![]() |
| Antologia
on line |
A fanfarra dos hipócritas Rita era uma
ruivinha muito simpática, risonha, carismática, comunicativa,
bem interessante; magra, 1,80 cm de altura, covinhas sardentas a pular
do rosto, saboneteiras imponentes abaixo do longo pescoço branquinho.
Pena padecer de terrível mal social; se comportava de maneira
bruta e racista contra pobres e negros. Tinha asco, por várias
vezes não conseguiu disfarçar perante os amigos da faculdade.
Falou algumas bobagens que não merecem ser repetidas e automaticamente
foi sendo evitada por boa parte da galera. Seguiu com a vida de sinhazinha
sem dar importância às opiniões alheias. Encalhou
convicta nos preconceitos ridículos. A "sinhazinha do
Leblon", diziam os conhecidos. Rita se formou
com louvor em Odontologia e seu pai, orgulhoso, tratou de presenteá-la
com um consultório completo! No Leblon mesmo, pertinho de casa.
Tempos depois conseguiu a total estabilidade financeira e comprou
sozinha seu apartamento próprio. No Leblon, também. Raramente atendia
pessoas de cor, como dizia. Achava que era por cobrar caro demais.
Dava graças aos céus por atender somente um público
tão seleto quanto ela. Agora a jovem
dentista já possuía tudo, só não tinha
muitos amigos, namorados, apesar de sua beleza, eram raríssimos.
O fato é que poucos agüentavam a postura possessiva e
mandona de Rita por mais que dois meses. Nas folgas, desistiu de sair,
preferia ficar em casa e pedir uma pizza portuguesa pelo telefone.
Depois abria uma cerveja estupidamente gelada e navegava pelos canais
da TV a cabo. Num desses sábados de pizza obrigatória,
notou pela primeira vez os braços fortes do entregador, era
outro com certeza, o de sempre não poderia ser era raquítico!
Olhou as pernas torneadas do rapaz mesmo pelo uniforme que lhe cobria
por inteiro. Dominou-se de um desejo voraz, ficou cega, sentiu-se
flutuando, só depois quando o queijo quente lhe tocou os pés
descalços, percebeu que estava espremendo o rapaz mulato de
contra a parede, sugando seus lábios como fruta madura. A pizza
jogada no chão, os corpos nervosos grudados um no outro, o
único entrave que impedia um contato mais íntimo era
a pochete verde limão com os ganhos da pizzaria. Rita arrancou
a pochete num só golpe e consumiu o entregador com apetite
maior do que teria com a pizza de sempre. Tratou-lhe à cuspes
e tapas e disse com as unhas fincadas em seus ombro que ele era seu
escravo que ele fedia a gordura e suor. Depois do furacão,
mandou o rapaz semi desmaiado ir embora às pressas, afirmou
ter tido um lapso e que ele marginalmente se aproveitara de tudo. Rita não
disse nada a ninguém. Continua atendendo sua clientela seleta
do mesmo consultório chique no Leblon, falando o dobro de tiradas
racistas. E segue pedindo pizza todos os sábados; só
mudou o sabor: afro-portuguesa. E os lapsos da sinhazinha do Leblon
ocorrem freqüentemente. PARTE II (Esse
Wallace não roubará) Wallace Margerinto
Diviclécio Neto, filho e neto de conhecidas figuras políticas
do interior de MG sofria desde sempre por coisas que nunca fez. Seu avô
ficara famoso por distribuir terras em épocas de eleição,
e ao empossar-se Prefeito, mandar seus capangas expulsarem as famílias,
ou cobrar aluguéis exorbitantes. Já seu pai adquiriu
fama ainda maior, por inaugurar escolas e hospitais que nunca existiram
e receber os repasses de verba do estado para mantê-los em funcionamento.
Jamais foram presos. Mas o garoto inocente era lembrado diariamente
no colégio e na rua como neto e filho de ladrões, um
ladrãozinho pra molecada fazer chacota e papagaiar o que dizíamos
pais. Wallace Neto chorava, e prometia mudar aquilo. Conforme foi
crescendo, a vontade de limpar o nome da família transformou-se
em objetivo e obsessão. Começava então a terceira
trajetória política dos Margerinto Diviclécio. Todos na cidade
receberam com estranheza a candidatura de Wallace neto à Prefeitura
de Alardeiras. Ninguém no lugar esqueceu dos outros Wallaces,
os mais antigos falavam sempre, pra marcar bem o nome, assim os mais
novos também não votariam em alguém daquela família.
Mas esse Wallace era diferente, logo conquistou a todos, até
mesmo quem já sofreu nas criminosas administrações
anteriores. “- Minha gente, o garoto pagou pelas falcatruas
dos outros a vida inteira! Vamos dar uma chance a esse Wallace de
mostrar que tem valor. Ele é um injustiçado, assim como
nós”. O povo foi seguindo
Wallace nos discursos, aplaudindo cada promessa, ninguém mais
duvidava; esse Wallace era diferente, um homem iluminado! Elegeram
novamente, por maioria esmagadora, outro Margerinto Diviclécio. Wallace
Neto não permaneceu por tanto tempo na Prefeitura como seu
avô, nem tão pouco como o pai. Oito anos, dois mandatos,
e tudo na cidade permaneceu igual, nem bom, nem ruim, nada de novo,
bem diferente do que o exaltado candidato pregava nos discursos; Avançar
e Evoluir! Meses após o fim do mandato, dez, pra ser exato,
veio à tona o envolvimento da Prefeitura de Alardeiras na gestão
Wallace Neto, em um articulado esquema de superfaturamento em obras
e merendas escolares, fora uma infindável lista de pequenas
fraudes. A Polícia Federal reuniu oito pastos grandes, repletas
de provas contundentes. Mas seguindo a tradição de família,
Wallace escapou ileso, não foi preso, e afirma com veemência
que foi vítima de armação da oposição.
Seu filho Wallace Neto II, já sofre nas ruas da cidade o preconceito
do povo. Mas quando crescer pretende mudar isso, e no dia em que se
eleger Prefeito, fará tudo que o bisavô, avô, e
o pai não fizeram. Mas... Será que esse Wallace é
diferente? Ou é a política que deixa todo mundo igual? |
| Volta Página Principal |
| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |