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Maria Inês Penha Rocha
Sertãozinho / SP

Um café com Clarice


São dez horas da manhã e Clarice não aparece. A manhã é de um azul inebriante, um vento quase morno assobia manso.

Marcamos um encontro aqui nesse Café. Um lugar onde se bebe e se come o início da vida . O Café que abre suas portas como quem se abre para um dia de festa, de encontros e, quem sabe, de desencontros.

Os que não virão para cá andam de um lado para o outro, carregando pastas pretas e montes de papéis que decidirão o destino de muitos. Ou já decidiram. Os carros apressados quase se enfrentam nos cruzamentos.

Clarice está atrasada, vim aqui para mostrar meu último trabalho - A beleza das horas - e não entendo a razão do seu atraso. Sempre tão pontual, nada avisou. Deve estar mal-humorada, quem sabe perdeu a hora ou decidiu deixar para depois essa nossa troca de idéias. Clarice não é pessoa que se conheça a fundo.

Um homem quase jovem se aproxima de mim. Senta-se ao meu lado e abre um jornal sobre a mesa. Muito à vontade, querendo atenção, aponta-me com o dedo uma notícia perdida entre outras de economia. Mal dá para enxergar o que está escrito, dá para ver seu olhar triste e seus olhos mareados. Trago o jornal para mais perto de mim e não acredito no que leio. Ah! Não pode ser! Quem teria tido a insensatez de fazer isso? Não tenho resposta, apenas um medo implacável me imobiliza e me leva à descrença absoluta, ao tédio e, finalmente, ao choro fértil.

Fico parada na solidão desse momento que será eterno. Das horas, que não são belas. Ela não veio ao meu encontro ou não quis esperar por mim? Por que teria feito isso se gostávamos tanto de conversar, saboreando um café meio amargo entre histórias e mais histórias?

Era como se em nossas palavras estivesse a salvação do mundo, a libertação do homem de suas angústias, de suas amarras, como se nós naqueles momentos não as tivéssemos. E ainda hoje me pergunto: será que as tínhamos? É que nesse gesto simples de escrever construíamos nosso paraíso.

Onde está você, Clarice? Tornei a perguntar com meus olhos e com meu coração ansioso por uma resposta. Por que fez questão de ir embora assim, sem avisar, já não bastava ter vivido num tempo que não era o meu? O que faço agora com esses papéis que trouxe para você?

Grito, sinto uma dor imensa, olho ao redor, nada acontece. O homem que me trouxe o jornal, como que por encanto desepareceu. Onde estou? Que Café é esse, que manhã é essa que não se anuncia?

Ainda ontem as ilusões eram doces, falávamos que a vida vem e vai, vai e vem, que a vida é luta, mas é uma taça de vinho erguida à vitória de algum amor. Dor e calor, pedra e afago; a vida uma mistura das horas belas e cruéis. E eu? Em que beleza das horas estaria?

Eu bem que avisei. Pedi para não se esquecerem que o tempo é breve, que o amor é grande e que o mesmo caminho de ida também percorremos na volta.

Que hora é essa em que me foge a dádiva da compreensão ? Por que estou só nessa chuva fria e fina que cai sobre o meu corpo e não mata minha sede?

Há pouco fazia sol, o vento era morno. Não há ninguém na rua, parece que o mundo acabou. Onde estou?

Por que eu não pude ajudar Clarice a se livrar do fogo? Por que não segurei Pedro no meu colo para que ela pudesse escrever? Por que não aliviei a sua vida, roubando um pouco de sua agonia?

Os ipês amarelos e as acácias eram suas preferidas. Os meus, os ipês roxos que florescem no mês de agosto. Onze de agosto, um dia que veio ao meu encontro para depois partir, como Clarice, sem me avisar.

Um menino de cabelos espigados me traz um Café e eu simplesmente fico a contemplar a fumaça que sai daquela xícara. Bebo o café com os olhos, como se a vida estivesse ali, sozinha, indo embora para longe.

As ruas continuam desertas, jogo tudo que escrevi no chão. Pago pelo café que não pedi, me levanto e tento seguir em frente, ouço alguém me chamar, não é a mim. Despeço-me de Clarice docemente.

Se Clarice sabia que não viria, por que não me avisou que iria morrer?

Clarice, Clarice, outra vez Clarice. Por que você não me esperou?

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008