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Fernanda Reis Bastos
Juiz de Fora / MG

Conto sem título


Na calçada, havia um mendigo tocando flauta transversa, flautinha de bambu. Seu cabelo era sujo e encaracolado, mas a música acudia a visão. Fui buscá-lo em Ouro Preto. Nem sei que horas são, mas suplico um estado de dormência! Há uma nota única, zunindo e crescendo, que não corresponde a consolo algum. Agora, estamos somente eu e o flautista de rua, trocando confidências mudas. Ele dá um suspiro e retira outra flauta - menor - de dentro do cesto. Faço um gesto contido e cala tudo. A presença de um quê maior, livre no absurdo, era você, rompendo os limites do antes infalível. Ali, na Rua Direita, chega uma festa em procissão (trouxeram ajuda). Retirou-se o mendigo da flauta, mórbido, incapaz. Capaz de engolir o segredo. Aceito. Caminhei só, recusei auxílio. Café, não, ponte, não, mofo, não, espiadelas, não, casebres-coloridos-hipócritas, incoerentes, sim. Voltei para lá. A atmosfera convida. Tudo isso porque foi lá - lá - onde estive só, pela primeira vez, e assim, coube você. Sem edifícios. Apenas sinuosidade e uma rua ao meio, Direita, abrindo passagem.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008