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Sylvia Maria Marteleto
Belo Horizonte / MG

O amigo de Olavo Bilac


Havia um bêbado - destes pobres, insanos e inconvenientes filhos mais velhos da galáxia infernal - que dizia a todos que passavam pela Avenida Central, que fora abduzido por extraterrestres cheios de lantejoulas cinzas e algumas roxas. Chamava-se Thomas e afirmava ser amigo íntimo de Olavo Bilac, dentre outras celebridades do mundo das letras.

De "pobre coitado!" a "Saia daqui, verme!", nosso bebum costumava escutar todos os tipos possíveis de ladainhas sociais.

- Extraterrestres com lantejoulas cinzas e algumas roxas?! Vá dormir, que o senhor precisa! -lamentavam os mais maduros.

Outro transeunte, um senhor de sessenta e poucos anos, mais tolerante e abastecido de compaixão, provavelmente adepto de uma das casas do Senhor, certo dia lhe forneceu um cartão de visitas, caso necessitasse de alguma ajuda. De qualquer maneira, entre hostilidades e compaixão, destes antagonismos que lhe eram freqüentes, Thomas aprendeu a reconhecer, apesar da embriagues acentuada, dois grupos em particular: uns que o achavam louco e outros que o achavam bêbado inveterado.

Em geral, aos sujeitos metropolitanos, parecia nada além de triste piada periférica. Desconheciam sua outra faceta, considerando que o vício parecia ter-lhe tomado de assalto a alma, em totalidade. Conscientes da metade se sua história e suas amizades, poderiam substituir as injúrias por aplausos - não era uma reação costumeira.

Extraterrestres não existem, pelo menos de acordo com as convicções sãs dos cidadãos de bem. Aqueles que afirmam tê-los visto constituem pequena escala. Desta minoria, raros se caracterizam ainda por um vício como o de Thomas.
Gostem ou não os leitores, sempre existem os que viram estes tipos de formas humanas, e até os que sabem que enxergaram algo nem tão humano assim.

Inicialmente, o próprio Thomas pensou se tratar de forte alucinação conseqüente de várias doses de uma cachaça rara do campo, e em reação agônica e inesperada, lançou o copo ainda cheio de uma nona dose no lixo.
Mas, a idéia era mesmo de nítida impressão acerca da realidade. Tomara desta cachaça muitas e muitas vezes, cachaças piores confeccionadas com substâncias da Finlândia, reconhecida pela confecção de cachaças mais fortes que o habitual. Tal forma assumiu-se realidade, pois além da ciência pelo que presenciou, conversara muito com o seu amigo Olavo, que se tornou o único a acreditar em suas histórias.

Recebia alguma alimentação de alguns operários que trabalhavam em construções nos arredores da Avenida Central, e por vezes iniciava alguma comunicação com um ou outro. Embora profundamente triste e abalado pelo incidente extraterrestre (pois perdera o contato com outros amigos célebres após o conhecimento), gabava-se por ter um amigo como Olavo, presente nas mais importantes ocasiões da vida.

Às vezes, para um auto-entretenimento, algum operário perguntava a Thomas sobre a célebre amizade, ao passo que o bêbado confirmava com afinco a integridade da personalidade de Bilac:

- Olavinho? Sujeito boa praça... Outro dia, me trouxe uma cachaça de Itamarandiba que só Clarice Lispector achou amarga!

Se compreendesse o quanto se tornara piada grotesca, não falaria com nenhuma alma deste mundo. Pobre povo que não o compreendia... tinha muito a ofertar, com boas cachaças, boas histórias e belíssimos amigos. Jurava a todos que seus amigos apareceriam eventualmente, para confirmar todos os episódios fantásticos e lançar às chamas da vergonha os piadistas e zombeteiros que o cercavam. Bastaria a presença de Olavinho para toda a cidade lhe prestar reverências. Promessas de muitas ocasiões; nunca confirmadas... era mesmo entregue ao álcool e às alucinações, por tantos e tantos anos, na mesma avenida central.

Quando padeceu, vítima de um atropelamento, formou-se um extenso grupo de transeuntes, idosos, operários e curiosos, para ver o corpo ébrio estendido no cenário de uma vida borrada.

Em meio à multidão e às ambulâncias, uma senhora de boa idade avistou Olavo Bilac, um tanto emocionado, estático em frente a uma banca de jornais próxima, e o apontou para o povo.

A avenida estremeceu. Olavo Bilac chorou, Charles Chaplin lhe trouxe um lenço suíço e toda forma humana saiu correndo.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 14 - Junho de 2008