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O enxadrista e o Diabo
Eram dezesseis horas do dia 2 de agosto de 1561, na linda Espanha, quando Julien entrou numa pequena igreja em Segura. Sua última esperança era o padre que seu irmão, Pablo, recomendara. Pablo garantira a Julien que apesar de seu caso ser desesperador, padre Ruy López o ajudaria a encontrar uma solução, pois apesar de sua pouca idade padre Ruy era muito sábio. Julien
entrou rapidamente na igreja e perguntou ao coroinha que arrumava
o altar se padre Ruy se encontrava e, em caso contrário, onde
poderia encontrá-lo. O coroinha largou o hostiário de
prata que estava limpando no altar, olhou nos olhos desesperados de
Julien e apontou para o confessionário. Julien agradeceu com
um gesto de cabeça e dirigiu-se rapidamente para o confessionário
apontado pelo coroinha. Dito e feito. Exatamente às 21:00h do dia marcado o Diabo apareceu para cobrar sua parte no pacto, porém surpreendeu-se ao ver que Julien não estava sozinho, mas acompanhado de um homem de capuz com um manto em que se via uma grande cruz e disse: - Quem é ele? O que faz aqui? Foi então que o padre Ruy López se apresentou: - Sou
aquele que o desafia para uma partida de xadrez cuja vitória
assegurará a quem vencer a alma de Julien. Tomado de cólera e com sua vaidade ferida o Diabo respondeu: - Que seja então, mas saiba padreco que nunca perdi uma partida e somente se você me ganhar salvará a alma desse idiota. O Diabo usou seu poder e fez aparecer as peças e o tabuleiro. Por razões óbvias escolheu o exército negro dando a vantagem da saída ao padre Ruy López. Ficou estabelecido que a partida não teria tempo determinado devendo, portanto, ser jogada até que um dos jogadores abandonasse (hipótese fora de questão, já que os dois queriam vencer!) ou até que um deles levasse o xeque-mate. O jogo começou. Ruy López usou uma abertura de sua autoria que surpreendeu inicialmente o Diabo. Porém o Diabo foi aos poucos equilibrando o jogo, mas a vantagem da abertura ainda prevalecia. O Diabo capturou a dama de Ruy López com seu bispo e olhou altivamente para o padre com um sorriso irônico na boca acreditando que já havia ganho, pois ainda tinha sua dama e, devido a ela, possuía ampla vantagem material em comparação com o padre. O homem santo manteve-se impassível à alegria do demônio e deu xeque nele com seu bispo. O Diabo interpôs seu cavalo e cessou o xeque, porém Ruy López movimentou seu cavalo e sem perdão disse ao Diabo: - Xeque-mate! O Diabo surpreso olhou para o tabuleiro e ao notar que as peças após o xeque-mate formavam uma cruz transformou-se imediatamente numa nuvem de enxofre e desapareceu amaldiçoando Julien e o padre. Julien estava salvo e foi deste modo que a abertura do padre Ruy López de Segura ficou famosa no mundo enxadrístico por ser a abertura que derrotou o Diabo. |
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| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |