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Ademar dos Santos Lima
Manaus / AM

Diário de um cachorro


Primeira semana:
Hoje completei uma semana de nascido. Que alegria haver chegado a este mundo!

Primeiro mês:
Minha mãe cuida muito bem de mim. Ela é uma mãe exemplar.

Segundo mês:
Hoje me separaram de minha mãezinha querida. Ela estava muito inquieta e com os olhos cheios de lágrimas. Disse-me adeus, na esperança de que minha nova família humana cuide tão bem de mim, assim como ela cuidou.

Quarto mês:
Agora, já estou crescido. Chamo à atenção de todos em meu novo lar. Há muitas crianças na casa, que para mim são como irmãos. Somos muitos sapecas, elas carregam-me no colo e eu, latindo as mordo.

Quinto mês:
Hoje me bateram. Minha ama molestou-me, só porque eu fiz pipi dentro de casa. Mas, eles nunca me disseram onde eu deveria fazer pipi. Além disso, durmo no chão e eu já não me agüentava mais.

Décimo segundo mês:
Hoje completei um ano de nascido. Agora, sou um cachorro adulto. Meus pais adotivos disseram que eu cresci mais do que eles imaginavam. Que orgulhosos devem estar de mim!

Décimo terceiro mês:
Hoje passei mal. Meu irmãozinho tirou-me os meus brinquedos. Eu nunca peguei nos brinquedos dele. Assim que ele os pegou eu corri em cima dele e dei uma pequena mordida. É que minhas mandíbulas ficaram muito fortes e o apertei sem querer. Depois disso, colocaram-me acorrentado, quase sem poder mover-se, exposto ao sol. Dizem que vão manter-me em observação e que eu sou um cachorro ingrato. Não entendo o que se passa.

Décimo quinto mês:
Nada é como antes... Vivo preso em um cercado. Sinto-me muito sozinho! Minha família adotiva já não me quer mais. Muitas vezes, passo fome e sede. Quando chove, não tenho um abrigo para proteger-me.

Décimo sexto mês:
Hoje me tiraram do cercado. Provavelmente, minha família compadeceu-se de mim. Eu fiquei tão contente que dava saltos de alegre. Puseram-me dentro de um carro e levaram-me para passear. Estávamos todos dentro do veículo, quando, de repente, pararam o carro, abriram à porta e eu saí, crendo que seria nosso dia de campo. Não entendi, quando repentinamente, fecharam a porta e partiram, sem sequer se despedirem. Então, gritei! Eu pensei que eles haviam esquecido de mim. Corri atrás do carro, com toda minha força, mas não consegui alcançá-los. A minha angústia crescia, ao vê-los desaparecer. Até que os perdi de vista! Foi aí que me dei conta, de que tinha sido abandonado!

Décimo sétimo mês:
Outro dia passei por uma escola e vi muitas crianças brincando, como os meus irmãozinhos faziam comigo. Então, me aproximei e um grupo deles, rindo, lançou uma chuva de pedras sobre mim para ver quem teria a melhor pontaria. Uma dessas pedras acertou em cheio o meu olho direito e, desde então, eu só vejo com meu olho esquerdo.

Décimo nono mês:
Parece até mentira, mas quando eu era novo e bonito, as pessoas se compadeciam mais de mim. Agora, que eu já estou fraco, com aspecto de um cachorro doente, cego do lado direito do olho, as pessoas expulsam-me às pancadas, não posso nem se quer descansar um momento à sombra de uma árvore.

Vigésimo mês:
Agora, já quase não posso levantar-me. Hoje, quando eu tentei cruzar a rua, um carro desgovernado, dirigido por um desses condutores fanfarrões, passou por cima de mim, deslocando-me a cadeira. A dor foi terrível, eu não senti mais minhas patas traseiras e tive dificuldades para caminhar desde então.

Vigésimo primeiro mês:
Fez dez dias que eu estava ao relento, pegando sol, chuva, frio e sem comer e beber nada. Eu não podia mais me levantar, a dor continuava insuportável e eu estava muito mal. Caí num lugar úmido e até meus pêlos estavam caindo. Muita gente passava e fingia que não me via. Outras viam, mas se afastavam de mim. Eu já estava quase inconsciente. Mas, alguma força estranha ainda me fez abrir o olho. Sua doce voz me fez resistir: "pobre cachorrinho, olha como te deixaram aqui", dizia... Junto a ela havia um homem de bata branca com uma injeção na mão direita, começou a tocar-me e disse: "sinto muito, senhora, mas este cachorro já não tem remédio que dê jeito, é melhor que ele deixe de sofrer". Então, a gentil senhora derramou suas últimas lágrimas e partiu. Eu, ainda pude levantar o rabo e acenar para ela, agradecendo pelas doces palavras de conforto. Logo, senti a picada da agulha e assim, dormi para sempre, pensando por que eu tive que nascer se ninguém me queria.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008