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O mar está pra peixe, feliz Ano Novo! Talvez os únicos contrariados a todo o evidente burburinho
fossem somente os ancestrais dos indígenas nos sítios
arqueológicos, existentes nesse perímetro da praia,
catalogados e já estudados, mas desprotegidos pelo governo.
Tive o sentimento que suas almas pairavam sobre suas covas, cavadas
nos sambaquis de areia, assistindo a sua última morada sendo
profanada. Mas voltando à festa; pois o espetáculo era... Espetacular! Logo me ambientei, não podia ser diferente, afinal era reveillon,
a primeira grande festa do ano. Desci as escadas do deck, atravessei com dificuldade a areia entre
as pessoas, em grupos adorando os orixás, abraçados,
casais de lábios colados em longos beijos, até que consegui
aproximar-me da água, morna e mansa. Deixei que as leves ondas
molhassem meus pés, dizem que é bom no primeiro dia
do ano. Ali, parado, fiquei observando o mar enfeitado por muitas
flores brancas entremeadas com amarelas, vermelhas e rosas. Cada cor
representando uma direção, agradecimento, um pedido,
um desejo. Flores jogadas em oferenda a Grande Mãe D'Água
que também agradecida mantinha-as no marulhar das ondas, num
efeito misterioso e bonito de se ver. Subitamente, trazidos por uma onda um pouco mais forte, fui surpreendido,
saltitando aos meus pés, um enorme cardume. Pequenos peixes
prateados davam a ilusão de que a areia estava em movimento.
Ajudado pela criançada que fizeram a maior farra, consegui
devolve-los todos para o mar, vivos. Instintivamente, olhei novamente para o meu relógio, eram
cinco e tal. Os minutos e os segundos ficaram fora do meu foco de
visão, turvo pelo gás, matéria volátil
desprendida do líquido dourado que havia na minha garrafa,
e que pendente, jazia clara, translúcida e vazia juntamente
com meu braço adormecido. Só
ficou a certeza de uma coisa: Dizem que peixe é sinal de fartura,
e eles vieram a mim no primeiro dia. Devolvi-os ao habitat porque
quero sim, fartura. Mas uma fartura viva, para mim e para todos. |
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| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |