros de distância.
Comprou um equipamento de som que era capaz de chegar a 150 decibéis
(um volume tão estrondoso quanto à decolagem de um avião
a jato), compôs a mais bela letra de música e a mais
entorpecente sinfonia. A
inovadora obra de arte estava pronta. Após cinco anos Lara
Springmann já tinha emagrecido 20 Kg (estava magra como um
faquir) e possuía olheiras profundas. No entanto, criou a obra
mais surreal de todos os tempos. Ela
levou o monumento, acompanhado da aparelhagem de som, para o centro
da cidade onde morava. A notícia do projeto outrora se espalhou
e a imprensa de vários países já estava alerta.
Entre expor o quadro gigante e ligar a aparelhagem de som, inúmeras
pessoas já tinham se aglomerado. A população
aguardava ansiosa para ver o maior evento de todos os tempos. Springmann
utilizou uma ferramenta de sua patente que propagava o olor da fragrância
que criara. Com a ajuda apropriada, pôs o gigantesco quadro
na vertical, ligou o som, intitulou a obra de "Desafio ao Tempo"
e invocou Cronus. Algo
surpreendente aconteceu! O mundo ficou entorpecido. Repórteres
que se encontravam no local filmavam tudo, mesmo embriagados. Os telespectadores
de várias emissoras, que assistiam ao espetáculo, também
transcenderam em suas casas. O poder visual, auditivo e olfativo que
a obra emitia, ultrapassou as barreiras da tecnologia. Nenhum estudo
fisiológico era capaz de explicar o efeito que o "Desafio
ao Tempo" causava nos humanos. Um
raio cruzou o céu e Cronus resolveu aparecer! O torpor cessou...
Todos já estavam absolutamente sãos e pasmados ao se
depararem com o Deus do tempo. O mundo calou! Cronus olhou para Springmann
e lhe disse que o seu pedido seria atendido. Então decretou
que a partir daquele momento largaria o seu ofício. O
tempo parou eternamente! Eternamente 23h. Eternamente noite. Eternamente
domingo. Eternamente uma lembrança fugaz... Sem o tempo, o
passado e o futuro foram banidos, e Cronus levou com ele as recordações
de todas as pessoas. O mundo se tornou uma máquina vazia. A
vida se tornava eternamente oca. Porém
Springmann foi a única pessoa que teve a memória intacta.
A sua consciência transformara-se no seu maior juiz. Lara Springmann
nunca mais poderia encontrar os pais verdadeiros, pois não
existia mais ninguém no mundo que possuía o tempo passado
na mente. A
genial artista estava repleta de sentimentos que se perdiam no vazio
de cada indivíduo para qual ela direcionava o olhar. Pobre
Springmann... Seus pais adotivos já não lembravam mais
dela; mesmo com todo amor, sem o Tempo, não podiam agarrar
as lembranças que se dissipavam entre os dedos. Sem o Tempo,
as camélias da vida perderam a magia... Sem o Tempo o "Desafio
a Cronus" perdeu o sentido... Mas
ela pensou: "Se ainda me restam as lembranças, Cronus
não foi embora totalmente. Ele não se aposentou! Ainda
rege em mim. Talvez a chave do tempo esteja comigo." Então
Springmann pegou álcool e jogou na fenomenal obra de arte.
Depois, pôs fogo em seu trabalho... Um trabalho de cinco anos
incinerava ali, bem na sua frente, alumiando as olheiras e o corpo
cansado. Cronus
surgiu das cinzas da obra que, outrora, foi um desafio a ele, e disse
perdoar a arrogância de Springmann, concedendo a ela uma nova
chance. Ele proferiu: "Jamais
abandonaria seus irmãos. A única pessoa alucinada aqui
é você mesma. Para todos os homens o mundo é o
mesmo. Mas por você ter deixado a prepotência e a vaidade
terem lhe cegado no caminho da sabedoria, eu precisei puni-la usando
a sua própria consciência. Eu, o Tempo, lhe cedi os talentos
e você os usou contra mim. Você gastou uma energia absurda
com algo que em nada lhe acrescentou, e investiu contra mim em vez
de investir em você. Acabou por dispersar os seus conhecimento." Com
a nova chance outorgada a Lara Springmann, ela percebeu que o Tempo
sempre foi um grande amigo e que o homem tem o próprio encéfalo
como pior inimigo. Ela compreendeu que quem criou os relógios
foi o homem e não Cronus. O homem criou as divisões
"passado, presente e futuro". O bicho homem que fragmentou
a unidade do tempo. Springmann descobriu que Cronus é o dia,
a tarde e a noite. É a terra, o mar, o fogo, o céu,
os pássaros a cantar na alvorada... Ele é a natureza
UNA... É a vida, a sabedoria, o amor e os sonhos. O Tempo é
o Pai regendo a alma do mundo. |
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| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |