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José Silveira
Niterói / RJ

O mar está pra peixe, feliz Ano Novo!


Zero hora, três minutos, quinze segundos. Acabara de consultar o meu relógio de pulso no primeiro dia do ano de uma madrugada quente e céu estrelado. Ainda ouviam-se os estrondos dos fogos de artifícios vindos do outro lado da baía, em Copacabana, sons bem próximos a tiros distantes de uma artilharia de obuses. E bem ouvidos daqui, das praias de Niterói, de onde se tem a melhor vista do litoral sul da cidade do Rio de Janeiro.

Talvez os únicos contrariados a todo o evidente burburinho fossem somente os ancestrais dos indígenas nos sítios arqueológicos, existentes nesse perímetro da praia, catalogados e já estudados, mas desprotegidos pelo governo. Tive o sentimento que suas almas pairavam sobre suas covas, cavadas nos sambaquis de areia, assistindo a sua última morada sendo profanada.

Mas voltando à festa; pois o espetáculo era... Espetacular!

Logo me ambientei, não podia ser diferente, afinal era reveillon, a primeira grande festa do ano.

Desci as escadas do deck, atravessei com dificuldade a areia entre as pessoas, em grupos adorando os orixás, abraçados, casais de lábios colados em longos beijos, até que consegui aproximar-me da água, morna e mansa. Deixei que as leves ondas molhassem meus pés, dizem que é bom no primeiro dia do ano. Ali, parado, fiquei observando o mar enfeitado por muitas flores brancas entremeadas com amarelas, vermelhas e rosas. Cada cor representando uma direção, agradecimento, um pedido, um desejo. Flores jogadas em oferenda a Grande Mãe D'Água que também agradecida mantinha-as no marulhar das ondas, num efeito misterioso e bonito de se ver.

Subitamente, trazidos por uma onda um pouco mais forte, fui surpreendido, saltitando aos meus pés, um enorme cardume. Pequenos peixes prateados davam a ilusão de que a areia estava em movimento. Ajudado pela criançada que fizeram a maior farra, consegui devolve-los todos para o mar, vivos.

Instintivamente, olhei novamente para o meu relógio, eram cinco e tal. Os minutos e os segundos ficaram fora do meu foco de visão, turvo pelo gás, matéria volátil desprendida do líquido dourado que havia na minha garrafa, e que pendente, jazia clara, translúcida e vazia juntamente com meu braço adormecido.

Só ficou a certeza de uma coisa: Dizem que peixe é sinal de fartura, e eles vieram a mim no primeiro dia. Devolvi-os ao habitat porque quero sim, fartura. Mas uma fartura viva, para mim e para todos.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008