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Lorena Inocência Marchesi Caetano
Vitória / ES

A quem pertencem os versos de amor?


A cadeira de balanço alternava a vista entre a copa das árvores e o jardim da entrada da casa no campo. Gentil senhora organizava sua memória silenciosamente, sob o descanso da tarde e o acalento da xícara de café. Podia pendurar as experiências no tronco da idade, tal qual as folhas verdes do abacateiro. Deixava curiosa a pequena netinha a cada vez que se recolhia para pensar; e ansiosa pela estória que desta vez ouviria.
“Por que canta esta música, vovó?” Apresentou-se finalmente, depois de esperar por tanto tempo sentada atrás, à porta de casa; Aproximou-se, mas vovó já sabia que ela estava lá.

“Esta música, e a acho bonita, embora triste. Você não acha que todas as músicas deveriam ser alegres?” E recebeu apenas um balançar de ombros, pois netinha era pequena demais para entender. “A natureza também canta...” E mostrava um sabiá pulando as ripas da cerca. “... mas não como no Vale Cantante”.
O Vale Cantante era o lugar dos sonhos de vovó, que ela sonhava desde muito jovem. Sonhava que era a princesa Sonora, cujo canto continha vida. Bem cedinho acordava, todos os dias, e ia, saltando e cantando, pelas ruas do reino. Cantava Sonora e o sol se levantava. As flores brotavam ao que a princesinha passava. Ao rosto da cantora lançava-se o vento. Abriam-se-lhe as janelas das casas do reino. Sonora e feliz, parava para ouvir o eco das montanhas em coro, então dava uma risadinha e voltava para casa.
Um dia viu que surgia bem longe a semelhança dum homem sobre montaria que se aproximava cada vez mais rápido, revelando a identidade de Amor. Vinha apressado pedir aliança com o Rei Fortíssimo para enfrentar os exércitos do reino de Regra, que avançavam para invadir Poesia. Apercebendo-se dos olhos de Sonora, que o olhava encostada na janela que dava de frente para o jardim de recepção do palácio, fez-lhe mesuras de cavalheiro e no seu coração amor lhe prometia. Naquele mesmo jardim recitava seus versos de liberdade à princesinha e desejava também sua voz para encantar seus dias futuros.
Havia, entretanto, nas cortes de Regra uma astuta e ambiciosa cortesã, que desejava para si muito além dos caros tesouros que tinha. Queria poder sobre o príncipe. Queria poder sobre Poesia. Fez um feitiço de laço e aprisionou com seu beijo a mente, os olhos e os versos de Amor. Sonora, esquecida, em vão implorou a seu pai seu perdão ao autor de Poesia, que não quis mais ouvir sua música para cumprir as medidas de Regra.
Com o tempo passando, Poesia foi povoada por métricas, rimas, formatos e toda qualidade de pontos e vírgulas nascidas em Regra. Amor subjugou-se e foi morrendo, morrendo. Sonora entristeceu-se e o seu canto foi cessando, cessando.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008