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Jackson Martins
São Paulo / SP

Doze pequineses


Dia desses o Juvenal me telefonou. Bom menino. Queria marcar um happy hour para depois do escritório. Falei que precisava ser algo breve. Eu não queria voltar muito tarde para casa - morava longe do trabalho, estava um bocado cansado e tinha uma esposa espanhola de sangue tão quente quanto seu coração costumava ser. Enfim, estávamos lá, com os cotovelos no balcão enquanto jogávamos conversa fora entre muita risada e goles de Heineken. Gostava do bar do Gerôcio porque ele sempre tinha uma Heineken geladíssima quando eu mais precisava deu uma. Enfim, depois de toda aquela formalidade de boteco de perguntar sobre como vão as coisas, a família e o trabalho, entornarmos algumas geladas e a conversa começou a fluir melhor. Acho um porre essas convenções sociais. Sempre fico sem graça quando preciso perguntar sobre aquilo a que não dou a menor importância. Não que eu não dê a mínima para as coisas do amigo Juvenal, mas se algo não estivesse bem, ele não me chamaria tão animado para gelar a goela.
- Meu velho, ontem estava na minha mesa pensando na falta de tempo e de dinheiro pra cortar o meu cabelo, quando me aparece o Edimilso. "Carequinha da Silva". Pedindo a porcaria do grampeador emprestado. Considerando que o preço médio de um xampu razoável, desses simples de super-mercado é 4,50R$ e que gastamos um vidro de xampu mais ou menos a cada 20 dias, só de xampu o Edimilso economiza 81,00R$ por ano. Já um pote de condicionador leva em média 2 meses para acabar. Só de condicionador, o Edimilson economiza mais 27,00R$ ao ano. Se bem que o Edimilso não tem cara de quem usaria condicionador se tivesse cabelo pra isso.
- Cara, fala sério...
- Mas é sério, Juva. Escuta... Normalmente eu troco de pente uma vez por ano. Um pentinho simples, desses curtinhos sem cabo, feitos de plástico cor de asa de barata. Sabe desses que cabem no bolso? Custa por volta de 3,00R$. O Edimilso tem cara de ser desses que usariam um pentinho assim no bolso da camisa de manga curta. Ou melhor: o pentinho e o RG.
- Você contou até o pente de 3,00R$? Não acredito.
- Claro! Você pensa o que? É de grão em grão que a galinha enche o papo, meu velho. Agora vê se presta atenção... Onde pesa ainda mais no volume de economia capilar do Edimilso é no barbeiro. Se contar que um cara médio corta o cabelo todo mês por 30,00R$ - e olha que aquele lá não tem cara de quem gastaria muito mais do que isso pra dar um tapa na juba se tivesse uma - com barbeiro a economia do Edimilso é de 360,00R$ ao ano. Sem falar que o Edimilso também gasta menos gás ou eletricidade para aquecer a água do chuveiro, já que não precisa se entreter no ritual do "lava, enxágua, repete, condiciona, enxágua"... Com isso, chutando baixo, deve dar pra guardar uns 5,00R$ por mês, o que dá 60,00R$ por ano. Pra não dizer que eu sou metódico, vamos desconsiderar o custo com a água. Não deveria, mas vou desconsiderar. Essa azeitona tá uma delícia, hein Juvenal!
- Hahaha...
- Gostou, né? Agora escuta essa: sabia que o brasileiro médio costuma ter um ataque de caspa pelo menos uma vez no ano? Sabe-se lá por que razão, mas é assim. Alguns pegam uma carga dessa moléstia no verão, outros no inverno. Eu pego nas duas estações. Mas claro que não sou um brasileiro médio... Do nada começam a brotar casquinhas nos ombros. Alguns criam casquinha até nas sobrancelhas. Parece que o cara saiu debaixo de uma chuva de aveia. Enfim, o custo com um xampuzinho de tratamento meia-boca deve sair por volta de 15,00R$ ao ano. Considerando que a carga de caspa foi resolvida só com um xampu - mesmo porque o Edimilso não tem cara de quem gastaria com dermatologista pra curar caspa. Bom, no fim das contas a careca do Edimilso garante a ele 546,00R$ por ano. Sabe o que é isso? Meu velho, ele tem cara de quem já é careca há uns 10 anos, e tudo indica que ele deve permanecer careca pelo resto da vida. Daqui a 10 anos ele já teria economizado 10.920,00R$ se guardasse o dinheiro debaixo do colchão. Imagina então se aplicasse o dinheiro! Mas o Edimilso não tem cara de quem guarda dinheiro. Acho que nem se deu conta de que tem uma fábrica de milhões naquela careca horrorosa.
Claro que entre um raciocínio e outro as canecas iam e vinham, iam e vinham...
- Esses amendoins costumavam ser maiores, né Juvenal?
- Imagino que você já pensou no que faria se tivesse essa reserva anual.
- E não? Por ano, eu poderia fazer uma bela viagem pelo Brasil, pagar por um curso qualquer, assistir a uma palestra corporativa importante, economizar de dois a três meses de gasolina, levar a Pepita pra jantar em algum restaurante legal umas duas vezes no ano, beber umas seis garrafas de vinhos bacaninhas, ou assinar TV a cabo e colocar Internet banda larga em casa, pagar as contas de eletricidade do ano inteiro usando aquecedor no Inverno e tudo mais, comprar um monte de tranqueira pras crianças... E o pior é que o Edimilso não tem cara de quem viaja para lugares legais, nem conhece nada de vinho. Tem cara de quem deve levar a mulher pra jantar só sob muito choro e ranger de dentes, e ainda deve levar a coitada da Genoveva num boteco sem-janela qualquer. A vida decididamente não é justa.
- É... Acaba sendo uma coisa a se pensar.
- E você, que apesar de ter cabelo, raspa a cabeça com maquininha... Até onde eu sei, você comprou aquelas maquininhas chinesas de cortar cabelo pra não gastar com barbeiro, certo?
- Foi. Com o preço de dois cortes eu comprei a máquina.
- Muito bem, então você poderia guardar tanto ou mais dinheiro que o Edimilso por conta da sua careca. Você poderia usar sua maquininha pra raspar a cabeça da vizinhança inteira. Além de encher os bolsos estaria contribuindo para o acúmulo de renda dessas pessoas e para a melhoria das condições de vida do nosso país. Grande causa, Juvenal. Grande causa!
- Nunca tinha pensado nisso.
- Pois bem, agora que eu já te ensinei o caminho do sucesso, pague a conta que eu preciso ir embora. Afinal de contas, se eu fosse careca ficaria feliz em poder pagar uma cervejada pros meus amigos. Mas mesmo tendo cabelo aos montes, me conforta saber que tenho amigos prósperos e sem cabelos com que posso contar. Sabia que se eu guardasse todo o meu cabelo que fica preso no ralo do banheiro, no final do mês daria pra fazer um pequinês. Para quem tem tanto cabelo quanto eu, isso é o máximo até onde se pode chegar: doze pequineses inanimados por ano. Mas seria um pecado tosar um cabelo como o meu, não acha Juvenal?
Levantei da cadeira. Dei um abraço no Juvenal. Botei a blusa e fui para casa antes que a Pepita tivesse um troço.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008