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Um café com Clarice Marcamos um encontro aqui nesse Café. Um lugar
onde se bebe e se come o início da vida . O Café que
abre suas portas como quem se abre para um dia de festa, de encontros
e, quem sabe, de desencontros. Os que não virão para cá andam
de um lado para o outro, carregando pastas pretas e montes de papéis
que decidirão o destino de muitos. Ou já decidiram.
Os carros apressados quase se enfrentam nos cruzamentos. Clarice está atrasada, vim aqui para mostrar
meu último trabalho - A beleza das horas - e não entendo
a razão do seu atraso. Sempre tão pontual, nada avisou.
Deve estar mal-humorada, quem sabe perdeu a hora ou decidiu deixar
para depois essa nossa troca de idéias. Clarice não
é pessoa que se conheça a fundo. Um homem quase jovem se aproxima de mim. Senta-se
ao meu lado e abre um jornal sobre a mesa. Muito à vontade,
querendo atenção, aponta-me com o dedo uma notícia
perdida entre outras de economia. Mal dá para enxergar o que
está escrito, dá para ver seu olhar triste e seus olhos
mareados. Trago o jornal para mais perto de mim e não acredito
no que leio. Ah! Não pode ser! Quem teria tido a insensatez
de fazer isso? Não tenho resposta, apenas um medo implacável
me imobiliza e me leva à descrença absoluta, ao tédio
e, finalmente, ao choro fértil. Era como se em nossas palavras estivesse a salvação
do mundo, a libertação do homem de suas angústias,
de suas amarras, como se nós naqueles momentos não as
tivéssemos. E ainda hoje me pergunto: será que as tínhamos?
É que nesse gesto simples de escrever construíamos nosso
paraíso. Onde está você, Clarice? Tornei a perguntar
com meus olhos e com meu coração ansioso por uma resposta.
Por que fez questão de ir embora assim, sem avisar, já
não bastava ter vivido num tempo que não era o meu?
O que faço agora com esses papéis que trouxe para você?
Grito, sinto uma dor imensa, olho ao redor, nada acontece.
O homem que me trouxe o jornal, como que por encanto desepareceu.
Onde estou? Que Café é esse, que manhã é
essa que não se anuncia? Ainda ontem as ilusões eram doces, falávamos
que a vida vem e vai, vai e vem, que a vida é luta, mas é
uma taça de vinho erguida à vitória de algum
amor. Dor e calor, pedra e afago; a vida uma mistura das horas belas
e cruéis. E eu? Em que beleza das horas estaria? Eu bem que avisei. Pedi para não se esquecerem
que o tempo é breve, que o amor é grande e que o mesmo
caminho de ida também percorremos na volta. Que hora é essa em que me foge a dádiva
da compreensão ? Por que estou só nessa chuva fria e
fina que cai sobre o meu corpo e não mata minha sede? Há pouco fazia sol, o vento era morno. Não
há ninguém na rua, parece que o mundo acabou. Onde estou? Os ipês amarelos e as acácias eram suas
preferidas. Os meus, os ipês roxos que florescem no mês
de agosto. Onze de agosto, um dia que veio ao meu encontro para depois
partir, como Clarice, sem me avisar. Um menino de cabelos espigados me traz um Café
e eu simplesmente fico a contemplar a fumaça que sai daquela
xícara. Bebo o café com os olhos, como se a vida estivesse
ali, sozinha, indo embora para longe. As ruas continuam desertas, jogo tudo que escrevi
no chão. Pago pelo café que não pedi, me levanto
e tento seguir em frente, ouço alguém me chamar, não
é a mim. Despeço-me de Clarice docemente. Se Clarice sabia que não viria, por que não
me avisou que iria morrer? Clarice, Clarice, outra vez Clarice. Por que você
não me esperou? |
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| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |