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José
Henrique Gomes Gondim
Natal
/ RN
Esperança
nas estrelas
O fim de tarde chega e a mesma imagem de vários meses se repete.
O garoto sentado sobre uma pedra no alto, num lugar íngreme
com o olhar perdido para o horizonte. Mesmo aqueles que lhe conheciam
não conseguiam diagnosticar qual o motivo daquele ritual. Não
importava qual a brincadeira da qual estivesse participando. Até
mesmo uma disputada pelada com os amigos de rua, não era capaz
de privá-lo daquele momento solitário. Somente com o
cair da noite, ao aparecer às primeiras estrelas, o garoto
se levantava lentamente e voltava para a casa onde morava com a sua
mãe. Ela o havia criado sozinha. O garoto sentia muita falta
do pai e todas as vezes que perguntava por ele a sua mãe, ela
respondia que ele havia morrido na guerra. No dia 24 de dezembro,
o garoto estava sentado sobre a pedra no início da noite, quando
foi picado na perna por um escorpião. Apesar do seu grito de
dor e dos pedidos de socorro, ninguém conseguia escutá-lo.
Todos estavam em suas casas, arrumando-se para a ceia do natal.
Na pequena casa onde moravam, mesmo sem condições, sua
mãe havia preparado um jantar para os dois e colocado um presente
junto à árvore de natal.
Já passava das oito horas quando sua mãe começou
a ficar preocupada. Saiu andando pelas ruas e perguntando por ele
aos vizinhos. Todos respondiam que não. Ela se desesperou e
começou a chorar. Ao seu lado estava sentado um mendigo, que
por algum tempo pedia esmolas e dormia naquela esquina. Era um homem
alto, de traços finos, porém barbudo e maltrapilho.
Ao ver o desespero da mulher, perguntou:
- Posso ajudá-la, senhora?
- Por favor, o meu filho está desaparecido. Ajude-me a encontrá-lo...
- O seu filho é o garoto das estrelas?
- Sim. É assim que os vizinhos chamam o Pedro.
- Fique tranqüila, eu vi quando o seu filho foi lá para
a pedra do alto. Pode ir para casa que eu vou lá buscá-lo.
Logo ele estará em casa.
Pela primeira vez naquela noite, a face de Elza, a mãe de Pedro,
parecia não sentir medo. Ela foi para casa terminar o jantar
de Natal, enquanto o mendigo subia a encosta em busca do garoto. Alguns
minutos de subida e o mendigo chega à pedra onde Pedro costumava
contemplar as estrelas. Logo foi surpreendido pela cena; o menino
estava caído, com um corte na cabeça, desacordado e
com febre. O mendigo percebeu ao lado um escorpião preto e
deduziu que o garoto havia sido picado e com a dor caiu da pedra e
bateu com a cabeça. Não hesitou: tratou de estancar
o sangramento do corte, afrouxar as roupas do garoto e com ele nos
braços desceu correndo a encosta em direção ao
hospital da cidade que ficava próximo do local. No trajeto,
apesar de curto, o mendigo que era médico, lembrou dos horrores
da guerra e de todos os seus companheiros mutilados que teve de carregar
sob o bombardeio dos aviões inimigos. Chorava e rezava, pedindo
para que a vida daquele garoto fosse poupada em detrimento da sua.
- Senhor, poupe a vida desse garoto. Ajude-me a salvá-lo e
depois pode levar-me. Eu já perdi muitos amigos, não
queria que aquela mãe perdesse o seu filho.
Antes de terminar suas preces, já estava passando pela porta
principal do hospital.
- Socorro, socorro, ele foi picado por um escorpião, sangrou
muito e está desacordado!
Rapidamente a equipe de plantão tomou o garoto de seus braços
e o colocou na maca para a aplicação do soro antiaracnídico.
Os procedimentos iniciais foram tomados e foi constatada a necessidade
de uma transfusão, já que o garoto havia perdido bastante
sangue pelo corte na cabeça. De imediato chamaram o mendigo
para uma tipagem sanguínea, visto que o sangue do garoto era
0 negativo e só poderia receber aquele tipo de sangue que estava
em falta no hospital. Como um milagre de Natal, o sangue era do mesmo
tipo e pode ser doado para salvar a vida de Pedro. Duas horas depois
o médico chamou o mendigo em sua sala:
- Parabéns
Senhor. O seu rápido procedimento e principalmente a transfusão
de sangue salvou a vida do seu filho.
O mendigo surpreso retrucou:
- Estou feliz por ter salvo a vida do garoto, mas ele não é
meu filho.
- Como não? Quando colhemos os sangues seu e dele fizemos o
teste de DNA e não existe nenhuma dúvida que você
é o pai do garoto.
O mendigo chorava estático enquanto um filme passava rapidamente
em seus olhos. “Antes de ir para a guerra, o então capitão
médico do exército havia conhecido uma linda moça
naquela pequena cidade com quem teve uma noite de amor. Levou no coração
a esperança de voltar e casar-se com ela. O trauma da guerra
não deixou. Ele havia perdido a vontade de viver.”
A linda jovem que havia engravidado do médico antes da partida
para guerra, nunca recebeu dele nenhuma notícia e guardava
em seu coração uma longínqua esperança
de um dia vê-lo novamente. Era assim que ela sempre respondia
para o seu filho quando perguntada por ele sobre o seu pai.
O mendigo explicou ao médico o que havia acontecido e os dois
trocaram um longo abraço. Ajudado pelo colega, o mendigo foi
até o vestiário, tomou banho, tirou a barba e cortou
os cabelos. O médico lhe emprestou roupas brancas e deu alta
ao garoto. O doutor Jerônimo, capitão médico do
exército, pegou o seu filho que ainda dormia nos braços
e seguiu em direção a casa dele. Ao chegar entregou
o jovem Pedro nos braços de sua mãe que abraçou
o filho emocionado e fitou o homem perplexa. Antes que ela falasse
alguma coisa, ele lhe disse:
- Só agora, meu amor, eu pude retornar e lhe trouxe o nosso
filho de volta. Deus guardou essa noite de Natal para nos presentear.
Você teve o seu filho de volta; Pedro achou o seu pai e eu estou
vivo outra vez.
Os dois, com Pedro nos braços, trocaram um beijo apaixonado
sobre o olhar sorridente das estrelas.
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