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Caos O bairro mergulhado
na escuridão do caos. Nem as estrelas ousavam brilhar. Um negro gato
espiava da quina do muro de concreto, seus olhos cinza-esverdeados
faiscando assustadores. Um barulho qualquer o espantou, ele correu
longe, perdeu-se no breu completo. Uma latinha de cerveja barata rolava
pela calçada. Nem o vento provocava
sequer ruído audível; apenas contentava-se em espalhar
as folhas secas e os papéis de propaganda pelo bairro afora,
mergulhado no silêncio da noite. Um uivo de cão ouviu-se
ao longe, misturou-se com o silêncio absoluto. Uma rã
se escondeu entre o mato do terreno esquecido. Todas as luzes
estão apagadas. Nem uma janela, nem uma varanda iluminada.
Não havia viv'alma pelas ruas. Estariam dormindo, pobres almas
humanas? Ou se escondendo no vácuo, no nada? Com medo do silêncio,
atordoante silêncio, absoluto silêncio de seus corações. Não, eles
não estão dormindo. Estão por aí, perdidos
pela noite, embriagados de prazer e de sonhos. As luzes dos homens
estão apagadas. Estão eles mergulhados no vazio, na
escuridão, como o bairro, a cidade, o planeta, o universo.
É pequeno o universo dos homens. Mas nele cabem todos os mistérios,
todos os desejos dos homens. Estará
o universo dos homens mergulhado na escuridão total, absoluta,
inatingível, como está o bairro mergulhado no caos?
Estará o homem mergulhado no caos? O coração
dos homens está vazio, cercado do mais profundo silêncio.
O homem está perdido, à procura do brilho das estrelas
de esperança em seu universo. Enquanto isso, os homens tentam
esquecer seu destino enigmático, apagando a luz de sua alma,
entregando-se à escuridão do caos da vida. O negro gato volta
à esquina do muro de concreto, acompanhado. Os miados se perdem
pela imensidão da noite. Apenas um poste
iluminava o caos. |
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| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |