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O amigo de Olavo Bilac
De "pobre coitado!" a "Saia daqui, verme!", nosso bebum costumava escutar todos os tipos possíveis de ladainhas sociais. - Extraterrestres com lantejoulas cinzas e algumas roxas?! Vá dormir, que o senhor precisa! -lamentavam os mais maduros. Outro transeunte, um senhor de sessenta e poucos anos, mais tolerante e abastecido de compaixão, provavelmente adepto de uma das casas do Senhor, certo dia lhe forneceu um cartão de visitas, caso necessitasse de alguma ajuda. De qualquer maneira, entre hostilidades e compaixão, destes antagonismos que lhe eram freqüentes, Thomas aprendeu a reconhecer, apesar da embriagues acentuada, dois grupos em particular: uns que o achavam louco e outros que o achavam bêbado inveterado. Em geral, aos sujeitos metropolitanos, parecia nada além de triste piada periférica. Desconheciam sua outra faceta, considerando que o vício parecia ter-lhe tomado de assalto a alma, em totalidade. Conscientes da metade se sua história e suas amizades, poderiam substituir as injúrias por aplausos - não era uma reação costumeira. Extraterrestres
não existem, pelo menos de acordo com as convicções
sãs dos cidadãos de bem. Aqueles que afirmam tê-los
visto constituem pequena escala. Desta minoria, raros se caracterizam
ainda por um vício como o de Thomas. Inicialmente,
o próprio Thomas pensou se tratar de forte alucinação
conseqüente de várias doses de uma cachaça rara
do campo, e em reação agônica e inesperada, lançou
o copo ainda cheio de uma nona dose no lixo. Recebia alguma alimentação de alguns operários que trabalhavam em construções nos arredores da Avenida Central, e por vezes iniciava alguma comunicação com um ou outro. Embora profundamente triste e abalado pelo incidente extraterrestre (pois perdera o contato com outros amigos célebres após o conhecimento), gabava-se por ter um amigo como Olavo, presente nas mais importantes ocasiões da vida. Às vezes, para um auto-entretenimento, algum operário perguntava a Thomas sobre a célebre amizade, ao passo que o bêbado confirmava com afinco a integridade da personalidade de Bilac: - Olavinho? Sujeito boa praça... Outro dia, me trouxe uma cachaça de Itamarandiba que só Clarice Lispector achou amarga! Se compreendesse o quanto se tornara piada grotesca, não falaria com nenhuma alma deste mundo. Pobre povo que não o compreendia... tinha muito a ofertar, com boas cachaças, boas histórias e belíssimos amigos. Jurava a todos que seus amigos apareceriam eventualmente, para confirmar todos os episódios fantásticos e lançar às chamas da vergonha os piadistas e zombeteiros que o cercavam. Bastaria a presença de Olavinho para toda a cidade lhe prestar reverências. Promessas de muitas ocasiões; nunca confirmadas... era mesmo entregue ao álcool e às alucinações, por tantos e tantos anos, na mesma avenida central. Quando padeceu, vítima de um atropelamento, formou-se um extenso grupo de transeuntes, idosos, operários e curiosos, para ver o corpo ébrio estendido no cenário de uma vida borrada. Em meio à multidão e às ambulâncias, uma senhora de boa idade avistou Olavo Bilac, um tanto emocionado, estático em frente a uma banca de jornais próxima, e o apontou para o povo. A avenida
estremeceu. Olavo Bilac chorou, Charles Chaplin lhe trouxe um lenço
suíço e toda forma humana saiu correndo. |
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| Publicado
na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008 |