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Nancy Keiko Fujita
Recife / PE

Caos


Havia apenas um poste aceso.

O bairro mergulhado na escuridão do caos. Nem as estrelas ousavam brilhar.

Um negro gato espiava da quina do muro de concreto, seus olhos cinza-esverdeados faiscando assustadores. Um barulho qualquer o espantou, ele correu longe, perdeu-se no breu completo. Uma latinha de cerveja barata rolava pela calçada.

Nem o vento provocava sequer ruído audível; apenas contentava-se em espalhar as folhas secas e os papéis de propaganda pelo bairro afora, mergulhado no silêncio da noite. Um uivo de cão ouviu-se ao longe, misturou-se com o silêncio absoluto. Uma rã se escondeu entre o mato do terreno esquecido.

Todas as luzes estão apagadas. Nem uma janela, nem uma varanda iluminada. Não havia viv'alma pelas ruas. Estariam dormindo, pobres almas humanas? Ou se escondendo no vácuo, no nada? Com medo do silêncio, atordoante silêncio, absoluto silêncio de seus corações.

Não, eles não estão dormindo. Estão por aí, perdidos pela noite, embriagados de prazer e de sonhos. As luzes dos homens estão apagadas. Estão eles mergulhados no vazio, na escuridão, como o bairro, a cidade, o planeta, o universo. É pequeno o universo dos homens. Mas nele cabem todos os mistérios, todos os desejos dos homens.

Estará o universo dos homens mergulhado na escuridão total, absoluta, inatingível, como está o bairro mergulhado no caos? Estará o homem mergulhado no caos? O coração dos homens está vazio, cercado do mais profundo silêncio. O homem está perdido, à procura do brilho das estrelas de esperança em seu universo. Enquanto isso, os homens tentam esquecer seu destino enigmático, apagando a luz de sua alma, entregando-se à escuridão do caos da vida.

O negro gato volta à esquina do muro de concreto, acompanhado. Os miados se perdem pela imensidão da noite.

Apenas um poste iluminava o caos.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008