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Andreia Chaves Pedrosa
Manaus / AM

Os amantes


Era possível ouvir os passos fortes e rápidos avançando os degraus da escada. Pela janela, dava pra ver a chuva cair copiosamente, trazendo consigo a obscura névoa da noite. O medo pairava no ar de maneira mórbida. Dois nomes pouco visíveis haviam sido talhados na madeira da porta, única forma de sair daquele lugar.
De repente os passos cessaram e só vento tenebroso tentava entrar pela estreita janela. O corredor parecia vazio. O silêncio fazia barulho. Nenhuma palavra, nenhum movimento. Dois jovens apaixonados comprimiam-se e esforçavam-se para que nem suas respirações fossem ouvidas.
Era um amor proibido pelo amargo laço de um casamento forçado. Amantes descobertos pelo violento marido e seus capangas. Não havia mais segredo. Um ou dois morreriam naquela noite. Os olhares angustiados, os corpos trêmulos de pavor, mas felizes por ainda estarem juntos.
Tudo parecia tranqüilo. O que mais podiam fazer a não ser arriscar descer as escadas e, tentar se esconder em um dos cômodos daquela pensão. E foi isso que os amantes fizeram, arriscaram! Lentamente levantaram-se, deram um longo abraço, talvez de adeus. Abriram a porta e correram mais que podiam para lados opostos.
Sem olhar para trás, seus olhos embaçados de lágrimas, ele seguia. Correu até sua casa, apanhou algum dinheiro, levou consigo poucas mudas de roupa e seu fiel empregado. Rapidamente, pegou os documentos sobre a mesa e sem destino certo, fugiu!
Anos se passaram e nenhuma notícia de sua amada. Sua nova morada era em uma ilha, longe de tudo e de todos e, principalmente, escondido de sua própria covardia. Seu único amigo era aquele ancião empregado e os animais que apareciam em voltava da velha cabana que moravam.
Porém, os dias de tranqüilidade estavam chegando ao fim. Certa manhã sombria, o marido traído depois de muita busca o encontrou. Em meio a muita luta e discussão, ânimos alterados, o amante foi levado e junto com ele o seu empregado.
O lugar parecia deserto, muita lama, ruas estreitas, escuras e casebres acinzentados. O amante apanhado já não conseguia pensar em mais nada, a não se veria novamente o seu amor. Como um filme, a sua vida foi passando em sua mente, cada detalhe, até mesmo aquela lembrança por muito tempo esquecida fora lembrada.
Sentiu o seu corpo ser erguido, mãos o carregavam para um lugar desconhecido e, percebeu que aos poucos estava ficando sozinho. Dentro de uma saleta com a luz apenas de uma janela muito bem guardada por grades, ele encontrou no chão um pedaço de papel, um bilhete, com as seguintes palavras:
"Talvez esse sentimento já tenha se perdido...
Talvez esteja apenas esquecido!
Não sei por que ainda insisto em pensar...
Talvez, pelo simples fato de querer poder te encontrar e falar que:
Amava ouvir a tua voz chamar o meu nome,
Amava quando sorríamos juntos sem querer,
Amava quando cantávamos músicas imaginárias,
Amava nossas lembranças,
Aliás, amo saber que um dia você me amou...
E mesmo que não nos encontremos mais,
O nosso amor nos fará sempre companhia."
Por mais que ele quisesse se enganar, ele sabia que aquelas palavras, aquela letra era do seu amor e, que talvez a sua amada também estivesse ficado cativa naquele mesmo lugar. Não sabia ele se por sorte do destino ou pelas mãos de terceiros aquele bilhete estava lá, se para maltratá-lo por sua fuga covarde ou para mostrar que ambos teriam a mesma sina.
Ouviu vozes, escondeu o bilhete, fez um enorme esforço para se por de pé e teve seu rosto coberto por um capuz preto. Foi levado para um lugar onde o vento amenizava seu calor, mas não a dor de seus ferimentos. Quando o capuz lhe foi tirado viu pela última vez o rosto do seu empregado e, a sua última visão foi a de uma cabana rodeada por um pântano.
Fechou os olhos e se viu caminhar sem dor, sem medo, mas sem calor. Como se fosse levado por um forte vento, seus pés aos poucos foram sendo engolidos pelo tal pântano, que fora então, a sua última visão. Desesperado tentou gritar, mas de relance uma mão muito formosa e conhecida o puxou.
Era ela, a sua amada, com as mesmas vestes daquele último encontro. Seus olhos se encheram de lágrimas. Eles se olharam por um longo momento de pura saudade. Ela calmamente pegou as mãos de seu amante e colocou sobre o seu ventre e, aí ele descobriu que daquela tórrida paixão um fruto nasceria.
Ambos perceberam que já não havia mais tempo. O amante finalmente tinha encontrado a sua amada. Resgatou-a do lugar que há muito tempo a havia aprisionado. E assim, entre sorrisos envoltos de ternura, e mãos que se entrelaçavam curiosamente, os dois amantes sabiam que enfim poderiam viver seu grande amor, muito além das fronteiras do que se pode imaginar.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008