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Baile de máscaras
Havia anoitecido. As estrelas daquela linda noite vieram acompanhadas de um forte vento sul, que entrava na sala de aula cortando por entre as cortinas, como se estivesse chegando atrasado para responder a chamada. Apesar do frio que ele trazia, sentíamos que a temperatura da sala de aula estava quente, e estava aumentando a cada instante, tornando-se quase insuportável. A professora Lúcia Helena, competente como poucos na arte da didática, interrompeu a sua brilhante e ilustrativa aula para fechar as seis janelas da sala, por onde o vento adentrava sem pedir licença. Em seguida, solenemente, foi em direção ao aparelho de ar-condicionado que ficava do outro lado do recinto, postado do lado esquerdo de um armário antigo, porém muito bem conservado. O calor sufocante impediu que ela completasse o percurso, que tinha mais ou menos dez metros; apanhada de súbito no meio do caminho pelo calor asfixiante, ela sentou-se numa cadeira desocupada e permaneceu estática, como uma estátua. Preocupado com a sua saúde, tentei me levantar para prestar-lhe socorro, mas não consegui, pois minhas pernas não obedeciam mais ao meu comando, não se mexiam. Olhei ao meu redor e vi que todos estavam mudos, quietos, parados, como se estivessem brincando de estátua com a professora. Será que ela está fazendo alguma dinâmica de grupo? Repentinamente eu ouvi a minha voz, no entanto a minha boca estava inerte. Achei que era delírio provocado pelo calor, mas a voz adquiriu vigor, força, intensidade, se transformou em um grito, que sem querer deixei escapar em meio ao silêncio total. Senti uma paz, uma sensação de liberdade tão grande, quase indescritível. O grito, um rugido, levou consigo o calor. Os dois saíram num piscar de olhos por um vão localizado abaixo da porta da sala, uma velha tábua de madeira, pintada com a cor alaranjada e cheia de cupins. Restaurado, sentindo-me mais aliviado, comecei a falar sem parar, mas as frases que saíam da minha boca não eram declaradas sob o meu comando. Foi assustador. Percebi que eu já não tinha mais posse do meu corpo e que a minha consciência tinha controle total sobre ele, mas eu não a controlava. Ela agia de acordo com as suas intenções. Fiquei à sua mercê; era um fantoche que conseguia ver e ouvir tudo o que acontecia ao meu redor, mas os meus movimentos eram comandados, num instante inimaginável, por uma mente que se apresentou perturbadora. Ao comando da minha consciência, minha boca começou a disparar frases degradantes e reveladoras contra os meus colegas: - Santa! Sua imoral! Você faz pose de pudica, mas de Santa você tem só o nome, sua desavergonhada! Eu não entendia o que estava acontecendo. Subitamente, minha consciência ordenou que minha cabeça direcionasse o olhar para a minha esquerda, onde, abaixo de um ultrapassado e barulhento ventilador de teto, que girava apenas por girar, estava postado Jaime. Sem que eu pudesse fazer nada para impedir, a minha consciência deu uma ordem aos meus lábios, que responderam prontamente: - Jaime, seu néscio! Nesses últimos três longos anos você vem fazendo perguntas estúpidas aos professores, perguntas que você faz sempre fora de hora, no momento mais inoportuno possível. Ah, as suas piadas são uma catástrofe! Com a velocidade de um raio, quando eu já não controlava mais nada, o meu olhar foi direcionado para Fernanda, que estava logo à frente de Jaime, sentada numa daquelas cadeiras de braço. O meu olhar penetrou a garota. Como quem prevê algo, senti que ela também seria metralhada pela minha consciência, através de palavras que tentamos não pronunciar todos os dias. Não deu outra: - Te convidei para ir até o bar do Alemão na sexta-feira passada por piedade! Saiba que você beija muito mal e seu hálito tem um odor que quase não dá para suportar! Fiquei estarrecido com as palavras emitidas por mim, todas sem o meu comando. Notei que parte da minha mente comandava meus pensamentos, outra parte chefiava o movimento dos meus lábios, uma terceira parte era passiva a tudo que acontecia e apenas me permitia assistir a tudo sem poder fazer nada, sem poder mover um único músculo que me permitisse acabar com aquela sessão de ofensas. Tomei consciência de que as pessoas presentes na sala, no total de vinte, também estavam fixadas nas suas cadeiras, e talvez por isso elas não tenham revidado as minhas agressões verbais. Talvez esse fosse o motivo de elas não tentarem me linchar, presumi. Havia apenas uma diferença entre todos nós: a de que eu era o único com a capacidade de falar, e ironicamente, também era o único que não queria falar mais nada, porque minha consciência estava passando de todos os limites, estava arruinando parte da minha vida social. Os demais bem que tentavam se pronunciar, - eu podia ver as suas bocas tremendo, cada vez mais velozes e furiosas. Suas expressões de ódio eram assustadoras, mas eles não conseguiam falar uma única vogal. Eram como árvores plantadas nas cadeiras, uma platéia de mudos. Senti que tudo podia falar, e, analisando toda a situação, concluí que nenhum deles poderia me afetar. Fiquei mais calmo. Foi aí que uma sensação de sarcasmo misturada com ironia e despudor tomou conta de mim por inteiro. Aquela situação de ver os outros imobilizados dos pés à cabeça, sem poderem se expressar por gestos ou palavras, apenas por meio de expressão facial, acendeu-me uma idéia que eu tinha há muito tempo, mas que nunca havia colocado em prática. Comecei a falar o que realmente sentia por cada um daquela sala. Entendi que as frases pomposas disparadas contra a Santa, o Jaime e a Fernanda nada mais eram do que as minhas verdadeiras opiniões. Depois de quatro minutos, metade da sala teve seus segredos e suas franquezas revelados; os outros souberam como cada um é na realidade segundo o meu ponto de vista. Suas expressões oscilavam entre ódio e vergonha. O circo estava armado, as expressões ficavam mais tensas a cada segundo que se passava - e como demorava a passar o tempo! Parecia final de campeonato mundial. O cheiro de suor, de estresse, infectava os nossos pulmões. Passaram-se mais dois minutos, faltavam apenas quatro para o intervalo. Eu tinha muito a dizer e, efetivamente, disse. Até o instante em que eu proferi algo em que jamais havia pensado. Eu jamais pensara, jamais sonhara dizer a Juliana que ela tinha os seios caídos. Definitivamente, eu não compactuava com a idéia de que os seios da Juliana eram caídos. Tudo estava confuso novamente. Pensamentos que nunca foram meus me dominaram, e sem controle algum eu dizia todos, um a um, usando vocabulário que não me pertencia. Passei a não entender mais nada; já estava muito nervoso. Foi então que, pouco a pouco, os meus colegas mudaram as suas expressões. Eles estavam mais envergonhados do que eu. Estavam mais surpresos do que eu. Deu-me um estalo: aqueles pensamentos e opiniões não eram meus, pertenciam a eles, e isso os deixou encabulados. As verdades que passaram a ser ditas não eram minhas. Eureca! Através de uma sensibilidade tremenda a minha mente captou os pensamentos dos meus colegas e os proferiu sem dó nem piedade. Bem que tentaram desviar os seus pensamentos, mas foi em vão. As máscaras começam a cair, uma a uma. A minha consciência ia sorrateira e certeira como uma flecha afiada nos pensamentos mais pervertidos e opiniões mais insustentáveis de cada um deles. Mais três minutos se passaram. Aconteceram muitas coisas em nove minutos. Todos estavam constrangidos, era visível, pois todos tiveram os seus pensamentos mais íntimos declarados, destrinchados. As suas opiniões verdadeiras foram descobertas, os seus reais sentimentos foram expostos. Apenas uma pessoa não havia sido desmascarada, literalmente desmoralizada: eu. Enquanto me preparava emocionalmente para a saraivada de críticas, tocou a sirene que marca pontualmente o horário do intervalo. Eram 20h00min, noite de ontem. Como num passe de mágica, como se existisse algo mais inexplicável do que acontecera naqueles dez minutos, eu consegui mexer os meus braços, minhas pernas, retomei o comando do meu corpo e da minha consciência, bem como os demais presentes naquela sala de aula. A temperatura dentro da sala ficou amena; as janelas foram reabertas. Colocamo-nos na nossa real posição, a de hipócritas, falsários. Todos estavam novamente em igualdade de condições. Clarinha nem se mexia, nem olhava para os lados, tamanha a perturbação moral produzida naquele momento. Foi nitidamente visível, todos estavam profundamente envergonhados. Para interromper aquele silêncio constrangedor, convidei todos a tomar um café bem forte. Todos aceitaram, exceto Marta, que teve uma crise de gastrite. Então, como se nada tivesse acontecido, recomeçou o "baile de máscaras". |
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| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |